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Mãe

| 04/05/2024

Almada Negreiros, “Maternidade” (1935), Museu Calouste Gulbenkian

 

A mãe deixou-me que lhe ocupasse o ventre; era ainda da idade que as maçãs têm no verão, coberta por pele tão suave e sensível quanto o aroma das suas verdes vivências.

Tinha sido menina havia pouco, quase ontem, antes de o luar ocupar a noite de sonhos sufocados por angústias clandestinas. Sempre soube sorrir e por isso sempre foi tão bela; os que sabem sorrir, sorrir na infinita incondicionalidade do próprio gesto, unificam a vida nesse ápice, e a mãe é isso mesmo, o mundo inteiro libertado na amplitude do seu sorriso.

Eu fui doce semente a brotar na intimidade do seu brando regaço, e os meus dias ganharam vida pelas festas do inverno. A mãe ia deixando de ter a idade que as maçãs têm no verão, e pela calada fez-me gente enquanto os seus frutos invernavam ao sabor das ilusões do tempo que passa, que cresce, que apaga e renasce.

A mãe navegou por fortes ventos antes ainda de ter a idade que as maçãs têm no verão, guardava cartas de amor que acabou por esquecer e eu jurei que havia de escrever um livro inteirinho para que jamais lhe faltassem as palavras que foi perdendo. Compus versos soltos, odes fragmentadas, textos excessivos, cartas inúteis de despedida, mas tudo é tão modesto quando a medida propõe alcançar o infinito para lhe corresponder aos gestos. A mãe é enorme, a mãe é grande de alcançar o tamanho da sua própria gentileza, a mãe sabe sorrir.

A mãe grita, levanta a voz, torna-se na sua própria voz, se for preciso, para que se entenda a sua missão. A mãe cuida, cuida sempre.

A mãe colhe flores para purificar bálsamos e deita-os à noite, por entre os lençóis, porque sabe que a beleza dos sonhos está no perfume.

Nos matos secos da vida, a mãe espalha cores que guarda nos cofres da sua alma e ninguém mais vê; a mãe encomenda paisagens com caminhos belos para nos guiar.

A mãe carrega, às costas, o mar para o deserto; e planta cardumes para que a rudeza das areias se cubra com águas férteis.

A mãe esconde as lágrimas, mas eu, que também venho voando pelo tempo da história e também já deixei para trás a idade que as maçãs têm no verão, aprendi a espreitar nos seus esconderijos. Doem-lhe as perdas; só as perdas lhe doem, porque tem preguiça de sentir dores desnecessárias; o sorriso que a hospeda é duro, não lhe dá espaço para restos, e ela não se entrega senão ao amor, tanto lhe faz, que o resto seja o que for. As perdas que lhe doem, trago-as também eu, a magoarem-me os esconderijos; eu e a mãe choramos juntas, escondidas, sem misturar as lágrimas na denúncia, fingimos não espionar os nossos abrigos e fingimos acreditar nisso. Estamos quase do mesmo tamanho e vamos sendo cada vez mais uma só. Às vezes eu acho que sou a mãe, de tanto a sentir; mas a mãe, ah, a mãe nunca será só eu: a mãe, de tanto amar, tem muita gente para ser.

 

Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros Em Breve, Meu Amor e O Homem do Trator.

 

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