Conclusões da assembleia da RENATE

Luta contra o tráfico humano: “O nosso grande foco tem de ser na educação”

| 21 Nov 2022

irma imelda poole na assembleia da renate em fatima, foto ecclesiaOC (1)

“Vivemos num mundo muito frio, onde o ser humano se tornou menos sagrado”, alertou a presidente cessante da RENATE, irmã Imelda Poole. Foto © Ecclesia / OC.

 

São “milhões” as vítimas de tráfico humano, e é preciso ajudá-las, protegê-las. Mas a pandemia de covid-19 e o consequente surgimento de “novos tipos de tráfico e exploração” vieram mostrar que há “um trabalho enorme a fazer” em termos de prevenção. Quem o diz é Ivonne van de Kar, que acaba de assumir a presidência da Rede Europeia de Religiosas contra o Tráfico e Exploração (RENATE), e que falou ao 7MARGENS na conclusão da assembleia geral que reuniu em Fátima, de 13 a 18 de novembro, perto de 100 membros daquela organização.

“O nosso grande foco tem de ser na educação, no sentido mais lato da palavra”, afirma a leiga holandesa, de 59 anos, que acompanha as atividades da RENATE desde o seu início, em 2009, e que agora assume a liderança até 2027. “Precisamos de ir às igrejas, às escolas, às associações, empresas… Precisamos de educar particularmente os mais jovens sobre o que é o tráfico humano, para prevenir que venham a ser vítimas de tráfico, mas também evitar que venham a estar do lado dos opressores”, sublinha Ivonne van de Kar.

A nova presidente da RENATE alerta para o facto de o fenómeno do tráfico afetar várias áreas diferentes, desde a exploração sexual à laboral, potenciadas pela “implosão do tráfico online” que ocorreu durante a pandemia. Assim, defende, é preciso “educar todos: crianças, jovens, adultos, professores, polícias, consumidores de comida, consumidores de roupa… Todos, mesmo todos”, reitera.

Pode dizer-se que já muito foi feito, mas muito há ainda por fazer, assinala a irmã Imelda Poole, que assumiu a presidência da rede europeia ao longo dos primeiros 12 anos e que passou agora o testemunho a Ivonne, na assembleia que decorreu em Fátima.

“Quando constituímos a RENATE, apesar de já existir tráfico humano há muitos anos, a verdade é que não se falava muito sobre isso. Hoje, temos parceiros em todo o mundo que lutam contra este flagelo, desde inúmeras ONG ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e à Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE)”, destaca a irmã britânica, de 77 anos, há 17 em missão na Albânia.

“Penso que o mundo está a começar a perceber que uma mudança sistémica é necessária. Por trás do tráfico humano estão a ganância, o lucro, e a procura… Biliões estão a ser conseguidos às custas dos mais pobres e vulneráveis”, afirma Imelda Poole. Ainda assim, “apenas nove por cento do tráfico humano é reconhecido”, alerta. “Vivemos num mundo muito frio, onde o ser humano se tornou menos sagrado.”

 

“O tráfico humano é o mais fácil de fazer”

mulher presa esconde o rosto foto Photoboy

As mulheres traficadas não estão presas, não têm correntes, não estão fechadas, mas estão sob ameaça. Foto © Photoboy.

 

Ana Mendes, diretora técnica da associação O Ninho, que visa a promoção humana e social de mulheres vítimas da prostituição, testemunha esta dessacralização todos os dias. A instituição onde trabalha, e que lida muitas vezes com mulheres traficadas para fins de exploração sexual, foi uma das três que os participantes da assembleia da RENATE tiveram a oportunidade de visitar em Lisboa, no penúltimo dia do encontro, para reforçar a troca de experiências.

“Todas as mulheres com quem trabalhamos são tratadas como objetos, mas as vítimas de tráfico ainda mais”, refere a assistente social. “Identificamo-las, normalmente, porque estão tão perdidas que é notório que foram deixadas ali e não fazem ideia de onde estão… E na maior parte dos casos só as vemos uma vez, porque faz parte da estratégia do tráfico não as manter sempre no mesmo local”, explica.

Esse é um dos motivos que dificulta a ajuda que O Ninho possa prestar a estas mulheres, mas não é o único. “Muitas vezes, elas não querem falar connosco, têm medo… Elas não estão presas, não têm correntes, não estão fechadas. Estão a ser traficadas e estão na rua, mas estão normalmente sob ameaça psicológica, porque sabem que, se falarem com alguém sobre a sua situação, algo de muito mau lhes vai acontecer ou aos seus familiares, nos seus lugares de origem”.

