AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Mãe não tem limite

| 20/12/2019

Mãe não tem limite

by | 20 Dez 19 | Artes, Cultura e artes - homepage, Últimas

Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga”, escrevia Drummond de Andrade. Este pode ser um mote para uma exposição na Amadora com o título Ó do Mundo, Senhora do Ó, Grávida de Vida.

A mulher está como que numa ombreira. Uma espécie de arcos, ou a sua silhueta. De lado, pássaros, flores (borboletas?). Tudo entre os azuis e os verdes como cores predominantes, o mar e o céu juntos numa mulher. As mãos colocadas sobre o ventre, num traço que remete para o universo de Tim Burton e da ilustração. Grávida. Grávida de Felicidade é o título do quadro, acrílico sobre tela pintado este ano por Fernanda Páscoa, para a exposição Ó Do Mundo, Senhora Da Terra – Grávida de Vida, patente na igreja paroquial da Amadora até 26 de Janeiro.

Com 34 peças artísticas divididas pelas três capelas do deambulatório da igreja, a mostra resulta de uma parceria entre a paróquia da Amadora e do Círculo Artístico e Cultural Artur Bual (CACAB). A peça de Fernanda Páscoa é uma das que se destaca, a par de uma Pietá do próprio Bual, artista que indirectamente é homenageado nesta mostra, ele que tinha convicções comunistas embora sem ligações partidárias, e mantinha uma profunda relação com o tema da transcendência, tendo pintado vários rostos de Cristo ou Pietás.

Em cada capela, um tema: Grávida de Esperança/de Espanto/ de Vida. “Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga”, escrevia Carlos Drummond de Andrade, numa das legendas que complementam os quadros, e que dão voz a diferentes autores pela mão de José Ruy.

“Grávida de Felicidade”, de Fernanda Páscoa (pormenor).

 

No quadro de Fernanda Páscoa, há um ventre que é “fertilidade, anunciação e consolação, irrupção incontrolável, também pormenor e pinça, rosto vendado ao sofrimento, e visão aberta, mar e terra, e ainda céu e luz, sangue, ferida sarada”, como escreveu o jornalista Joaquim Franco, colaborador do 7MARGENS e responsável pela curadoria da mostra.

A ideia do ventre é glosada ainda pelo esoterismo da pintura de Victor Lages, pelo simbolismo impressionista de Minha Mãe Amassa o Pão Feto, de Carlos Godinho, ou por Hugo Claro. Em 24/12, outra das obras que se destaca, este último coloca também as mãos da mulher sobre o ventre. Mas, ao contrário de Fernanda Páscoa, as cores dominantes são o vermelho e os amarelos do fogo, em contraste com a silhueta da mãe e mulher que se apresta, com um ar de aparente serenidade, para dar à luz.

O autor descreve a sua obra como uma expressão de “sentimentos de entrega, serenidade e confiança”. E “o facto de estar exposta numa igreja, na época natalícia, certamente lhe dará uma autonomia e um significado transversal”.

“24/12”, de Hugo Claro

 

“O artista toca o divino”

Na inauguração da exposição, o padre Adelino Ascenso, da Sociedade Missionária da Boa Nova e que foi amigo pessoal de Artur Bual, lembrava que “o artista, seja músico, pintor, poeta ou escultor, toca o divino e estimula o verdadeiro encontro”. E é também isso que esta mostra procura concretizar: os artistas convidados a participar integram quase todos o CACAB.

Daí resulta também um compromisso sensível e em diálogo com o espaço em que a mostra se faz. Mesmo se o espaço para as obras de arte é exíguo – o possível, naquele lugar de culto que continua diariamente a cumprir a sua função principal – nem por isso é menor o diálogo que se estabelece entre a cultura das peças artísticas e o culto a que a igreja se destina.

