[Moçambique, margem Sul]

Mãe grande: “Ser pobre não we nada”

| 8 Out 2023

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“Ser pober não we nada”, nome do barco na capa do relatório 2004 do G20 sobre a pobreza. Foto: Direitos reservados

 

Mãe grande é um termo muito utilizado em Moçambique, não para se referir a uma mãe com dimensões físicas avantajadas, mas como parâmetro de um estatuto, isto é, a primeira mulher na sequência das desposadas ou relacionadas com um polígamo. É sobre essa mãe e sobre o polígamo que este texto trata.

A poliginia é um fenómeno comum. Em Moçambique, faz parte de um sistema familiar, da cultura e tradição bantu, com regras e procedimentos específicos. Embora não esteja definido quantas mulheres é que um polígamo pode ter, nem se é ele quem cuida da família ou não. Contudo, uma regra bem clara, mas quase nunca respeitada, tem a ver com o facto de que o homem não deve ter uma segunda esposa sem o consentimento da primeira, a mãe grande. Também não deve ter uma terceira esposa, sem a anuência da sua primeira… e assim sucessivamente.

Se o casamento ou a formação de um novo lar ou de uma nova família acontecer, fora do circuito do conhecimento e do consentimento familiar, trata-se de adultério. Surge uma família não oficial, portanto não reconhecida, dentro das regras que gerem o clã.

Entretanto, de modo um pouco (des)ordeiro, têm surgido na nossa sociedade moçambicana outros tipos de famílias, como consequência dessa poligamia. São novos paradigmas de família, sem as regras tradicionalmente pré-estabelecidas. Têm surgido, também, namorados que seguem o mesmo modelo da poliginia, isto é, um homem com mais do que uma namorada, sendo uma das quais a mãe grande.

Em algumas famílias de polígamos, é ele quem é o provedor; noutras, elas, as suas esposas, trabalham para o seu próprio sustento e o dos seus filhos, bem como o do marido; noutras ainda, toda a família, esposo, esposas e filhos trabalham para manter a família toda, de modo similar.

Nesse sistema, essas regras, são, de algum modo, e até certo ponto, similares àquelas estabelecidas pelo Alcorão. No livro sagrado do islão, de um modo geral, os princípios que regem o casamento definem que um homem deve casar-se com uma mulher. Entretanto, ele também se pode casar ainda com mais três mulheres; sendo obrigado a tratar todas com “a mesma justiça”, ou seja, não favorecer uma, em detrimento das outras.

Esta regra que aceita a poliginia no Alcorão, foi imposta para acautelar situações sociais. O homem pode casar-se com mais do que uma, não em busca do prazer, mas no sentido do acolhimento a viúvas, por exemplo. Ao desposar as restantes três, deverá fazê-lo com o consentimento da primeira esposa, a considerada mais velha, a mãe grande, portanto.  Se não houver essa aceitação da mais velha, abre-se um caminho que pode dar em divórcio, ou na não consumação do casamento. Além disso, todas as mulheres desse polígamo deverão estar sujeitas ao mesmo tratamento e às mesmas condições económicas. Só assim é que o sistema funciona dentro da legalidade.

Esse modo de agir, a poliginia, tanto na cultura tradicional bantu, quanto na cultura e religião muçulmana, é aceite por uns e repudiada por outros. Entre os que a aceitam, constam aqueles cujas crenças ligadas às suas famílias ou tradições incutiram neles a tolerância a essa realidade. Já aos outros, os que a repudiam, não foi ensinado a conviver com esse fenómeno, apenas nasceram e viram-no acontecer em suas casas, junto às suas famílias e aprenderam a tolerá-lo. Há um outro grupo de pessoas, que simplesmente não o aceita.

Sabe-se, porém, que há mulheres que apenas o suportam passivamente, sem estarem resolvidas, relativamente a esse assunto. Entretanto, não têm como resolvê-lo. Outras mulheres ainda, que, tendo nascido num sistema destes, suportam-no activamente. Mas, o que pouco se discute é a questão psicológica ou emocional em que elas vivem. Isso não tem sido assunto relevante, nem discutível. É daquele tipo de matérias, como os problemas surgidos no âmbito da toma do canhú: “não se discutem, nem se resolvem”.

O que me fez abordar essa tema foi apenas o facto de me ter sido contado que, num desses eventos de levantamento estatístico, parametrizados com indicadores “específicos” de desenvolvimento, para se realizar o “Relatório sobre a Pobreza”, alguém perguntou a um polígamo se o facto de ter mais do que uma esposa não o tornava “pobre”, ao que o mesmo respondeu: “Ser pobre não we nada”, querendo com isso apelar à relativização do conceito de “pobreza”. O que se passou, de facto, é que ele não se considerava “pobre”, porque tinha várias mulheres e filhos que trabalhavam nos seus empreendimentos. Isso, para ele, era a riqueza.

O que não me foi contado e, julgo que não importa, é se a inscrição no seu barco (ver foto) foi feita antes ou depois dessa entrevista. Mas fica, com a referência feita a esse evento, o alerta sempre premente: as questões culturais devem sempre ser vistas, analisadas e comentadas dentro do princípio da relatividade cultural, facto de que os medidores económicos não se compadecem…

 

Sara Jona Laisse, docente na Universidade Católica de Moçambique e membro do Graal-Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

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