Maid: a série que todos devemos ver

| 24 Nov 21

You can breathe, baby girl.
Sean para “Alex”, na série Maid

“O grande tema da série é precisamente esse, as vertentes subtis da violência doméstica: a emocional, a psicológica, a financeira. A violência que, não deixando nódoas negras ou órfãos, é especialmente difícil de provar em tribunal.” Foto: Alex com Maddy, na série Maid

 

Netflixicamente, é excelente, não se enreda no drama ou no feminismo fácil, tem o seu quê de humor, não caricatura personagens, e a actriz principal, Margaret Qualley, merece todos os prémios da temporada. Mas não é isto que interessa, que não sou crítica de televisão. Com pena, admito.

Em dez episódios, acompanhamos a jornada de Alex para se autonomizar da relação abusiva que mantém com Sean, o pai de Maddy, a filha de quase três anos (uma miúda mesmo gira, por acaso). Aos 25 anos, sem qualificações, sem um cêntimo nem rede de suporte e algures no meio do estado de Washington, acaba à frente de uma assistente social atolada em papel e em casos urgentes, e que a encaminha para um abrigo de vítimas de violência doméstica e lhe dá o contacto de uma empresa de limpeza.

Este ponto de partida bastaria para nos pôr a pensar. A forma como a história é contada obriga-nos a fazê-lo. Afinal de contas, a série é baseada num caso real. Só alguns apontamentos, pertinentes num país como o nosso:

A violência é tão subtil. Em vez de se fixar na relação já irremediável de Alex e Sean, a série foca-se nas dinâmicas torcidas e incorrigíveis que se vão estabelecendo entre os dois. Partilhar o telemóvel dele para poupar dinheiro, os clássicos “vês o que me fizeste fazer”, “fiz-te o jantar” e o “somos uma família”, controlar as contas de e-mail, a dependência financeira absoluta – a dada altura percebemos que não tem conta bancária, no século XXI –, que é o homem que traz dinheiro para casa, e tudo o que vai calando e evitando, por puro medo. Não por acaso, Alex consegue identificar claramente o momento em que passou a ter permanentemente medo de Sean.

O grande tema da série é precisamente esse, as vertentes subtis da violência doméstica: a emocional, a psicológica, a financeira. A violência que, não deixando nódoas negras ou órfãos, é especialmente difícil de provar em tribunal. E mostra-a sem sentimentalismo ou moralismo, deixando o espectador livre para encontrar as explicações que bem entender.

Transmite-se, de geração em geração. Alex e Sean não vêm de famílias-pipoca, nem cresceram em ambientes afectiva, mental ou fisicamente seguros, são um produto de um cocktail de abusos, drogas e doença mental. Mesmo sem acreditar em determinismos, a pergunta impõe-se: até que ponto é possível não mimetizar o que se viveu, mesmo se se quer quebrar o padrão? E vamos também percebendo que a construção da memória pode ser muito traiçoeira, até para quem, como Alex, tem uma determinação sobre-humana. E será possível sair do buraco sem ajuda exterior?

Não há Estado que chegue. Sem rendimentos ou rede de suporte, Alex tem de contar só com serviços sociais estafados, e tenta conseguir todos os apoios possíveis, consegue uns sete, com valores relativamente baixos. É fácil, à primeira vista, cair na indignação moralista com a ineficiência estatal de tão óbvia que é. Mas não será a incapacidade do Estado só um sintoma de um problema muito mais profundo – de que a cidade de Port Hampstead é o espelho – a desintegração total dos laços familiares, religiosos e comunitários? Não estaremos nós à espera que o Estado providencie o que não poderá nunca providenciar?

Certo, é só uma série da Netflix que dá pistas valiosas para reconhecer situações de abuso e de violência. Há milhares de Alexes e de Seans em Portugal, onde a violência doméstica é um problema estrutural, de que as mulheres são as principais vítimas: nos primeiros seis meses de 2021 morreram nove mulheres e três homens por homicídio voluntário em contexto de violência doméstica. A 30 de junho, tínhamos 1098 pessoas em situação de acolhimento, 718 mulheres, 364 crianças e 16 homens. Não são números brilhantes.

O ditado popular está errado, e entre marido(s) e mulher(es), mete-se a colher, o faqueiro completo e, se for preciso, a polícia: a violência doméstica é um crime público, o que significa que qualquer cidadão pode denunciar uma situação de que tenha conhecimento.

Como teaser, fica um excerto de uma das primeiras conversas – de Alex com a assistente social:

Há camas no abrigo para vítimas de violência doméstica, mas disseste que não é o teu caso?
Sim. Detestaria tirar uma cama a uma pessoa que tenha sido agredida a sério.
“Agredida a sério”. O que significa isso?
Espancada. Magoada.
E o que é a agressão falsa? Intimidação? Ameaças? Controlo? Tens de ser tu a ligar à linha de apoio. Costumam mandar um táxi à esquadra mais próxima para te levar ao abrigo.
Ligo e digo o quê?
Ajudem-me.

 

The happiest day of my life hasn’t happen yet.

