Inocente Orlando Montano Morales, o responsável directo pelo assassinato de cinco jesuítas e de mais duas mulheres em El Salvador, a 16 de Novembro de 1989, foi libertado na passada terça-feira (dia 18) pela Justiça espanhola com a fundamentação de «sofrer de doença irreversível», com sentença de «liberdade condicional. Extraditado em Novembro de 2017 para Espanha, por solicitação da Audiência Nacional de Madrid, foi condenado em Setembro de 2020 a mais de 133 anos de prisão.[ver 7MARGENS]
Ex-coronel do Exército, e tendo exercido o cargo de vice-primeiro-ministro para Segurança Pública durante o Governo do presidente Alfredo Cristiani, entre 1989 e 1994 – o período mais sombrio da violência política, desde o início de uma guerra civil iniciada em 1979 –, Montano Morales era o único a cumprir pena de prisão entre políticos e militares, responsáveis de um regime que causou a morte de 70 mil pessoas e mais de oito mil desaparecidos. [ 7MARGENS]
Um dos acontecimentos mais intensos foi o assassinato do arcebispo de São Salvador, Óscar Romero, a 24 de Março de 1980, no momento de celebração da missa, por esquadrões da morte mandatados por Roberto D’Aubission, major do Exército. Romero destacara-se pela sua emergência de sectores mais conservadores Igreja salvadorenha, quando começou a ser voz da consciência pública contra o monopólio dos grandes proprietários da terra, os conluios militares com multinacionais norte-americanas, a percorrer os bairros mais pobres e, nas suas homilias, a supressão das liberdades cívicas e políticas, e a violência dos militares que, diariamente, causavam mortes e faziam desaparecer pessoas de “famílias suspeitas”.
Uma comoção pública fez-se sentir após o assassinato de Óscar Romero, particularmente junto de forças sindicais, organizações defensoras dos Direitos Humanos e meios académicos. E a Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas (UCA), fundada pelos jesuítas em 1965, incluía-se num desses espaços de conscialização e resistência aos constantes desmandos da política repressiva que Óscar Romeno se atreveu a identificar.

Imagem retirada da página oficial do facebook de Ignacio Ellacuría
Àquela universidade estavam ligados dois dos padres jesuítas assassinados, o reitor, Ignacio Ellacuría, e o vice-reitor, Ignacio Martín-Baró. Os restantes – Segundo Montes, Joaquin López y López, Juan Ramón Moreno e Armando López – mantinham igualmente algum relacionamento, quer por questões académicas, ou mesmo por integrarem instituições ou movimentos populares paroquiais e de cultura e de solidariedade social, subsidiários da acção intelectual e do prestígio sociológico daquela universidade.
Todos eles foram assassinados, de noite, no campus universitário, juntamente com Elba Ramos e, sua filha Celina Ramos, de 16 anos. Elba e o marido trabalhavam para aquela instituição universitária, vivendo numa casa junto da residência dos jesuítas.
Entre os seis jesuítas, Ignacio Ellacuría distinguiu-se pelo seu incessante compromisso pela dignificação humana, a partir do pensamento renovador do Concílio Vaticano II. Regressado a El Salvador, em 1967, para assumir a direcção da Faculdade de Filosofia de UCA, subscreveu todas as proposições da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, que se realizou em Medellín, na Colômbia, em 1968, da qual foi participante.
Em 1976, Ellacuría publica um opúsculo titulado “A sus órdenes, mi capital”, no qual propõe a iniciativa de os camponeses e os restantes trabalhadores da indústria a organizarem-se para reivindicar seus direitos laborais e sociais. E quando no ano seguinte, um seu companheiro jesuíta é morto por militares, enquanto celebrava a eucaristia.
Precisamente, quando Orlando Montano Morales ordena, na noite de 16 de Novembro de 1989, a morte dos seis jesuítas e de Elaba e Celina Ramos, Ignacio Ellacuría havia, recentemente, recomeçado contactos para um entendimento de desarmamento e de diálogo com a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional – uma coligação de vários grupos de esquerda que, desde 1980 combatiam o governo militarista de El Salvador, integrada por cristãos das comunidades de base –, tendo em vista a reposição dos direitos cívicos e humanos e a realização de eleições democráticas, por parte do Governo salvadorenho.
Mário Robalo é jornalista










