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Bispos portugueses em encontro com secretaria do Sínodo durante a visita ad ,imina, 20 maio 2024. Foto ECCLESIAPR
Igreja Católica em Portugal “mudou muito pouco”, “está na mesma”, ou” está ainda pior”. Na imagem, bispos portugueses em encontro com secretaria do Sínodo durante a visita 'ad limina', a 20 de maio de 2024. Foto © Ecclesia/PR

Inquérito 7MARGENS

Maioria considera que em cinco anos de sinodalidade a Igreja Católica pouco ou nada mudou

| 07/06/2026

Mais de metade (55,49%) dos que responderam ao inquérito do 7MARGENS sobre a sinodalidade afirma que nestes últimos cinco anos, e apesar do processo desencadeado pela convocação do Sínodo sobre o tema, a Igreja Católica em Portugal “mudou muito pouco” (35,77%), “está na mesma” (15,90%), ou” está ainda pior” (3,82%). No polo oposto, 41,65 por cento considera que ela “sofreu transformações profundas” (2,23%), “mudou muito” (5,88%), ou “mudou alguma coisa” (33,54%). Ao todo, 2,86 por cento reconhece “não saber avaliar” essa mudança.

O resultado das 629 respostas recebidas mostra uma impressionante resistência à mudança da mais antiga instituição portuguesa. São menos de um em cada dez (8,11%) a identificarem alterações significativas ocorridas em meia década! A esmagadora maioria (69,31%), mais de dois em cada três, coincide no reconhecimento de que as mudanças foram mínimas (“alguma coisa” ou “muito pouco”).

Esta conclusão é tão mais significativa quanto entre os participantes na sondagem 96 por cento dizem-se católicos, dos quais 75 por cento se encontram envolvido(a)s em algum movimento ou estrutura católica, ou desempenham algum serviço na comunidade em que se integram. São, portanto, não apenas “católicos praticantes”, como “católicos muito participativos”.

Se considerarmos apenas o universo do conjunto de padres e religioso(a)s, a opinião quanto à introdução de mudanças palpáveis inverte-se. Este grupo é mais otimista no balanço que faz quanto ao avanço da Igreja Católica em Portugal em termos de sinodalidade, sendo que um pouco mais de metade (53,52%) diz terem-se registado mudanças visíveis, enquanto 45,07 por cento as aponta como sendo impercetíveis.

Apesar desta avaliação um pouco mais otimista do que aquela feita pelos leigos e leigas, mais de um quinto (22,54%) dos padres e religiosos ou religiosas tende a considerar que, quanto à sinodalidade, tudo “está na mesma” ou “ainda pior”, valor que supera a percentagem (20,89%) de leigos/leigas que partilham dessas opiniões.

Recorde-se que o tema da sinodalidade foi lançado pelo Papa Francisco em 2021 como meio de questionar e reformar o modo de ser e viver da Igreja Católica, promovendo uma cultura de escuta, diálogo e corresponsabilidade entre todos os fiéis batizados, de modo a combater o clericalismo. Ou seja, tornar a Igreja menos hierárquica, passando a viver mais como uma comunidade organizada de forma circular do que prolongando a sua tradicional configuração piramidal.

 

Clero resiste

A “pouca vontade de mudança por parte de leigos e clero” e a “vontade do clero em manter o protagonismo exclusivo” são as principais causas sugeridas pelos inquiridos que avaliam negativamente os progressos sinodais dos últimos cinco anos. Foto © Patriarcado de Lisboa.

A “pouca vontade de mudança por parte de leigos e clero” (59%) e a “vontade do clero em manter o seu protagonismo exclusivo” (56,34%) são as principais causas sugeridas pelos inquiridos que avaliam negativamente os progressos sinodais concretizados nos últimos cinco anos, sugerindo de forma evidente que a resistência dos padres à mudança terá sido a principal razão para que tudo fique na mesma. Aos que viram poucas ou nenhumas alterações, o inquérito oferecia seis hipóteses de explicação das razões para essa resistência à mudança, à partilha de responsabilidades e protagonismo, das quais podiam escolher apenas duas.

De todas as hipóteses, a “recusa dos leigos em assumirem responsabilidades” (7,67%) foi a menos indicada, mesmo se quase um terço das respostas (30,38%) apontasse a “reduzida formação teológico-pastoral dos leigos” como entrave ao aprofundamento da sinodalidade. A “incapacidade de a comunidade entender os problemas e os desafios do mundo atual” (24,19%) e a “resistência da comunidade em acolher pessoas diferentes” (10,32%) foram outras das razões referidas para a resistência à mudança.

Por outro lado, quanto mais negativo é o balanço dos progressos realizados, mais se aponta o dedo ao clero, sendo que para aqueles que afirmam estar tudo na mesma, a “vontade do clero em manter o seu protagonismo exclusivo” é a razão desse estado de coisas (57%), subindo para os 70 por cento entre aqueles que sentem que a sua Igreja está ainda pior. Curiosamente, também entre os clérigos e religiosos/religiosas que não fazem um balanço positivo, 56,25 por cento indica a “vontade do clero em manter o seu protagonismo exclusivo” como obstáculo ao advento de uma Igreja sinodal.