E essa ameaça “é real”, afirma Ana. “Conhecemos o caso de uma mulher que decidiu falar e queimaram a casa da família dela, no país de origem. Porque o tráfico não é feito por pessoas que vão à casa das raparigas e as levam à força. É feito por conhecidos da família, que lhes prometem uma forma de as levar para a Europa. Até há quem diga que o tráfico humano é o mais fácil de fazer, porque as pessoas vêm pelo seu próprio pé”, diz a diretora técnica d’O Ninho.

A abordagem a estas mulheres tem, por isso, de ser feita “com muito cuidado”. “Caso contrário podemos estar a pô-las em risco, só por elas conversarem connosco”, sublinha Ana Mendes. Até porque “é muito complicado desmantelar uma rede de tráfico” e “a justiça muitas vezes não está do lado do sobrevivente ao tráfico humano, mas sim do perpetrador, que é protegido pela lei”, acrescenta a presidente cessante da RENATE.

 

“Libertar não só a vítima, mas também o opressor”

eugenia quaresma com equipa cavitp na assembleia da renate em fatima foto direitos reservados

Eugénia Quaresma, à esquerda, com a equipa da Comissão de Apoio à Vítima de Tráfico de Pessoas (CAVITP), que colaborou na organização desta assembleia em Portugal. Foto: Direitos reservados.

 

Não restam dúvidas de que é necessário lutar por “uma evolução do sistema legal”, admite a diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM), Eugénia Quaresma, que colaborou com a Comissão de Apoio à Vítima de Tráfico de Pessoas (CAVITP) na organização desta assembleia em Portugal. Tendo acompanhado todo o encontro, Eugénia Quaresma crê, no entanto, que “o maior desafio é mesmo o da sensibilização, da consciencialização para o problema”,

A responsável da OCPM sabe que “não basta o trabalho que é feito com as vítimas e a sua recuperação” e considera que é prioritário “trabalhar a mentalidade dos jovens para que não se tornem exploradores”, nem alimentem a procura que leva ao tráfico.

“Se não houver pessoas dispostas a pagar por sexo, a violar crianças, a pagar pouco pelos produtos, a adotar crianças de tenra idade, a ultrapassar a lista de espera dos órgãos…. Se não houver procura, vamos conseguir mitigar e diminuir o tráfico humano”, explica.

E é preciso ir ainda mais além, ou seja, “trabalhar na conversão dos traficantes ou aliciadores”. Trata-se de “outra frente de trabalho desafiante, mas que enquanto Igreja tem de estar no nosso horizonte”, defende. “Temos de libertar não só a vítima, mas também o opressor.”

Ao longo deste dias, Eugénia Quaresma lembrou-se muitas vezes daquilo que diz o Papa.  “Uma das coisas mais importantes de participar nesta assembleia foi o perceber que fazemos parte de uma sociedade que explora, e precisamos, de facto, de uma economia nova, que está a ser forjada, a ‘Economia de Francisco’, que não mate, e que ponha a dignidade das pessoas em primeiro lugar”, conta ao 7MARGENS. “Qualquer trabalho que façamos tem de transparecer esta identidade cristã e aquilo que diz a doutrina social da Igreja. Tudo tem de estar fundado no amor, na dignidade e nos direitos humanos.”

O encontro em Fátima foi, segundo a irmã Imelda Poole, perfeito para relançar esse propósito. “Foi uma semana em que, apesar de estarmos fisicamente longe das vitimas de tráfico humano, continuámos muito perto delas… Tantas histórias foram partilhadas, tivemos oportunidade de expressar as nossas emoções, chorámos, os nossos corações foram tocados e aquecidos… A cruz de Jesus esteve aqui, mas foi abraçada”, assegura.

E o Santuário de Fátima, “foi o lugar perfeito” para que o resultado fosse este, sublinha, por seu lado, Ivonne. “Não podemos esquecer que todos os que participaram nesta assembleia pertencem a organizações que têm por base a sua Fé… Foi muito significante para nós termos reunido aqui. Sentimos a presença de Nossa Senhora de Fátima a ajudar-nos.”

