Mãe do Céu, mãe de Misericórdia

| 1 Mai 2022

 

É Dia da Mãe, este 1º de Maio de 2022. Tenho saudades da minha Mãe Teresa há já quase 14 anos na plenitude de Deus, a zelar por nós. Pus umas flores junto à sua fotografia de mulher sábia e inteligente. Acendi uma vela. Doem-me fisicamente as saudades da sua mão nodosa e comprida, de veias salientes, já cega, sobre a minha cabeça cansada ou triste pousada no seu colo. Nunca mais, pensei eu, quando ela partiu.

Muitas vezes lhe rezo e, com ela, a Nossa Senhora. Quando arrumei as suas coisas descobri que ela tinha no missal, a marcar o dia, uma oração a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que rezava todas as noites de joelhos ao lado da cama, antes de se deitar. Assim a vi fazer ao longo dos anos, sobretudo desde que o meu Pai partiu tão prematuramente.  Saudades da sua mão… Tenho uma grande “devoção” por esta Nossa Senhora do Perpétuo Socorro a quem chamo “Mãe da Misericórdia”.

 

 

Estive uns dias no mosteiro do Sobrado (Galiza) logo a seguir à Páscoa. Uma tranquilidade imensa depois de dois anos confinados, seguidos desta absurda e fratricida guerra. Ao longo dos dias acompanhei a liturgia das horas no lindíssimo oratório dos monges.  Não sei se pelo tempo que estamos a viver, se pelo meu próprio estado de espírito ou simples cansaço, dei por mim a comover-me às lágrimas – os monges, no último momento das Completas, viravam-se para o ícone iluminado de Nossa Senhora e, quase às escuras, entoavam a Salve Regina em latim: a nossa conhecida Salvé Rainha, do final dos cinco mistérios do terço.

 

 

Mas desta vez, no último dia, experimentei uma espécie de “epifania” e tomei consciência de como esta é uma das mais belas orações da tradição da/s Igreja/s. Conversamos e rezamos com essa “mãe de misericórdia” – que sofreu e tantas vezes não entendeu o que se passava na sua vida – que soube escutar e estar atenta ao que Deus (ou a vida…) lhe dizia, derramando “vida e doçura e esperança” em nós. Ainda sei esta oração de cor:

 

Salve Rainha, Mãe de misericórdia,
vida, doçura e esperança nossa, salve!
A vós bradamos,
os degredados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.
Eia, pois, advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei.
E depois deste desterro, nos mostrai Jesus, bendito fruto de vosso ventre.
Ó clemente! Ó piedosa!
Ó doce sempre Virgem Maria!
Rogai por nós Santa Mãe de Deus.
Para que sejamos dignos
das promessas de Cristo. Ámen.

 

Hoje bem precisamos que ela seja “advogada nossa”, nos dê força para alimentarmos a esperança, porque realmente vivemos num tempo que se assemelha a “um vale de lágrimas” para muitos. Por isso lhe bradamos: Volve para nós os teus olhos de misericórdia! Ajuda-nos a receber o Cristo, Espírito de Deus, para continuarmos teimosamente a ser caminheiros/as pela paz, justiça e respeito pela criação. Em tempos tão sombrios ajuda-nos a cultivar a amável esperança, essa petite fleur de rien du tout (Péguy) que nos faz acreditar para lá do imediato.

Somos seres incompletos que caminhamos construindo plenitude até à Plenitude Final. Que Maria nos ajude neste caminho. Mas que ultrapassemos o uso empobrecedor e limitado que se fez desta oração, ultrapassando estereótipos do que é ser-se mulher ou homem, e vertendo sobre Maria a nossa angústia. Ouço, em modo de encantamento a Ladainha a Nossa Senhora cantada por dona Canô, mãe de Maria Bethânia.

 

 

O meu desejo mais profundo é que Maria, Nossa Senhora e nossa Mãe seja abordada de uma forma teologicamente recriadora por esta Igreja em caminho sinodal. Lembro um sonho que tive há mais de 20 anos, quando vivia um tempo muito doloroso da minha vida: que uma Nossa Senhora-guerreira de vestido branco com um largo cinto vermelho e cabelos esvoaçantes me aparecia ao longe gritando: “Tu podes!” Gosto dessa Maria que dá forças onde não as há….

Foram precisos muitos anos para eu aprender a combinar dentro de mim a Salvé Rainha, a mãe guerreira e poderosa dos meus sonhos, e um dos mais belos poemas de Eugénio de Andrade:

 

Poema à mãe

 

No mais fundo de ti,
‪eu sei que traí, mãe!
‪Tudo porque já não sou
‪o retrato adormecido
‪no fundo dos teus olhos!
‪Tudo porque tu ignoras‪que há leitos on
de o frio não se demora
‪e noites rumorosas de águas matinais!
‪Por isso, às vezes, as palavras que te digo
‪são duras, mãe,
‪e o nosso amor é infeliz.
‪Tudo porque perdi as rosas brancas
‪que apertava junto ao coração
‪no retrato da moldura!
‪Se soubesses como ainda amo as rosas,
‪talvez não enchesses as horas de pesadelos…
‪Mas tu esqueceste muita coisa!
‪Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
‪que todo o meu corpo cresceu,
‪e até o meu coração
‪ficou enorme, mãe!
‪Olha – queres ouvir-me? -,‪às vezes ainda sou o menino
‪que adormeceu nos teus olhos;
‪ainda aperto contra o coração
‪rosas tão brancas
‪como as que tens na
moldura;
‪ainda oiço a tua voz:
‪”Era uma vez uma princesa
‪no meio de um laranjal…”
‪Mas – tu sabes! – a noite é enorme
‪e todo o meu corpo cresceu…
‪Eu saí da moldura,
‪dei às aves os meus olhos a beber.
‪Não me esqueci de nada, mãe.
‪Guardo a tua voz dentro de mim.
‪E deixo-te as rosas…
‪Boa noite. Eu vou com as aves!

 

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior aposentada e integra o Movimento do Graal (t.m.vasconcelos49@gmail.com)  

 

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