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“Magnifica Humanitas”: a humanidade enquanto projecto em que a presença de Deus é o cerne

 

1. Esta primeira encíclica de Leão XIV situa-se na linhagem do pensamento social da Igreja Católica, começando por referir o primeiro texto que formula uma doutrina – a Rerum Novarum de Leão XIII, de 1891. Segue-se uma panorâmica da Doutrina Social da Igreja, da qual é apresentada uma brilhante e utilíssima síntese (§28-45), que vai até ao Papa Francisco. E logo no início, lemos o propósito da Doutrina Social da Igreja: não é “um manual de princípios e normas a aplicar”, mas “um caminho de discernimento comunitário, uma teologia da comunhão na história; um lugar onde a Palavra que se fez carne continua a tornar-se diálogo, memória e profecia” (§27). A meu ler, esta sua formulação do propósito daquilo a que se chama Doutrina Social da Igreja é uma das mais pertinentes.

Em 2026, Leão XIV vem prolongar essa continuada reflexão do magistério eclesial, apresentando o seu próprio pensamento sobre uma situação totalmente nova na História: a da humanidade perante os progressos das Nano-Bio-Info-Cogno-Ciências – as NBIC –, como têm sido designadas. E fá-lo, analisando virtudes e riscos de uma das realidades que está a tornar-se dominante no mundo técnico-científico, e que poderá vir a atingir o coração de toda a humanidade: a inteligência artificial (inteligência alienígena – Alien Intelligence, como lhe chama o historiador e pensador judeu Yuval Harari) – hoje conhecida como IA. O Papa apresenta o seu próprio pensamento sobre possíveis resultantes de alguns dos progressos das actuais biotecnociências para o conjunto da humanidade.

Embora com excelentes excepções, a hierarquia da Igreja Católica tem-se pronunciado quase sempre sobre situações importantes e mesmo graves, mas apenas quando estas situações estão já instaladas. Esta encíclica de Leão XIV é, pelo contrário, um dos casos em que é focada uma questão hoje candente, mas ainda em processo. Apesar de já vermos dela muitos aspectos em acção, as consequências mais graves que poderá vir a gerar estão ainda (quase só) em embrião.

Não cabe dúvida de que esta inovação veio já alterar profundamente muitos aspectos da vida actual (ciberespaço, meios de informação, redes sociais) e que poderá vir ainda a transfigurar a era que vivemos e a História humana. Ao apresentar possibilidades de um inovador funcionamento humano-técnico-instrumental, a IA tanto pode constituir um avanço benéfico para todos os humanos, para viverem melhor e mais unidos, como pode gerar ameaças graves à própria sobrevivência da humanidade, com a pretensão de criar seres artificiais aptos a substituir os seres humanos[1].

Terá sido isto que leva o Papa a afirmar agora que “jamais alguma máquina poderá substituir [a humanidade] no seu esplendor” (§16): a “magnífica humanidade”. Avalia aqui não só as virtualidades, mas sobretudo os riscos da IA. Para tal, toma como referência a visão evangélica da vida humana e o horizonte final da História: em Deus.  A trajectória histórica, diz, implica a responsabilização de homens e mulheres, e não de não-humanos – os robôs –, por mais eficazes que estes possam ser.

A História tem de ser edificada “no bem” e para o “bem comum”, o que supõe “aceitar os limites e a fragilidade do humano, assumindo uma co-responsabilidade corajosa e critérios de discernimento evangélicos”, respeitando a “dignidade da pessoa, a destinação universal dos bens, a opção pelos mais pobres, o cuidado com a Casa comum e a paz” (§11-14). E ainda: rejeitando sempre a violência, cultivando o diálogo em todas as circunstâncias (mesmo no multilateralismo hoje em crise – §213; 201).

 

Um algoritmo para o bem de todos?

Algoritmo

Ilustração conceptual de Inteligência Artificial e Machine Learning em Finanças e Mercados Financeiros, tecnologias inovadoras para avaliar riscos e retornos financeiros com base em IA e big data,

A Magnifica Humanitas denuncia a marginalização das mulheres, mas apenas no contexto da marginalização das minorias a respeitar (§57). O que é pena pois as mulheres são uma maioria, no conjunto da humanidade. Mesmo assim, mais adiante aparecem alguns nomes femininos conhecidos pelo seu envolvimento de fé na construção da História (§124). (Aliás, são também nomeados movimentos e instituições que actuam no mundo no sentido da igualdade entre pessoas e nações e em favor da Paz (§123).