Pelo contrário, percebe-se a afirmação de alguns dos artistas: mesmo se na periferia da afirmação crente, as diferentes obras traduzem um sublinhado, uma chamada de atenção para algum aspecto do nascimento que os cristãos celebram com o Natal – e do mistério da gravidez que o antecede e que o catolicismo assinala tradicionalmente com a festa da Senhora do Ó, ou da Expectação de Nossa Senhora, celebrada a 18 de Dezembro, na oitava antes do Natal.

“Germinar”, de Rui Saraiva

 

Também nessa perspectiva se pode olhar para Germinar, obra de Rui Saraiva. Uma técnica mista – entre a fotografia e a pintura, que cruza a modernidade da fotografia a revelar esculturas góticas, com a modernidade da pintura impressionista quase só num traço simbólico e a apontar ainda uma “árvore da vida”. Tradição e modernidade, fotografia e pintura, crença e busca intersectam-se, aqui, de uma forma intensa.

Podem referir-se, ainda, obras como Mater, de Alves Dias, em desenho bordado e tinta acrílica, inspirada em traços de Leonardo da Vinci, Domingos Sequeira e Pablo Picasso; ou a peça sem título que José Alexandre de São Marcos criou a partir de uma gaveta que sobrou no ateliê. O artista recorda “a surpresa da Virgem Maria perante o Anjo Gabriel, o Anjo da Anunciação, e o espanto que sempre existe numa gravidez”. Para ele, esta obra constitui também um desafio: “Não guardamos na gaveta algo tão importante, mas mesmo se o fizermos não será nunca possível esquecermos a sua beleza”.

“Mater”, de Alves Dias

 

“Há muitas terras em pousio onde abundam crentes desiludidos, descrentes, amargurados ou buscadores sôfregos e apaixonados, que procuram a solidariedade na dúvida que os ajude a aprofundar as suas perguntas”, disse Adelino Ascenso, ainda na inauguração. É nesse percurso, acrescentou, que “a dimensão maternal é muito importante, pois todos somos convidados a sermos mães, a termos o sentimento maternal de entrega”.

Já o padre Carlos Jorge, pároco da Amadora, sublinhou o desafio lançado pelo Papa Francisco: “A Igreja não é uma fortaleza, mas uma tenda, capaz de alargar o seu espaço e dar espaço para que todos entrem, para dar acesso a todos, ou é em saída ou não é Igreja.”

S/ Título, peça de José Alexandre de São Marcos

 

Talvez por isso, a Pietá de Bual (o artista tinha o seu ateliê a poucos metros da igreja), que pode parecer deslocada do tema, unifica o sentido das obras ali expostas. “A par das crucificações e das cabeças de Cristo, a Pietá é uma das mais inquietantes representações religiosas do pintor gestualista”, escreve Joaquim Franco numa apresentação da mostra. Eduardo Nascimento, coordenador do Círculo Artur Bual, entende que a exposição “unifica a cidade com a arte”, despertando consciências “através da interpretação dos artistas, ousando chegar próximo do espantoso milagre que é a vida, essa gravidez de poesia eterna”.

“Pietá”, de Artur Bual

 

Ó Do Mundo, Senhora Da Terra – Grávida de Vida

Igreja paroquial da Amadora; todos os dias, 9-12h e 17-19h.

Até 26 de Janeiro.

 

[A exposição inclui um programa de iniciativas paralelas: sábado, 21 de Dezembro, às 21h30, o Concerto de uma Espera, pelo grupo O 8 da Terra, recupera temas tradicionais de várias regiões do país, ligados ao tempo do Natal. Com entrada livre, os espectadores são desafiados a contribuir com donativos ou entrega de bens (produtos de higiene e limpeza) para famílias carenciadas, referenciadas por uma instituição de solidariedade social da Amadora.

A 18 de Janeiro, às 21h30, realiza-se um debate sobre A Religião e o Mundo; a 26 de Janeiro, às 16h, decorre uma sessão de encerramento, com uma palestra do padre Adelino Ascenso, e a participação do grupo Quem Canta – Coro Comunitário de Lisboa.]

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This