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Luiza Andaluz: uma voz feminina na história da Igreja em Portugal

Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima

“No apostolado da “Boa Imprensa” e no paradigmático caso da União Gráfica, onde as SNSF trabalharam como verdadeiras ‘operárias’ ”. Foto: União Gráfica [s/d], Arquivo Histórico da Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima.

Nesta quarta-feira, 27 de outubro, será lançado em Santarém o terceiro volume dos escritos de Luiza Andaluz (1877-1973), fundadora da Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima (SNSF). Depois de publicadas as suas Memórias e os seus Pensamentos, o Centro de Conhecimento Luiza Andaluz promove agora a edição de centenas de cartas dirigidas pela fundadora às irmãs da sua comunidade. Parte do percurso absolutamente original desta congregação religiosa feminina portuguesa ecoa naquelas missivas, cujo teor eminentemente prático acrescenta aos escritos anteriormente publicados uma componente ativa de liderança de que Luiza Andaluz nunca abdicou.

Fundada em 1923, a Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima assumiu um papel pioneiro em vários sectores da sociedade portuguesa: na educação e escolarização femininas; na obra catequética; nos centros paroquiais e no serviço social; no apostolado da “Boa Imprensa” e no paradigmático caso da União Gráfica, onde as SNSF trabalharam como verdadeiras “operárias” (veja-se a esse propósito a fotografia que ilustra este texto); na presença nas periferias sociais (com exemplos como os da dinamização da Obra da Pastoral e Promoção dos Ciganos ou na Comunidade Vida e Paz) e em contexto missionário (com o projeto de promoção da mulher africana, logo a partir dos anos 1960 em Moçambique).

A identidade apostólica da Congregação consolidou-se depois de uma discussão prolongada, e riquíssima do ponto de vista teológico e eclesiológico, em torno das dimensões da “contemplação” e da “ação”, cujos resultados firmaram o lugar das SNSF na reconfiguração da identidade e liderança femininas no interior da Igreja Católica e da sociedade portuguesa ao longo do século XX: quer através da procura de uma “outra” forma de vida religiosa (veja-se a representação habitual das Servas como as “religiosas sem hábito”), quer através de uma reflexão própria sobre o lugar de Fátima e da devoção mariana na vida da Congregação.

Assumindo uma postura ativa e autorrepresentando-se como “apóstolas” – “Sejamos apóstolas”, instava Luiza Andaluz nos anos 50 –   as SNSF cedo se demarcaram de uma catalogação externa que as tentou funcionarizar como “auxiliares do clero”, aspirando desde as suas origens a uma autonomia eficaz e produtiva, sempre pautada pela valorização da obediência à hierarquia, mas raramente limitada por ela no serviço à Igreja.

O Centro de Estudos de História Religiosa (UCP-CEHR) desenvolve atualmente, em estreita colaboração com a congregação das SNSF, um projeto de investigação em torno da História desta comunidade, estruturado nestes últimos anos sobre a consulta e análise aturadas de dois fundos arquivísticos fundamentais: o Arquivo Histórico da Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima e o Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa, ambos impecavelmente organizados e acessíveis aos investigadores em geral. Se neste segundo, as vozes femininas são parcelares e repetidamente filtradas, vertidas ou acantonadas pelas vozes masculinas dominantes; no primeiro, o lugar do feminino é preponderante e multifacetado e sob a liderança de Luiza Andaluz e, na sua esteira, as vozes das mulheres multiplicam-se e fazem-se ouvir.

Agregando documentação muito diversa, que abrange os escritos de Luiza Andaluz, as atas do Governo e dos Capítulos, documentação epistolar de origem variada, relatórios, mapas, fotografias, etc., este conjunto de fontes reúne uma série de forças, fragilidades, persistências e contradições que, tendo necessariamente de ser analisadas na sua interconetividade e complexidade, ajudam a definir a especificidade da história da congregação, cujo percurso já longo – as Servas de Nossa Senhora de Fátima comemorarão em 2023 os seus cem anos de existência – é parte integrante da história da Igreja e da história das Mulheres em Portugal.

 

Rita Mendonça Leite é Investigadora do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa (UCP-CEHR).

 

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