
No próximo sábado, dia 20, o padre Tony Neves, missionário espiritano neste momento a trabalhar em Roma e colaborador frequente do 7MARGENS, irá apresentar o seu novo livro, Lusofonias, que reúne crónicas com o mesmo título publicadas entre 2021 e 2014 na Agência Ecclesia. Esta colaboração, já com 25 anos e com outros volumes de antologia publicados, foi replicada durante anos na Rádio Renascença e é ainda hoje transmitida em várias rádios da lusofonia de inspiração cristã.
A sessão decorre no auditório da Igreja de Jancido (Gondomar) e a apresentação será feita pelo bispo auxiliar do Porto, Joaquim Dionísio, que acompanhou o antigo provincial dos Missionários do Espírito Santo, padre José Manuel Sabença, em visitas missionárias a países como o México, Taiwan, Moçambique e Cabo Verde.
No prefácio que escreve, o cardeal Manuel Clemente, patriarca emérito de Lisboa, fala destes textos como uma “prosa que não se cansa nem perde a frescura”, que “soam a Evangelho, por mais recônditos que sejam os lugares e por mais modestos que sejam os protagonistas” e que incluem “muitas viagens, mas sempre ao encontro de alguém e assinalando vidas e locais com nomes e situações”.
Assinalando a publicação, o 7MARGENS reproduz a seguir duas das crónicas do livro.
O eco dos gritos da Amazónia

Barcos no Rio Amazonas: Durante mais de cem anos, os Espiritanos foram os únicos missionários na região. Foto © Tony Neves
A viagem de regresso da Amazónia a Portugal levou oito dias. Comecei na comunidade de Água Branca, lá nos confins de Fonte Boa. De lá saí de barco (não há alternativa!), passando por igarapés (riachos) e furos (atalhos de água), sempre a olhar para as margens, onde os jacarés aproveitavam o sol. Chegamos sãos e salvos a Fonte Boa e, nessa noite, tomei a lancha rápida para Tefé, aproveitando este barco que faz em dia e meio a distância entre Manaus e a fronteira com a Colômbia e o Peru, viagem que dura mais de 6 dias no habitual barco de recreio! Tive apenas um dia para encontrar o Bispo, D. José Altevir, Espiritano natural da Amazónia, recentemente nomeado para esta Prelazia confiada aos Espiritanos desde a sua fundação.
Tefé tem 420 comunidades rurais e urbanas, ficando Itamarati a 1547 kms da sede, com populações a viver em pobreza extrema. Foi muito bom partilhar com ele as alegrias e também as dificuldades de uma Igreja de barco com imensas dificuldades de encontrar remadores e dinheiro para pagar o combustível das embarcações. Também guardo memória grata do almoço com o Dr. Thomas Schwamborn e sua esposa. Ele chegou da Alemanha há mais de 40 anos, casou em Tefé e ali está até hoje. Dirigiu durante 33 anos a Rádio Educação Rural de Tefé, desde 1987 até à sua reforma recente.
Lembrou-me que, durante mais de cem anos, os Espiritanos foram os únicos missionários nesta região amazónica, deixando marcas únicas pelas vidas dadas em nome do Evangelho, fundando comunidades, formando pessoas, cuidando da sua educação, saúde, desenvolvimento integral, protegendo os rios e as florestas e defendendo as pessoas, sobretudo os povos indígenas e caboclos, das ganâncias de ter e de poder dos poderosos destas terras onde a borracha, a pesca, as madeiras e o garimpo davam milhões a muito poucos e condenava à miséria a maioria esmagadora das populações nativas ou migrantes. Os missionários foram a voz dos sem voz, defensores dos direitos humanos. A Rádio Rural, fundada em 1963, desempenhou um papel decisivo na evangelização, na formação integral das pessoas, na denúncia de violações dos direitos humanos, na preservação dos rios e das florestas.

Manaus: a Amazónia vive tempos complicados, mas desafiantes. Foto © DR
Voei de Tefé para Manaus, passando um intenso fim de semana nas periferias complexas da capital da Amazónia, na Paróquia de Cristo Redentor. Tive a alegria de celebrar nas comunidades de S. Francisco de Assis, Nossa Senhora de Montserrat, Luz dos Povos e Sagrado Coração de Jesus. Participei na cerimónia de entrega de 400 cestas básicas pelo voluntariado social da Honda, empresa com quase dez mil colaboradores em Manaus. A Paróquia, confiada aos Espiritanos, tem identificadas mais de meio milhar de famílias pobres, muitas delas refugiadas da Venezuela. Pude ainda encontrar e jantar com a Prof. Raimunda Shaeken, presidente da União dos Escritores da Amazónia.
A noite foi curta para viajar de Manaus até S. Paulo. Ali pude percorrer algumas artérias do centro e periferias desta megalópolis. Encontrei o Provincial, o Ecónomo, e os Responsáveis pelas Casas de Formação de Filosofia e Teologia dos Espiritanos. As horas de carro, na ida e volta ao aeroporto, ajudaram-me a perceber porque há tantos sem abrigo no centro e tantas favelas pobres nas periferias. Há 72 mil moradores de rua identificados e cerca de 330 mil casas vazias…
A Amazónia que eu visitei vive tempos complicados, mas desafiantes. Comecemos pelo negativo: a escolaridade é frágil, a saúde débil, há muito abuso sexual no âmbito das famílias, com índices alarmantes de maternidade precoce, há muita corrupção política, são comuns os assaltos a casas e embarcações, regista-se um aumento de traficantes e pirataria nos rios, a invasão de grupos auto-proclamados de ‘evangélicos’, o desemprego é elevado, há um aumento significativo de pessoas afectadas pelo álcool e drogas, mesmo nas comunidades da floresta, a economia é frágil com preços exorbitantes, uma vez que tudo tem de vir de Manaus.
Mas o lado bom é sempre maior e mais rico. Percebe-se que o povo amplifica os sonhos do Papa Francisco para a Amazónia: o social, o cultural, o ecológico e o eclesial. Há perspetivas de futuro que se abrem. O povo é feliz e acolhe sempre de braços abertos, como pude verificar em todas as visitas que fiz. E está disposto a defender os rios e as florestas. Com gente feliz e com fé, é sempre possível inventar um mundo melhor.
24.07.2023
Tony Neves, em S. Paulo
Os gritos ‘laranjas’ das favelas

