“Má-fé” na interdição de Fatima Habib jogar basquetebol com braços tapados, acusa xeque Munir

| 15 Nov 19 | Desporto, Liberdade religiosa, Newsletter, Outras Religiões - homepage, Sociedade, Últimas

Fatima Habib, a jovem impedida de jogar com mangas compridas, numa foto da página oficial do Clube de Basquetebol de Tavira.

O xeque David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa, considera que a equipa de arbitragem não atuou justificadamente no caso da jovem Fatima Habib num jogo de basquetebol, em que a atleta foi proibida de jogar com os braços e a cabeça cobertas. “Ela sempre jogou” com essa indumentária e isso “nunca a impediu” de integrar a equipa de basquetebol, afirma ao 7MARGENS. Por isso, contesta o que se passou e admite que, no próximo jogo, haja uma manifestação de solidariedade com a atleta.

A equipa do Clube de Basquetebol de Tavira, que Fatima integra, e o Imortal de Albufeira estavam no aquecimento para o jogo de domingo passado, 10 de novembro, em sub-16, quando a atleta foi avisada de que não podia jogar. No princípio, a equipa de arbitragem, constituída por mulheres, queria que a jovem tirasse a blusa de manga comprida que vestia debaixo do equipamento, o que a atleta recusou, alegando que sempre tinha jogado assim.

Na sequência do acontecimento, a Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB) emitiu um comunicado de imprensa em que garante que todos os regulamentos são cumpridos de acordo com a Federação Internacional de Basquetebol (FIBA). “A possibilidade de os jogadores poderem utilizar equipamento de acordo com as suas convicções religiosas, desde que o mesmo garanta a liberdade de movimentos e assegure a segurança dos intervenientes no jogo”, está garantida, afirma o comunicado, citado pelo Jornal de Notícias.

 

“Seria absurdo, de má-fé”

“Quando procurei informação sobre o caso, e segundo o que diz a FPB, há mais de dois anos que a lei tinha sido mudada” acrescenta o xeque Munir. “Seria absurdo, de má-fé, que a equipa de arbitragem não a deixasse jogar dadas as condições. Se fosse uma coisa nova, faria sentido, mas havendo esta permissão ao nível internacional, ela não estava a infringir qualquer lei ao nível do equipamento.”

O imã da Mesquita Central de Lisboa acrescenta que a equipa de arbitragem não pode interditar alguém de jogar caso o vestuário que usa tenha motivações religiosas. “O que uma muçulmana veste no dia-a-dia não deve ser proibido. Não se pode aceitar que ela não jogue por causa disso.”

Além das críticas da comunidade muçulmana, também o clube de Tavira contestou a decisão dos árbitros, afirmando que a decisão vai contra as regras da FIBA: há dois anos e meio, alega o clube, citado no Público, a federação internacional fez uma adenda ao regulamento existente para permitir que acessórios como o hijab possam ser usados desde que não cubram “inteiramente ou parcialmente qualquer parte da cara (olhos, nariz, lábios, etc.)”,

O regulamento de jogos prevê ainda que sejam usadas mangas de compressão nos braços e collants nas pernas da cor do equipamento, pretos ou brancos. A equipa de arbitragem permitiu que Fátima Habib mantivesse os collants e o lenço na cabeça, mas recusou que a jovem utilizasse a camisola e obrigou-a a abandonar o campo. De acordo com a tradição muçulmana, as mulheres não devem exibir os braços.

 

“Uma manifestação colectiva”

Esta não era a primeira vez que Fátima, de origem paquistanesa e há cinco anos a viver em Portugal com a família, jogava com este equipamento. Desde que começou a jogar basquetebol há dois anos, sempre usou essas roupas com o equipamento do clube. Em declarações à TSF, Habib, o pai da jovem atleta, diz que esta foi a primeira vez que tiveram queixas. Ainda no Público, o treinador do Clube de Futebol de Tavira, André Pacheco, levantou a hipótese de a equipa de arbitragem se ter sentido pressionada pela presença de um “observador” na mesa de oficiais, até porque um dos membros da equipa de arbitragem já tinha apitado o jogo anterior da equipa sem pôr em causa a indumentária de Fátima.

André Pacheco levantou mesmo a hipótese de o clube estar a pensar organizar uma “manifestação colectiva”, no próximo domingo, 17, por ocasião do novo jogo, para demonstrar o seu repúdio pelo que aconteceu. “A equipa de arbitragem foi além do que era suposto. Agora o resto da equipa pode ir vestida como ela, como solidariedade. Vamos ver o que vai acontecer”, acrecsenta o xeque David Munir.

Mulheres e islão: uma questão de roupas interditou Fatima Habib de jogar. Ilustração © Sara Naves

 

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