 

Francisco alerta bispos para o perigo do “carreirismo”

Último dia na RD Congo

Francisco alerta bispos para o perigo do “carreirismo” novidade

Antes de se despedir da República Democrática do Congo (RDC), o Papa visitou na manhã desta sexta-feira, 3 de fevereiro, a sede da Conferência Episcopal do Congo (CENCO), onde se encontrou com os bispos do país. No seu discurso, desafiou-os a serem uma “voz profética” em defesa do “povo crucificado e oprimido”, e alertou-os para a tentação de “ver no episcopado a possibilidade de escalar posições sociais e exercer o poder”.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Assembleia continental europeia do Sínodo

Um bispo, um padre e duas leigas na delegação portuguesa novidade

A delegação portuguesa à assembleia continental europeia do Sínodo que vai decorrer em Praga de 5 a 12 de fevereiro é composta pelo bispo José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), pelo padre Manuel Barbosa, secretário da CEP, e por Carmo Rodeia e Anabela Sousa, que fazem parte da equipa sinodal nacional. A informação foi divulgada esta quinta-feira, 2 de fevereiro, em nota enviada às redações.

Estudo decorre até 2028

A morte sob o olhar do cinema e da filosofia

O projeto “Film-philosophy as a meditation on death” (A filosofia do cinema como meditação sobre a morte), da investigadora portuguesa Susana Viegas, acaba de ser contemplado com uma bolsa de excelência do European Research Council, no valor de um milhão e setecentos mil euros, para um trabalho de equipa de cinco anos.

Normas inconstitucionais

Eutanásia: CEP e Federação Portuguesa pela Vida saúdam decisão do TC

O secretário da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) saudou a decisão do Tribunal Constitucional (TC), que declarou inconstitucionais algumas das normas do decreto sobre a legalização da eutanásia. “A decisão do TC vai ao encontro do posicionamento da CEP, que sempre tem afirmado a inconstitucionalidade de qualquer iniciativa legislativa que ponha em causa a vida, nomeadamente a despenalização da eutanásia e do suicídio assistido”, disse à agência Ecclesia o padre Manuel Barbosa.

Papa pede aos padres que não se sirvam da sua função para “satisfazer carências”

Encontro com consagrados

Papa pede aos padres que não se sirvam da sua função para “satisfazer carências” novidade

Depois de ter passado a manhã com mais de 80 mil jovens e catequistas, o Papa encontrou-se na tarde desta quinta-feira, 2 de fevereiro, com cerca de 1.200 padres, diáconos, consagrados e seminaristas, na Catedral de Kinshasa. Naquele que foi o terceiro dia da sua viagem apostólica à República Democrática do Congo (RDC), véspera de rumar ao Sudão do Sul, Francisco alertou que o sacerdócio ou qualquer forma de vida consagrada não podem ser vistos como um meio para “satisfazer carências e comodidades” ou para adquirir uma melhor “posição social”.

Americano judeu tenta destruir rosto de Cristo à martelada

Tensão no bairro cristão de Jerusalém

Americano judeu tenta destruir rosto de Cristo à martelada novidade

Um americano judeu de cerca de 40 anos deitou por terra e desfigurou esta terça-feira, 2 de fevereiro, uma imagem de Cristo na capela da Condenação, situada no perímetro da Igreja da Flagelação, na Terra Santa. O ataque deu-se logo de manhã, pelas 8h30, e a destruição só não foi maior porque o porteiro do templo se lançou sobre o atacante e imobilizou-o, tendo os frades chamado a polícia. Esta levou o homem sob prisão para uma esquadra.

Um bispo, um padre e duas leigas na delegação portuguesa

Assembleia continental europeia do Sínodo

Um bispo, um padre e duas leigas na delegação portuguesa novidade

A delegação portuguesa à assembleia continental europeia do Sínodo que vai decorrer em Praga de 5 a 12 de fevereiro é composta pelo bispo José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), pelo padre Manuel Barbosa, secretário da CEP, e por Carmo Rodeia e Anabela Sousa, que fazem parte da equipa sinodal nacional. A informação foi divulgada esta quinta-feira, 2 de fevereiro, em nota enviada às redações.

Lista de padres pedófilos em Itália contém mais de 400 nomes

Casos de abusos nos últimos 15 anos

Lista de padres pedófilos em Itália contém mais de 400 nomes novidade

Nos últimos 15 anos, 164 padres foram condenados por abuso sexual de menores em Itália. A listagem divulgada em conferência de Imprensa pela organização Rete L’ABUSO no dia 1 de fevereiro foi apresentada como “um inventário incompleto” dos clérigos predadores objeto de condenações definitivas, a que se juntam 88 nomes de padres sinalizados pelas suas vítimas, mas cujos casos não foram objeto de investigação criminal por já terem prescrito os crimes de que foram acusados.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This