Maior que a nossa teologia

| 12 Jun 2023

 Deus é maior que a nossa teologia. Esta é, possivelmente, uma verdade difícil de engolir, pois temos o desejo de conseguir explicar a nossa fé de forma sistemática. Gostamos de ter respostas para todos os fenómenos espirituais, e de preferência que esses fenómenos sejam facilmente explicados pelo sistema teológico que defendemos. Felizmente, Deus não se deixa circunscrever pelos nossos ideais sobre ele.

Isto não quer dizer que Deus não se deixa conhecer. Antes, porque ele se revela somos desafiados a utilizar o nosso raciocínio para o entender. No entanto, esse conhecimento não se fecha quando o ser humano estrutura o seu raciocínio. Abraçar uma fé e, por conseguinte, uma teologia é um compromisso com uma constante aprendizagem sobre Deus e sobre o todo, que é o âmbito da ação de Deus. Também não quer dizer que Deus se contradiga a si próprio. Antes, porque é Deus, a sua mente e decisão nos levará para lugares desconhecidos e surpreendentes para a nossa compreensão, mas que serão sempre consistentes com o princípio divino.

Esta compreensão sobre a fé, sobre a vida, sobre quem somos e sobre quem é o próprio Deus é influenciada pela filosofia, pela história, pela sociedade, pela cultura, pela tecnologia – e a lista continuaria. Então quando estudamos, sistematizamos e concebemos uma teologia ou em menor escala, uma doutrina, tendemos a entender Deus pelas nossas próprias lentes, baças pelo fumo da voz dos homens ou pela experiência dos pares. Essas lentes devem ajudar-nos, mas não nos podem fazer perder a capacidade de ansiar por mais de Deus, mesmo que isso nos venha a surpreender logicamente ou até academicamente. De certa forma, quando limitamos Deus à nossa compreensão teológica estamos a tropeçar na idolatria da nossa teologia.

O profeta Jonas, relatado na Bíblia no livro com o mesmo nome, é um exemplo de como conseguimos colocar a nossa teologia acima do próprio Deus. A princípio, o profeta Jonas vivenciava a fé comunitária de Israel e com toda a certeza entendia a Lei de Moisés. Ele seria tudo menos um ingénuo israelita que desconhecia os feitos do Deus Jeová. No entanto, quando incumbido por Deus para pregar ao povo de Nínive, inimigo de Israel, ele recusou-se. Depois da recusa, ele foi. O povo de Nínive foi convertido ao Deus de Israel e a resposta do profeta Jonas foi esta: tristeza. Segundo o relato bíblico, Jonas entristeceu-se tanto porque Deus preservou o povo de Nínive, que ele preferia morrer a ver essa maravilha! O sistema teológico de Jonas não aceitava que Deus pudesse compadecer-se de um povo do qual ele não gostava. De facto, ele preferia morrer a ter de encarar a verdade sobre a ação de Deus!

A vida do profeta Jonas é uma chamada de atenção para nós hoje: tenhamos a humildade de desenvolver uma fé que inclua o mistério de Deus. Quando os nossos sistemas teológicos tiverem espaço para a divisão, segregação e ódio, não estaremos prontos para ver e aproveitar toda a bondade que Deus pode derramar no mundo. Deus está pronto e tem trazido à luz pessoas e povos tão diferentes de nós, que desafiam a nossa percepção do que Deus aceita ou rejeita. Deus transforma quem o busca, e por isso não deixemos de o buscar, mesmo que isso seja abraçar o desconhecido e o desconfortável. Para isso, talvez tenhamos de deixar um pouco a nossa teologia descansar.

 

Débora Hossi é gestora de redes sociais; integra a Missão Evangélica Intercultural e considera-se peregrina e apaixonada por Jesus e pelos seus ensinamentos. Contacto: deborahossi@gmail.com

 

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