Há congressos que aprovam documentos. Outros que produzem apenas declarações protocolares. E há os que revelam, quase sem querer, para onde sopra o vento da história. O recente Congresso Mundial dos Salesianos Cooperadores, que decorreu de 7 a 10 de maio, em Roma, está claramente nesta última categoria.
As linhas programáticas para 2026-2032, os debates realizados e os documentos aprovados durante os dias do Congresso mostram uma associação consciente de que entrou numa nova etapa histórica. Não se trata apenas de reorganizar estruturas ou atualizar regulamentos internos. O que está verdadeiramente em causa é perceber como continuar a ser presença significativa num mundo em acelerada transformação cultural, social e tecnológica.

O que está verdadeiramente em causa é perceber como continuar a ser presença significativa num mundo em acelerada transformação cultural, social e tecnológica. Foto: DR
A proposta de reorganização da presença africana em duas regiões distintas é particularmente reveladora. Não é apenas uma decisão administrativa. É um sinal de que o centro de gravidade da Igreja Católica e da própria Família Salesiana se desloca progressivamente para o hemisfério sul. África já não é apenas “território de missão”; é espaço de crescimento, criatividade pastoral, vitalidade comunitária e renovação eclesial. Esta proposta foi aprovada por unanimidade por todos os coordenadores provinciais.
É precisamente aqui que a lusofonia ganha uma importância estratégica muitas vezes ignorada. O português tornou-se uma das grandes línguas do hemisfério sul, com mais falantes. Mais do que herança histórica, a lusofonia representa hoje uma ponte viva entre continentes marcados por desafios semelhantes. Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Timor-Leste vivem realidades distintas, mas partilham problemas comuns: juventudes fragilizadas, desigualdades sociais, urbanização acelerada, migrações, crise da família, dependência digital e profundas mudanças culturais.
Talvez por isso o Congresso tenha insistido tanto em temas como identidade, pertença, espírito de família, formação integral e centralidade dos jovens. Curiosamente, aquilo que os Salesianos Cooperadores reconhecem como sua maior força é também aquilo que mais temem perder. A identidade salesiana, a formação, o sentido de pertença e a relação com os jovens aparecem simultaneamente como riqueza e fragilidade.
Mas o Congresso deixou também um sinal de esperança: os jovens não querem apenas ser destinatários da pastoral. Querem ser protagonistas. Pedem escuta, espaço real de decisão, corresponsabilidade e autenticidade. Não procuram apenas estruturas eficientes ou discursos modernos; procuram testemunhos coerentes e comunidades capazes de gerar relações humanas significativas.
É neste contexto que ganha particular relevância o debate sobre a atualização do Projeto de Vida Apostólica (PVA), a regra de vida dos Salesianos Cooperadores. Mais do que um regulamento, o PVA foi apresentado como uma “carta de identidade viva”, em evolução contínua. Esta visão mostra uma compreensão dinâmica da própria missão: fidelidade às raízes, mas abertura permanente aos sinais dos tempos.
Também aqui a lusofonia pode desempenhar um papel decisivo. Existe um potencial ainda pouco explorado de cooperação pastoral, educativa e cultural entre os países de língua portuguesa. Não apenas através de encontros institucionais, mas pela criação de verdadeiras redes missionárias do Sul global. Redes capazes de partilhar experiências educativas, formação de líderes, projetos sociais, presença digital e respostas pastorais adaptadas às novas periferias humanas.
A insistência do Congresso numa presença pública mais visível e significativa mostra igualmente que a missão já não pode limitar-se aos espaços internos da Igreja. A transformação digital, a inteligência artificial, as redes sociais e as novas formas de comunicação exigem uma presença cristã credível nos territórios culturais onde hoje se formam consciências e identidades.
No fundo, a Associação sonhada pelos congressistas – “mais missionária, visível e presente na sociedade, próxima das famílias e das periferias, mais jovem, unida e capaz de esperança” – é também a imagem de Igreja que emerge cada vez mais a partir do hemisfério sul.
E talvez seja precisamente na lusofonia que essa transformação encontre um dos seus laboratórios mais promissores. Porque o português não é hoje apenas uma língua global. É uma língua do Sul. Uma língua falada entre periferias urbanas, comunidades jovens, culturas mestiças e povos chamados a enfrentar os grandes desafios do século XXI.
Portugal, tantas vezes tentado a olhar apenas para a Europa, talvez precise redescobrir aqui uma dimensão esquecida da sua vocação histórica: ser ponte entre continentes, culturas e experiências humanas diversas. Não por nostalgia imperial, mas pela possibilidade concreta de construir redes de cooperação, diálogo e esperança.
O futuro da missão católica e salesiana – e talvez também da própria presença pública do cristianismo – poderá passar cada vez mais por estas geografias humanas da lusofonia espalhada pelo hemisfério sul.

Portugal, tantas vezes tentado a olhar apenas para a Europa, talvez precise redescobrir aqui uma dimensão esquecida da sua vocação histórica: ser ponte entre continentes, culturas e experiências humanas diversas. Foto: DR
Sérgio Carvalho é professor. Contacto: novostempos.sergiocarvalho@gmail.com
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