Padre Júlio Lanzarote, que trabalha com moradores de rua em São Paulo (Brasil): a fé, a coragem, a luta andaram de mãos dadas com múltiplas conversas. Foto © Tony Neves
2 de fevereiro é dia grande para a Família Espiritana. Além de ser o Dia dos Consagrados/as, é a data da morte do P. Francisco Libermann, segundo fundador da Congregação do Espírito Santo.
Vivi um janeiro intenso, andando de favela em favela, aqui em S. Paulo, lá onde os Espiritanos vivem e trabalham, partilhando a sorte e a má sorte de milhões de pessoas a viver em condições muito precárias, enfrentando problemas e dificuldades de difícil solução.
Sem citar lugares nem nomes (por uma questão de proteção das pessoas que lá vivem), vou tentar partilhar o que senti, escutei, vi e experimentei na minha passagem por estas áreas faveladas. Muito ficará por dizer e reconheço, com humildade, que são impressões que valem o que valem, e tudo quanto escrevo apenas a mim pode comprometer.
A primeira confissão que quero fazer é que encontrei muita gente boa. Fartei-me de dar e receber abraços, de tomar uns cafezinhos deliciosos com pão de queijo a acompanhar, tive conversas em que a fé, a coragem, a luta andaram de mãos dadas. Mas também sofri ao ouvir dramas difíceis de compreender, tragédias que marcam vidas, pobrezas que atiraram famílias inteiras para a favela, donde dificilmente irão sair…
O que enche os olhos, sempre que podemos chegar a um lugar alto, é a arquitetura: regra geral, as casas nas áreas faveladas são construídas de tijolo, morro acima, com 2, 3 ou 4 andares, impressionando a paisagem laranja que nos faz apertar o coração, pois achamos que vai tudo desmoronar-se. A verdade é que, regra geral, estão bem construídas, apenas sendo derrubadas por chuvas muito intensas ou quando são construídas nas veias de água. Tiro o meu chapéu aos construtores da maioria das habitações nestes espaços de periferia pobre.
Impressiona a capacidade das pessoas mais pobres de aproveitar todos os centímetros de terra que dispõem. Constroem na vertical e as casas ganham todos os formatos possíveis, sem haver qualquer perda de espaço. Claro que não sobra nenhuma árvore nem espaços de cultivo. Também as ruas são o mais estreito que se possa imaginar, embora muitas vezes estejam quase a pique, sendo perigosa a sua subida e descida, sobretudo nos tempos de chuva.

Prostituição em São Paulo, Brasil: “A pobreza extrema gera sempre violência, resultante da luta dura pela sobrevivência.” Foto Wilfredor/Wikimedia Commons
A pobreza extrema gera sempre violência, resultante da luta dura pela sobrevivência. Áreas de concentração de pessoas excluídas tornam-se, muitas vezes, lugares de fácil atuação de grupos que traficam pessoas, drogas, armas e criam condições favoráveis ao surgir de gangues que assaltam e semeiam o pânico à sua volta. A verdade é que, quem não tem nada a perder, entra numa lógica de desespero onde vale tudo ou quase, impondo-se a lei do mais forte e a ‘globalização da indiferença’. Daí a urgência de acabar com todas as bolsas de miséria, abrindo caminho para um natural e eficaz combate a todas as formas de tráfico e atentados às liberdades e direitos humanos, saindo sempre em defesa dos mais frágeis.
.A Igreja Católica está presente nestes ambientes desafiantes e, testemunhando o Evangelho, é fonte geradora de esperança, distribuidora de solidariedade e construtora de cidadania responsável. As muitas visitas que fiz, as conversas multiplicadas e as celebrações vivas mostraram-me o rosto de bairros com gente cheia de vontade de construir vidas felizes e famílias a rasgar futuros de dignidade, tentando obter as condições mínimas para viverem seguras e respeitadas nos seus direitos mais elementares.
São milhões as pessoas que vivem nestas periferias pobres de S. Paulo. E o número aumenta cada dia que passa, bastando olhar para as áreas de cultivo e de mata que continuam a ser destruídas para a construção de mais habitações, após ocupação ou invasão. O êxodo do interior do país continua. A atração da grande metrópole paulista aumenta de dia para dia, com promessas e mais promessas de trabalho e prosperidade que, regra geral, as pessoas não encontram aqui à chegada, nem após alguns anos de vida dura.
D. Odilo Scherer, Cardeal de S. Paulo, elogiou a presença missionária nestes bairros de periferia. E explicou o porquê da sua admiração: ‘muitos líderes religiosos vão à favela, fazem o culto e regressam ao conforto das suas casas. Os missionários católicos vivem lá!’.
02.02. 2024
Tony Neves, nas periferias de S. Paulo










