Pense nas maiores e mais icónicas esculturas do planeta. Vêm-lhe à memória a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, ou o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro? Pois está prestes a conhecer uma ainda mais alta e que promete tornar-se igualmente icónica: falamos da maior escultura de Nossa Senhora de Fátima do mundo, que foi inaugurada esta quinta-feira,13 de novembro, na cidade do Crato (no interior do estado do Ceará, Brasil), e que já está a atrair milhares de peregrinos até ao local, que será elevado a santuário.
Com impressionantes 54 metros de altura (o equivalente a um prédio de 15 andares), a nova escultura ergue-se no meio de uma extensa planície urbana. Mas a sua construção não visa bater nenhum recorde, e sim tornar visível a forte devoção mariana dos habitantes da região, inscrevendo a fé na própria paisagem, tantas vezes dominada por outdoors, torres de escritórios, grandes fábricas ou megacentros comerciais.
Mas de onde vem esta devoção mariana, e em particular a Nossa Senhora de Fátima? Tudo começou há precisamente 72 anos, a 13 de novembro de 1953, quando a cidade recebeu pela primeira vez a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima. A escultura – enviada pelo Santuário de Fátima, em Portugal – foi levada até à principal praça da cidade do Crato, onde religiosos, autoridades e a população em geral se reuniram para a receber. E são inúmeros os relatos das graças e obras que aconteceram por intercessão de Nossa Senhora, após a sua passagem pelas ruas. No final desse mês, a Sé Catedral do Crato recebeu de presente uma réplica dessa mesma imagem, esculpida por Guilherme Thedim, irmão mais novo de José Ferreira Thedim, o autor da escultura original que se encontra na Capelinha das Aparições, em Fátima.
Não é, assim, de estranhar que a devoção a Nossa Senhora de Fátima tenha tomado, a partir daí, proporções até então nunca vistas na cidade (e provavelmente no país). Novas paróquias foram criadas tomando-a como padroeira e vários equipamentos públicos da cidade, como creches, escolas, ruas e bairros passaram a ter o seu nome.

Registo da primeira visita da imagem peregrina de N. Sra. de Fátima ao Crato, em 1953. Foto © Diocese do Crato
Uma imagem criticada e a busca pelo artista certo
Mais recentemente, em 2014, foi ali inaugurada uma escultura de Nossa Senhora de Fátima com a altura de 45 metros, até então a maior do Brasil. Mas a sua beleza era questionável, além de ser muito diferente da imagem original, e as críticas foram-se avolumando.
Já a devoção a Nossa Senhora de Fátima, essa não esmoreceu. Pelo contrário, foi sempre crescendo, em particular depois da pandemia de covid-19. E nasceu a vontade de substituir a escultura existente e de reestruturar o espaço envolvente (que inclui uma réplica da Capelinha das Aparições), de modo a permitir que os fiéis não apenas se dirigissem ao local para ver a imagem, mas ali pudessem permanecer por mais tempo e vivenciar verdadeiramente a sua espiritualidade mariana.

Em 2014, foi ali inaugurada uma escultura de Nossa Senhora de Fátima com a altura de 45 metros, mas era muito diferente da imagem original. Foto © Diocese do Crato
O padre Arileudo Machado, administrador do monumento, iniciou então a busca pelo artista certo para essa missão e rapidamente chegou a Ranilson Viana, um jovem escultor brasileiro cujas obras são conhecidas pelo realismo detalhado e pela capacidade de evocar emoções, e que já tinha criado algumas estátuas de grandes dimensões.
“Foi com uma enorme alegria e orgulho que recebi o convite para fazer esta escultura”, conta Ranilson Viana ao 7MARGENS, sem esconder a emoção. “Já tinha feito uma escultura com 20 e poucos metros, outra com 33, e estou a preparar uma escultura de Santa Ana com 57 metros, mas ter a oportunidade de fazer a maior Nossa Senhora de Fátima do mundo foi particularmente especial, porque cresci numa casa de muita fé, e a minha avó sempre foi devota de Nossa Senhora de Fátima”. E acrescenta: “Cada detalhe desta escultura carrega a devoção a Maria que ela me transmitiu. Trabalhar nesta peça foi, para mim, uma forma de oração em movimento”.
Ranilson, 38 anos, foi criado pelos avós maternos, depois de a sua mãe ter falecido quando ele tinha apenas um ano e nove meses. “Cresci numa casa muito pobre, na zona rural de Petrolina, e passámos muitas dificuldades, mas nunca me faltou amor e fé”, recorda.
O que ele nunca imaginou foi que viria a tornar-se escultor, e muito menos criar obras desta grandiosidade. Apesar de sempre ter gostado muito de desenhar, e de todos reconhecerem que tinha um talento especial para isso, lembra-se de a sua avó o avisar constantemente que, se decidisse fazer das artes plásticas profissão, iria “acabar por morrer à fome”.
No entanto, foi quando soube que a sua esposa estava grávida do primeiro filho que arriscou fazer a primeira escultura. “Precisávamos de dinheiro para poder ter uma casa com um quarto para o bebé, e foi com essa primeira escultura que o consegui”, conta. O bebé viria a falecer menos de dois meses após ter nascido, mas no meio da enorme dor que essa perda gerou, Ranilson Viana compreendeu qual tinha sido um dos propósitos da curta vida daquele filho: mostrar-lhe a sua vocação como escultor.

