É talvez a mulher mais conhecida da História e, paradoxalmente, uma das que menos se conhece. Referida nas principais religiões do mundo – venerada no cristianismo, respeitada no islamismo, reconhecida em tradições judaicas e até evocada em correntes espirituais do budismo e hinduísmo como modelo de compaixão e maternidade divina – Maria atravessa todas as fronteiras espirituais e, no entanto, o que sabemos dela? Sabemos o essencial – ou o que nos disseram ser essencial – que era virgem, que foi mãe, que nos apontou o Filho. Mas o que sabemos da sua voz? Dos seus medos? Dos seus sonhos antes de ser escolhida?
Maria é figura, é símbolo, é ícone, mas foi pessoa e nisso reside o milagre maior.
Maria era uma menina. Cresceu num tempo em que o destino das mulheres era decidido por outros. E foi mulher cedo, por desígnio. Escolhida para gerar o Filho de Deus, disse sim. Um sim que não foi apenas religioso, foi humano, foi corajoso, foi revolucionário, porque aceitar ser mãe é aceitar transformar-se e Maria transformou-se.
A maternidade chegou-lhe como missão divina, mas foi vivida com dores terrenas. Gerou, pariu, amamentou, embalou. Viu o filho crescer, desafiar, ensinar, e viu o mundo virar-lhe as costas. Viu-o preso, julgado, torturado, crucificado. E ali, aos pés da cruz, Maria não era santa, era mãe. Mãe em luto, mãe em ruína, mãe em silêncio, na dor que nenhuma fé apaga, que nenhuma profecia consola.
E depois da morte do filho, veio a exigência: que fosse exemplo, que fosse intercessora, que fosse milagre. Que aparecesse em grutas, em sonhos, em tempestades. Que curasse, que protegesse, que ouvisse todos os pedidos. Maria tornou-se milagreira, como se isso bastasse para explicar tudo o que foi, como se o seu valor estivesse apenas no que pode fazer por nós e não no que já fez.
A grandeza da sua maternidade foi encolhida à medida das nossas necessidades. Pedimos-lhe favores, agradecemos-lhe graças, mas raramente lhe reconhecemos a coragem. A coragem de ser mulher num mundo de homens, a coragem de ser mãe num mundo de perdas. A coragem de ser humana num mundo que a quis divina. E o tanto que lhe foi exigido — e ainda é — raramente é reconhecido como sacrifício.
Maria é conhecida em todos os cantos do mundo, mas quem é que a conhece de verdade? Quem lhe reconhece a juventude roubada, a vida moldada por um propósito que não escolheu, mas para o qual foi a escolhida? Quem lhe dá voz, para além das orações que repetem o seu nome, sem lhe perguntar nada? Maria é mais do que milagreira. É memória viva da força feminina, da entrega sem reservas, da dor que molda sem se mostrar.
É a menina que se tornou mulher, a mulher que se tornou mãe, a mãe que se tornou símbolo. E talvez o maior milagre de Maria seja esse: ter sido tudo isso, sem nunca deixar de ser ela. E nós, que tanto lhe pedimos, talvez devêssemos começar por escutá-la. Não nas aparições, mas na história; não nos milagres, mas na sua humanidade.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










