[Segunda leitura]

“Mãe, pai, tirei um 20!”

| 17 Jul 21

Azulejo Desporto

Azulejos numa escola de Braga alusivos à prática desportiva; foto © Joseolgon / Wikimedia Commons.

 

Há um colégio no Porto que é barra no ensino da Educação Física. Sabia-se já há tempos e recordou-se por estes dias, pelas notícias.

Há dois anos, nenhum dos alunos do 10º ano desse colégio teve menos de 18 valores a Educação Física. Grandes ginastas… Mas ainda os houve mais grandes, por assim dizer: metade desses alunos concluiu a disciplina com nada menos que 20 valores. Vinte valores. Sem falhas. Apetece mesmo transcrever da notícia do Público, que por sua vez cita o blogue Com Regras:

“O Com Regras [publicou] imagens das pautas de nove turmas do 10.º ano. Nessas listagens é possível observar que dos 248 alunos do primeiro ano do ensino secundário, 128 (ou seja, 52%) tiveram 20 valores a Educação Física no 2.º período letivo deste ano [2019]. Outros 108 estudantes (44%) foram classificados com 19 e apenas 12 tiveram 18 valores. Nenhum dos alunos do Ribadouro teve uma classificação inferior.”

Mas o que é que terá dado a este pessoal para se entregar com tanto empenho e competência à disciplina de Educação Física? Foi acaso, foi uma coisa que simplesmente lhes deu ou foi mais qualquer coisa?… Espera, o seguimento da notícia ajuda a esclarecer:

“A disciplina de Educação Física voltou, este ano [2019], a contar para a média de acesso ao ensino superior, seis anos depois de ter sido retirada pelo anterior Governo.”

Ah!, já dá para perceber melhor. Nota de acesso à universidade. Pois é. Até consta que alguns colégios, como este, são há vários anos procurados por quem quer ter boas notas. Muito boas notas. Muitíssimo boas notas. Para se entrar na universidade no curso que se quer, e onde todas as décimas contam. Medicina, as mais das vezes. Ou outro. E, para tal, Educação Física também pode dar uma boa ajuda à média final. Se pode! Mas não só: noutras disciplinas não sujeitas a exame nacional – e que, portanto, não permitem comparações – a tabela classificativa também costuma ser de deixar quaisquer pais babados de orgulho. E viva o colégio!

(Parece que em alguns casos as aulas de Educação Física foram contabilizadas, mas nem sequer foram dadas ou sumariadas. Se calhar já se sabia como iam ser as notas… E parece que houve alunos que até foram dispensados da prática de atividades físicas, sem aparente justificação. Mas as notinhas lá ficaram. E bem boas!)

Entretanto, vale a pena referir que este assunto já não é nada novo. Atente-se no título desta outra notícia, datada de Fevereiro de 2018: “Onze escolas inflacionam notas dos alunos há nove anos seguidos”. Isso mesmo, há nove anos seguidos. Ali se contava que tinham já sido identificadas 11 escolas (nove privadas e duas públicas) que apareciam sistematicamente, nos últimos nove anos, entre as que atribuíam classificações “desalinhadas para cima”. Ou seja: notas estranhamente altas.

E estávamos em 2018. E depois vieram as notícias de 2019. E em 2020 soube-se pelos jornais que foram abertos 57 processos disciplinares por inflação de notas no ensino secundário. E agora as notícias de 2021, que dão conta da suspensão da diretora pedagógica do tal colégio do Porto, por um ano, e da obrigatoriedade de encerramento do próprio colégio, também por um ano – mas com pena suspensa nos próximos dois anos. História longa, antiga, lenta, e aparentemente longe do fim…

O pano de fundo em que tudo isto se desenrola é duplo: por um lado, há uma espécie de ‘mercado’ de boas classificações para acesso ao ensino superior, com muita procura (é terreno fortemente competitivo…) e com alguma mais ou menos subterrânea oferta (a preços condizentes, claro…); por outro lado, há a vontade de se trabalhar para os célebres rankings, que tão mal nos têm feito, tal a quantidade de injustiças e de meias-verdades em que eles mergulham muitas das nossas escolas. Mas o certo é que, no tal ‘mercado’, põe-se ao peito o lugar que se conquista no ranking, faz-se publicidade com isso e tudo acaba por produzir os seus efeitos. Em prestígio e em lucro.

Olha-se para trás, para todos estes anos, e fica-se a pensar em quanta gente entrou imerecidamente num determinado curso superior, assim ocupando as vagas que caberiam, com mais justiça, a quem ficou umas décimas aquém. Quantas mudanças de vida, quantas alterações de planos, quantos dramas, sabe-se lá… Até por isso, e também, por imperativo da mais elementar decência, convinha que estas inspeções às escolas suspeitas não ficassem a meio do caminho e ajudassem a repor as coisas em termos de igualdade de oportunidades para todos. É o mínimo, não é?

(E se algumas notas a Educação Física não chegarem ao 20, ou até ao 19, paciência! Nem todos os alunos e alunas podem ser atletas de topo…)

 

A votar, a votar!

[Segunda leitura]

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Ensaio

Direitos humanos, paz e casa comum: como se reescreve um Papa? novidade

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