“Um dos aspectos mais pedagógicos da série é a clareza com que mostra as consequências do abuso emocional, muito ajudado pela pobreza, na saúde física e mental.” Foto: Alex, na série Maid

 

Neste dia 25 de novembro, assinalar-se-ão mil e um acontecimentos pelo país e pelo mundo fora (é engraçado imaginar o mapa-mundi das micromemórias de cada dia): um deles o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, instituído pelas Nações Unidas através da Resolução 52/134, de 17 de dezembro de 1999. Parece-me uma boa data para publicar estas notas.

“Um lugar mal situado”, a segunda grande protagonista de Maid é a cidade de Port Hampstead, que a história situa no estado de Washington (Noroeste dos EUA) – e aqui faço uma pequena incursão pela observação televisiva. A típica cidade de província e isolada no meio de uma floresta deslumbrante, rodeada de subúrbios de luxo, onde as distâncias parecem infinitas. Tudo é longe, ali. O carro é um bem de primeira necessidade, fundamental para se poder trabalhar. Os trabalhos são pouco qualificados e mal pagos. Estamos nos domínios da mais malamada classe dos Estados Unidos, o white trash. Mas é a pobreza relacional que choca em Maid. Não há uma amizade estável ou profunda, uma família saudavelmente funcional, nem uma comunidade religiosa que congregue estas pessoas des-laçadas, incrivelmente sós, e que nunca se conseguiram estruturar, para que o dia seguinte não seja sempre igual ao anterior. É isto que faz de Port Hampstead um beco sem saída, um caldo perfeito para que seja extraordinariamente difícil quebrar o ciclo da violência ou não ter recaída na relação abusiva.

Ao rever mentalmente a série, lembrei-me de Homens que São Como Lugares Mal Situados, de Daniel Faria. Port Hampstead é esse lugar, habitado por casas saqueadas, pedras fora do chão, caminhos barricados, danos irreparáveis, por Homens sulfatados por todos os destinos/Desempregados das suas vidas (será que estes Homens de que falava Daniel Faria serão homens e mulheres ou apenas homens?). Num lugar assim, só se sobrevive fugindo.

O corpo paga sempre, mesmo sem ser batido. À primeira vista, Alex não é tão vítima assim. Afinal de contas, Sean nunca lhe bateu. Um dos aspectos mais pedagógicos da série é a clareza com que mostra as consequências do abuso emocional, muito ajudado pela pobreza, na saúde física e mental. Alex comete uns quantos erros pelo caminho, alguns estúpidos, o que é compreensível. A pergunta é se esses erros se explicarão, em parte, pela perda da capacidade de discernimento que vem da exaustão, péssima alimentação, privação de sono e, sobretudo, do medo que a impede de ver para lá do momento presente.

É também a parte mais assombrosa, de tão subtil, do trabalho de Margaret Qualley e também de Andie MacDowell, no papel de Paula, a mãe de Alex. É impossível não reparar nas nuances da postura física de Alex ao longo da série, desde as mudanças na forma de andar, de respirar, e a elegância com que cria barreiras a algumas pessoas, de tão defensiva é a sua postura corporal. É igualmente interessante e revelador observar a forma como trata ou não de si própria ao longo da série. É incrivelmente sóbrio, contido, sem uma ponta de sentimentalismo e eficaz. E assim termina a minha incursão pela crítica televisiva.

Voltando ao dia de hoje e à realidade local, é injusto dizer que “o Governo não faz nada”, esse eterno mote da desresponsabilização nacional. Temos um problema de violência doméstica e não é (só) a Assembleia da República, o Governo, a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, as câmaras municipais, as juntas de freguesia ou a Administração Pública que têm a obrigação de o resolver. As raízes e as causas da violência doméstica em Portugal explicar-se-ão, em boa parte, pelas características das comunidades e dos lugares que formam a sociedade portuguesa. Sendo cada um nós construtor de várias dessas comunidades e desses lugares, é sobre nós que recai, em primeira linha, a responsabilidade de tentar mudar as condições que permitem que a violência doméstica se perpetue.

Calma, não estou a fazer um apelo encapotado ao desmantelamento do patriarcado, só a que sejamos melhores observadores da realidade. Não é assim tão difícil: procurar informação, saber os números, conhecer as instituições de apoio, saber detectar e estar atento a sinais de alerta, estar disponível para ouvir e não desvalorizar pedidos de ajuda. Um bem-intencionado “querida, sabes que ele está a fazer um esforço e gosta tanto de ti” pode ter consequências trágicas.

Uma breve explicação da imagem: em 2008, o Secretário Geral das Nações Unidas lançou a campanha Unite, com o objectivo de eliminar a violência contra as mulheres e raparigas até 2030. Apesar do objectivo utópico, a campanha é meritória e tem como cor-símbolo a mais viva e criativa das cores, o laranja, aqui sinal de um futuro mais luminoso. A resposta para o azul-celeste está algures num dos episódios de Maid. Vejam, que vale francamente a pena.

 

Marta Saraiva é diplomata, exercendo actualmente funções na Missão de Portugal junto do Conselho da Europa.

 

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