Mais adultos na dor e mais crianças na alegria

| 12 Mai 19

Como o trabalho voluntário em ambientes de incerteza e risco nos pode levar a viver valores que defendemos, mas que dificilmente concretizamos.

 

Aqui começou um pouco da minha vida” – escrevia eu num diário de adolescente a 16 de janeiro de 1973, com os meus 16 anos.

Em resposta a um desafio inesperado (mas que me encheu a alma) de uma cunhada que sempre trabalhou como assistente social em bairros ditos “sociais” (ou seja, onde vivem pessoas mais pobres) integrei uma equipa de sete jovens que, como eu, iriam animar atividades de tempos livres num pavilhão à entrada do Bairro do Relógio, perto do aeroporto de Lisboa.

Não era a primeira vez que me desafiavam a trabalhar/dar o meu tempo em bairros sociais. Mas esta proposta trazia consigo maior exigência de continuidade junto a uma comunidade, longe do meu bairro, onde viviam sobretudo pobres que eu não conhecia. Saberia eu estar à altura? Que hábitos teriam? Passavam mesmo fome? Teriam possibilidade de se lavarem? Que cheiro teriam? Trabalhavam ou roubavam?

Escrevi no diário: “Aqui a palavra trabalhar tem um sentido diferente, pois na verdade fui aprender, e aprender a viver com todas aquelas pessoas diferentes pela sua posição, modos de viver e ser.”

Que íamos fazer com estas crianças?

Numa das primeiras reuniões de preparação registo no diário:

O trabalho é das 14h30 às 16h30, às terças e quintas no atelier, e fora disso é todo o tempo nós possamos dar.” Abriam-se, assim, duas possibilidades de relação com as crianças: uma, durante as atividades; outra, o tempo dado – essa imensa possibilidade de criar relações de proximidade. Criar laços!

Comecemos pela primeira. Que tipo de atividades fazíamos com as crianças no atelier?

“(…) dia 16, ao chegar lá já estavam todos sentados com os miúdos. Eram giros, com um ar malandro, e eu sentei-me também, um pouco a experimentar os olhares da miudagem…

Havia de gostar de trabalhar com eles… foi tudo tão depressa que quase não vi passar as horas que estivemos juntos… E na despedida lá iam eles a dizer adeus, aos pulos e pontapés uns aos outros (…)

Não são como as outras crianças, são mais adultos na dor e mais crianças na alegria.

(…) Fui para casa com um desejo enorme de continuar, foi também talvez um calor que senti no frio que apanhei, é algo profundamente orgulhoso que sentimos.

 (…) Nos primeiros dias deram-se muitos gritos e muitas correrias, mas no final lá se acalmaram a desenhar livremente ou a jogar ao Dominó (…) As actividades de pintura e plasticinas continuavam, mas começámos a trazer jogos de casa e os miúdos ficavam encantados com todas as novidades. Um dia, como eu levava uma grande caixa com jogos, toda a miudagem saltou à minha volta.

(…) Com o andar dos dias as crianças já tinham dificuldade em largar os jogos e colocavam com orgulho os seus desenhos nas paredes. Construímos proximidades de relação que nos tornavam mais responsáveis por cada criança.”

Percebi mais uma vez como as atividades artísticas podem facilitar a relação e criar um ambiente de maior felicidade.

E ao terminarmos as atividades do atelier, a despedida pedia mais…

“(…) no fim, ao sairmos tive uma enorme vontade de ir dar uma volta com eles, mas a coragem e a decisão são difíceis de agarrar com firmeza e lá deixei ir os miúdos pela rua fora a rir para não se lembrarem logo da tristeza da barraca”.

Um outro desafio me esperava: “A prova dos caracóis”. Mas esse fica para uma próxima crónica.

 

10 de maio de 2019

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