Entre os que, pelo contrário, sentiram grandes ou algumas alterações no modo das comunidades viverem, 40,46 por cento indicava como fator principal de mudança a “disponibilidade dos leigos para assumirem responsabilidades”, enquanto a “capacidade de a comunidade ler os sinais dos tempos” era apontada por 34,35 por cento. Seguiam-se-lhes outras razões, como a “abertura da comunidade para acolher pessoas diferentes” (29,39%), a “grande vontade de participação dos leigos” e o “entusiasmo de leigos e clérigos” (21,37%). A resposta menos escolhida, entre as seis possíveis, foi a que atribuía as transformações concretizadas à “dinamização por parte do clero” (13,74%).

Num ponto coincidem aqueles que viveram ou sentiram progressos das suas comunidades em direção à sinodalidade: o clero não foi um fator de aceleração deste processo. Ou porque agiu como entrave, preocupado em manter o seu protagonismo exclusivo, ou porque raramente contribuiu para dinamizar as propostas de ação inscritas na preparação do sínodo e nas recomendações incluídas no seu documento conclusivo.

 

Algumas surpresas

Estudo da Bíblia. Foto Balazs Toth

A “criação de grupos de vária índole, desde o estudo da Bíblia, de partilha de vida, de ação, ou outra” foi um acontecimento inesperado. Na imagem, estudo da Bíblia. Foto © Balazs Toth.

A todos os que relevaram alterações no modo de ser e viver da sua comunidade o inquérito solicitava que escolhessem duas de sete hipóteses sobre o que mais os surpreendera no caminho sinodal percorrido. Inesperado foi o facto de um em cada cinco (19,47%) responder que não sabia indicar alguma.

A “criação de grupos de vária índole, desde o estudo da Bíblia, de partilha de vida, de ação, ou outra” foi um acontecimento inesperado para 44,55 por cento dos que fazem um balanço positivo do caminho sinodal. Outros 39,41 por cento foram surpreendidos pela capacidade das suas paróquias ou movimentos terem lançado ações para enfrentar e resolver os problemas da comunidade envolvente.

A “renovação da linguagem e a melhoria da capacidade de comunicação com novas pessoas” (36,65%) e a “participação dos leigos na preparação da liturgia e a renovação desta” (26,79%) são também referidas como progressos que causaram admiração, tal como o foi para um quinto destes inquiridos o “protagonismo assumido pelos pobres e por outros até então marginalizados (recasados, homossexuais, etc…)”.

Mais uma vez, também entre as 41,65 por cento de respostas que salientam os avanços verificados, não existe grande indicação quanto ao papel dos padres, pois menos de uma em cada cinco (18,01%) reconhece a surpresa do “padre ter deixado de dirigir tudo”.

Outra indicação que este grupo de leitores oferece é a do muito caminho que ainda falta percorrer. Menos de cinco por cento (4,85%) reconhece ter sido surpreendido pelo facto da sua “comunidade ter passado a viver sinodalmente em todos os aspetos da sua existência”.

O inquérito lançado pelo 7MARGENS recolheu ainda a opinião dos leitores quanto ao entusiasmo com que bispos, padres e leigos/leigas se envolveram em Portugal no processo sinodal, sobre a importância e modos de concretizar a sinodalidade na Igreja católica, bem como e sobre o seu previsível futuro a nível nacional e mundial. Do resultado dessa auscultação daremos conta em notícias a publicar ao longo desta semana.

 

Ficha técnica

O inquérito aos leitores do 7MARGENS decorreu durante o mês de maio e recolheu 629 respostas válidas. Mais de metade (52%) dos que responderam são homens, 96 por cento dizem-se católico(a)s, sendo os restantes “de outra confissão”, “crentes sem religião” e “não crentes”. Entre os católicos, a esmagadora maioria (88%) são leigos e leigas, 3,5 por cento religioso(a)s e 8,5 por cento padres; a maioria vai à missa (63,62%) todos os domingos a que acrescem os 20,10 por cento que a celebram, ou nela participam, todos os dias. Além de serem mais “praticantes” do que a maioria da população que se diz católica, os participantes neste inquérito são também muito mais ativos nas suas comunidades do que a generalidade dos católicos: 75 por cento está envolvido em algum movimento ou estrutura católica, ou desempenha algum serviço na comunidade em que se integra.

A amostra obtida, que não permite extrapolações fidedignas para todo o universo por não ter base científica e ser de autorresposta voluntária, conta com católicos e católicas de todas as 20 dioceses do país, à exceção das de Portalegre-Castelo Branco e de Viana do Castelo. Naturalmente, Lisboa (43,8%) e Porto (16,5%), seguidas de Braga (7,0%), Coimbra (6,4%) e Setúbal (4,6%) são as mais representadas. A média de idade dos participantes é de 63 anos, superior em oito anos à média de idade da população portuguesa maior de 18 anos (55 anos).

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