 

2. Ora perante esse horizonte final para a vida humana, Leão XIV evoca duas perícopes bíblicas que constituem duas linhas ortogonais de sentido, com resultados totalmente divergentes (§90).

Por um lado, no livro do Génesis a narrativa da edificação da Torre de Babel, em que “uma obra comum é guiada por um projecto de domínio que acaba por desumanizar” (Gen 11, 1-9), por levar à uniformidade, à soberba e ao descarte do que é diferente.

Por outro lado, no livro do profeta Neemias, sobre a reconstrução das ruínas de Jerusalém, lemos o seguinte: “as ruínas do templo de Jerusalém, sob a liderança de Neemias, são reconstruídas por partes, como obra de responsabilidade partilhada” (Ne 2-6). O resultado dessa reconstrução foi a criação de comunidade em que todos participaram, cada um a seu modo, cada um com sua responsabilidade.

A relação que Leão XIV estabelece entre estas narrativas e o projecto da IA consiste na hipótese de este novo modo de inteligência computacional poder ser posto a servir toda a comunidade humana, ou de, pelo contrário (e mais provavelmente), vir a servir apenas alguns – que em qualquer caso serão os que detêm o poder nas decisões económicas, culturais e sócio-políticas.

A preocupação em salvaguardar o humano e a própria humanidade enquanto projecto em que a presença de Deus é o cerne, constitui a preocupação maior desta Encíclica (§112). Nela se declara a necessidade de discernimento sobre a visão antropológica e as finalidades que o progresso técnico persegue (§92), examinando, por exemplo, se o poder das infraestruturas digitais e dos algoritmos favorece a participação e a responsabilidade, se protege os mais frágeis, se assegura uma igualdade de acesso às oportunidades e se permanece orientado para o bem de todos (§96).

 

Ser imortal como Deus

Bem Comum. Educação

‘Os critérios serão sempre os do Evangelho, formulado em palavras de hoje: “a dignidade inalienável da pessoa, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social”.’ Imagem: Repensar a educação rumo a um bem comum universal

Antes de mais, importa – segundo Leão XIV – “desarmar a IA”. E não apenas a nível militar, mas também a nível económico e cognitivo. Não basta regular o que é já – e poderá vir a ser – a sua utilização, mas é necessário desarmá-la, isto é, impedir o seu domínio sobre o humano. E mais do que isso, é imperioso torná-la acolhedora (§110).

Os critérios serão sempre os do Evangelho, formulado em palavras de hoje: “a dignidade inalienável da pessoa, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social”. Se essas virtudes estiverem ausentes, haverá que alertar para os perigos e com veemência e eficácia denunciar as decisões que, mesmo se ainda ao longe, já se avistam.

Tal discernimento, deve antes de mais ser feito dentro da comunidade eclesial. A Doutrina Social da Igreja permite que esse exame de consciência se faça antes de mais dentro da própria Igreja, para tornar-se, depois, critério de avaliação da intervenção no mundo.

 

3. O sonho e a possibilidade de superar muitas das capacidades do existente humano estão agora formulados em narrativas multi-displinares do pensamento, que pretendem melhorar o ser humano e aperfeiçoá-lo. Trata-se não só de uma nova etapa, mas de outro paradigma nosso contemporâneo, daquilo que foi sendo expresso como desejo humano em várias mitologias e em obras da literatura universal de todos os tempos, e que muito cinema contemporâneo retomou. (Lembremos as figuras de Gilgamesh, Prometeu, Ícaro, entre tantas outras…)

Agora, foi dos contextos tecnocientíficos, económicos e filosóficos, que surgiu o projecto de uma inteligência artificial ou alienígena. Ele surge de narrativas como a do transumanismo e do pós-humanismo que são correntes com várias entradas que conjugam, além de outras, as já mencionadas biotecnociências (§115-116).

Leão XIV vê estas linhas de pensamento como um arquipélago de múltiplas ilhas conceptuais (§116), onde se torna visível, mesmo se subliminarmente, esse eterno desejo humano de ser criador e imortal como Deus, o que é revelador da recusa da própria finitude (o heideggeriano “ser-para-a morte”), das nossas fragilidades e fracturas espirituais e da nossa identidade como seres descentrados: porque temos o próprio centro fora de nós.

