Pensei que poderia apenas opinar sobre este tema. A meio da pesquisa que iniciei para escrever o artigo, percebi que não poderia apenas opinar…tinha acabado de entrar num (sub)mundo muito mais complexo, perigoso e desviante que exigia conhecimento e fundamentação. Por este motivo, o meu ‘m’ terá continuação para a semana. Deixarei no final algumas ligações que poderão utilizar para perceber um pouco melhor o que está por detrás de alguns comportamentos, nomeadamente nos relacionamentos e na violência doméstica e no namoro.
Apertem os cintos de segurança e acompanhem-me na viagem…
No início, foi apenas um vídeo de ginásio. O algoritmo sabia que X – um adolescente de 14 anos, tímido, de ombros estreitos, sempre o último a ser escolhido para a equipa de futsal – procurava de alguma forma sentir-se mais forte. O vídeo mostrava um rapaz mais velho a treinar num ginásio, uma música épica de fundo, e legendas rápidas: “Ninguém te vai respeitar se não te respeitares primeiro.” Parecia inofensivo.
O segundo vídeo já não era sobre treino, era sobre “ser homem”. O terceiro falava de Alfas e Betas. O quarto explicava que as raparigas só olham para os 20% do topo da pirâmide. O quinto dizia que, se ele não tivesse a mandíbula certa, nunca seria amado. O sexto ensinava como “escapar à Matrix”.

NETFLIX: casos como o da série ‘Adolescência’ são extremos, mas muitos jovens estão sendo expostos a conteúdo misógino nas redes
Quando deu por si, X já não estava a ver vídeos de ginásio, estava a aprender uma nova linguagem. Uma linguagem secreta que desconhecia. O jovem X aprendeu depressa. Aprendeu que existia uma espécie de pirâmide invisível onde cada homem tinha um lugar. Aprendeu que o seu lugar era em baixo. Aprendeu que isso era culpa da genética.
Os termos com que era confrontado eram estranhos, mas exerciam sobre ele alguma sedução: Sigma, o lobo solitário; Incel, o condenado; Chad, o inalcançável. No centro de tudo, estava aquilo que parecia explicar o mundo e as relações: o SMV (Sexual Market Value), o valor sexual de mercado. X nunca tinha pensado em si como um produto, mas começou a fazê-lo todos os dias.
Aos poucos, o espelho lá de casa deixou de ser um objeto neutro e transformou-se em juiz. O jovem X aproximava-se dele como quem aguarda um veredito. A sua mandíbula não era quadrada. Os olhos não eram semicerrados, os hunter eyes. O corpo não era masculino o suficiente. Foi então que encontrou vídeos de looksmaxxing. Primeiro, dicas de pele. Depois, exercícios de maxilar. Depois, esteroides. Depois…o bone smashing.
“Jovens utilizam martelos para causar microfraturas nos ossos da face (…) acreditando que a cicatrização tornará a estrutura óssea mais ‘masculina’.”
O X não chegou a pegar no martelo. Mas pensou em fazê-lo, o que, por si só, já era demasiado.
A mãe encontrou-o no quarto, às escuras, a ver um vídeo de um influenciador português. Dizia que “os homens de verdade não choram” e que “o mundo pertence aos fortes”. O X não chorava, mas estava a encolher por dentro. A mãe não percebeu o que estava a ver e ele também não soube explicar.
No recreio da escola, passou a repetir frases feitas que não eram suas. Chamou Simp a um colega que ofereceu um chocolate a uma rapariga. Disse que as mulheres “só querem Alfas”. Riu-se de um amigo que confessou estar triste. Aos poucos, X deixou de ser o rapaz tímido e tornou-se o rapaz duro. No entanto, ninguém se apercebeu que esta dureza era apenas uma forma diferente de sentir medo.
O professor de informática pediu aos alunos que analisassem o seu histórico de visualizações do TikTok para um trabalho sobre algoritmo. O jovem viu o seu feed projetado no ecrã do portátil: carros de luxo, discursos de ódio, gurus da masculinidade, podcasts a falar de feminismo tóxico, vídeos de influenciadores como Andrew Tate e o português Numeiro, boxe, frases sobre “dominar ou ser dominado”. O professor ficou em silêncio. X também. E foi nesse momento que tomou consciência de que, afinal, não tinha encontrado uma comunidade, tinha sido encontrado por uma máquina.
Mas, o que resta de um rapaz quando lhe dizem que não vale nada?
(A continuar: próximo texto 20/05/ 2026)
Terminologia (com recurso a IA):
Manosfera – rede de comunidades masculinas online que promovem uma ideologia antifeminista, misógina e sexista. Defende a dominação masculina, alegando que os homens são oprimidos pelo feminismo e pelo avanço dos direitos das mulheres.
Matrix (a simulação) – conjunto das normas sociais atuais: feminismo, igualdade de género e relações amorosas convencionais. Defende a ideia de uma sociedade que mente sobre o valor e o papel do homem, mantendo-o submisso.
Alfa – homem com estatuto social alto, sucesso financeiro e físico, que detém o poder de escolha sexual, está no topo da pirâmide.
Beta – homem comum, visto como submisso. É aquele que as mulheres escolhem apenas por estabilidade.
Sigma – homem que recusa a hierarquia social e as regras do “jogo”, vivendo de forma independente.
Incel (Celibato involuntário) – Homens que se sentem incapazes de atrair parceiras, atribuindo o fracasso a fatores genéticos ou sociais.
Chad – A representação da perfeição genética masculina (mandíbula quadrada, alto, atlético).
Hunter Eyes – Olhos alongados e semicerrados, vistos como Alfa, o oposto de olhos de presa, redondos e abertos, vistos como Beta.
Looksmaxxing – esforço para subir na hierarquia através da melhoria da aparência física (ginásio, cuidados com a pele, ou cirurgias).
Bone Smashing – prática perigosa de martelar os ossos da face para criar microfraturas, na esperança de que o osso regenere de forma mais proeminente e masculina.
Simp – termo pejorativo para o homem que é considerado demasiado submisso e atento às mulheres, na esperança de obter a sua atenção.
Para saber mais:
https://www.internetmatters.org/pt/hub/news-blogs/what-is-the-manosphere-and-why-is-it-a-concern/
https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/idioma/o-que-e-a-manosfera/5800
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