O escultor Ranilson Viana no seu atelier, em Petrolina. Foto: Direitos reservados
Lugares e pessoas transformados
A partir daí, o jovem escultor brasileiro não parou mais: cresceu a sua fé e cresceram as suas esculturas, que passou a fazer também com o objetivo de fortalecer a fé dos outros. “Quero muito que estas imagens as ajudem a estabelecer uma ligação forte com o nosso Criador”, diz. “E vejo que isso acontece. Há pessoas que vêm ter comigo e me abraçam, dizendo que a sua vida mudou a partir do contacto com as obras. Já recebi relatos de pessoas que saíram do alcoolismo, que se reaproximaram das suas famílias… é muito gratificante saber como o meu trabalho pode transformar as pessoas”.
Além disso, ao atraírem peregrinos, turistas e curiosos, “a presença destas esculturas promove o desenvolvimento local, porque onde há maior circulação de pessoas tem de aumentar a segurança, tem de haver comércio, têm de melhorar os acessos e transportes, tem de haver serviços de saúde, de educação, etc”, sublinha o escultor.

A escultura foi criada por partes, as quais foram depois transportadas para o Crato e montadas como se de um puzzle 3D se tratasse. Foto: Direitos reservados
A imagem de Nossa Senhora de Fátima que esta quinta-feira foi inaugurada no Crato é a prova disso mesmo. Com o interior em poliuretano e o exterior composto por membranas de fibra com resina e acabamento em gel e pintura especial, a escultura foi criada por partes no ateliê de Ranilson Viana, as quais foram depois transportadas para o Crato e montadas como se de um puzzle 3D se tratasse. Ao todo, a obra demorou um ano e cinco meses até ficar concluída, tendo envolvido uma equipa de mais de 30 pessoas. Ao mesmo tempo, foi nascendo em seu torno o novo santuário, dotado de serviços para peregrinos e assistência pastoral.
Durante a cerimônia de inauguração, que reuniu milhares de pessoas, o bispo diocesano do Crato, Magnus Henrique Lopes, destacou que, com esta nova imagem, chegava também um renovado apelo à paz: “Nossa Senhora de Fátima pede a conversão e pede para rezar pela paz do mundo, e sobretudo pela paz do nosso coração. Pois quando rezamos pela paz interior, a paz do mundo acontece”.
Diversos representantes políticos locais e nacionais fizeram questão de marcar presença. O ministro da Educação, Camilo Santana, sublinhou que aquele era um momento de reflexão para eles em particular. “O mundo está precisando de tolerância, de fraternidade, de carinho. Que Nossa Senhora de Fátima possa alimentar o coração e a mente de cada um de nós. Nós, que somos governantes, que tomamos decisões, que a gente possa sempre tomar decisões com sabedoria, com justiça e sempre olhando para as pessoas que mais precisam, nesse Ceará e nesse país”.
Para o reitor do Santuário de Fátima em Portugal, padre Carlos Cabecinhas, “é impressionante a devoção mariana do povo brasileiro e ainda mais impressionante a devoção a Nossa Senhora de Fátima”. Assinalando que o Brasil é o país com mais santuários dedicados a Nossa Senhora de Fátima, o prelado conta ao 7MARGENS que “desde o primeiro momento”, apoiou esta iniciativa e acompanhou a evolução da construção deste novo complexo religioso.
“Fui convidado para estar presente na inauguração, mas não pude estar, em virtude de compromissos já assumidos. Mas, obviamente, se ou quando surgir a oportunidade de visitar este monumento, terei todo o gosto e interesse em fazê-lo”, diz. O reitor não pôde estar presente, mas esteve a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, que 72 anos depois regressou, assim, ao Crato.

Milhares de pessoas estiveram na cerimónia de inauguração da escultura, no Crato. Foto © David Macedo
Quem já está a planear a sua ida ao Santuário de Fátima é Ranilson Viana. “Prometi a Nossa Senhora que, se este projeto fosse aprovado, iria ao Santuário agradecer-lhe. Irei assim que possível, juntamente com a minha esposa, os meus três filhos, e a minha sogra”, partilha.
E, ao mesmo tempo que vai recebendo pedidos de diferentes partes do Brasil e também de outros países da América Latina para esculpir outras estátuas gigantes de Nossa Senhora, Ranilson partilha em primeira mão com o 7MARGENS que já sonha com aquele que é o seu grande objetivo: construir a maior estátua do mundo, com uma altura de 200 metros (a escultura mais alta atualmente tem 182 metros e representa um dos líderes da independência da Índia, Sardar Vallabai Patel, situando-se no estado de Gujarat).
Mas essa escultura, revela, não será de Nossa Senhora de Fátima, nem de nenhuma outra representação de Maria, e sim daquele para quem “ela aponta sempre”: Jesus.