Na sequência dos neo-materialismos, o transumanismo idealiza e concretiza diversos melhoramentos no humano, aperfeiçoando algumas das suas capacidades, falando de um humano aumentado ou “aperfeiçoado” (§115)[2].  Já o pós-humanismo, indo mais além, intervém de modo radical na realidade humana. Como o nome indica, trata-se de uma corrente científico-filosófica que questiona o antropocentrismo, valorizando outros elementos da Terra e concebendo e criando seres “mestiços”, resultantes da miscigenação de humanos com máquinas e mesmo com outros seres vivos[3].

 

O humano impotente

“Essa criação de outros seres, mais competentes em muitos aspectos que o ser humano, vislumbra um estádio que muitos cientistas julgam poder superar o dos humanos, numa espécie de “evolução” forçada, que nada tem a ver com o “natural” processo evolutivo.”

Essa criação de outros seres, mais competentes em muitos aspectos que o ser humano, vislumbra um estádio que muitos cientistas julgam poder superar o dos humanos, numa espécie de “evolução” forçada, que nada tem a ver com o “natural” processo evolutivo (§115-116). Tal intuito do pós-humanismo tem sido debatido por muitos cientistas e filósofos, homens e mulheres, e parece-me interessante o que tem sido pensado nesse campo por investigadores de diversas origens: quer elogiando as possibilidades que, a seu ver, essa evolução do humano permitirá quer denunciando a seriedade dos perigos que poderá comportar.

De modo ainda (quase) rudimentar, a IA será assim a aparente concretização dessa nova criatura quase omnipotente e imortal. No entanto, apesar das oportunidades e vantagens que trouxe já à vida actual, a IA nova poderá vir a transfigurar a humanidade, colocando-a num outro plano da realidade terrena, de onde os humanos poderão serão eliminados ou pelo menos tornados impotentes.

 

4. Perante esta ameaça, Leão XIV reflecte aqui sobre como salvaguardar “a magnífica humanidade”, em que os seres humanos – seres-com-outros-no-mundo (Merleau-Ponty) – têm em si capacidades insubstituíveis, tais como: a atenção ao mundo, a responsabilidade pelo outro, quem quer que ele seja, a misericórdia, o perdão, o cuidado para com todas as pessoas e com o próprio Planeta. E vemos aqui um aviso raramente equacionado: a IA representa um excessivo desgaste dos recursos da Terra.

Esta “Carta-Encíclica” aposta numa cultura e numa civilização do amor e não do poder, apelando à busca de uma outra sabedoria, fundada no Evangelho, que não coincide com o que o progresso técnico-científico poderá dar-nos (§186-188). Quase no final do seu texto, o Papa traz de novo à luz a figura de Neemias, como figura exemplar para o nosso compromisso no mundo. Cito:

“Reconheço [em Neemias] uma parábola luminosa da nossa vocação a ser, na era da transformação digital, não resignados expectadores das fraturas sociais e culturais, nem meros analistas das ruínas, mas mulheres e homens que entram nos estaleiros da História – laboratórios de investigação, empresas tecnológicas, escolas, meios de comunicação, instituições, comunidades locais – para reconstruir o que ruiu e proteger o que está exposto. Tal como Neemias, também nós somos chamados a unir escuta e coragem, oração e responsabilidade, para que a cidade dos homens se torne mais habitável, mesmo quando as lógicas tecnocráticas e os interesses particulares parecem prevalecer.” [§241]

A incitação de Leão XIV é, pois, para salvaguardarmos o melhor do humano: a realização de uma presença responsável ao mundo, abertura ao Futuro Absoluto de Deus.

 

[1] Sobre virtualidades e problemas das consequências deste pensamento se pronunciam muitas mulheres e homens das ciências e tecnologias e da Filosofia. Sobre isso, o estudo que completei recentemente: Corpo a Nu. Humanos, Ciborgues, Transumanos e Pós-Humanos. Porto: Afrontamento, 2025.
[2] Realizou-se nos EUA, em 2010, o 1º Congresso Internacional do “Homem Aumentado”: The First ‘Augmented Human’ Congress, seguido por outros na Europa.

[3] O exemplo de Donna Haraway, no seu “Manifesto Ciborgue”, do início dos anos 1990, onde fala da miscigenação com insectos! Curiosamente, na pintura de Graça Morais, para mencionar apenas uma artista deste país, há óleos onde essa fusão humano-animal é claramente exposta.

 

Isabel Allegro de Magalhães é professora catedrática aposentada de Literatura Comparada, da Universidade Nova de Lisboa. Participante do Graal, movimento de mulheres cristãs.

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