“Hoje, os palestinianos em Gaza enfrentam uma escolha impossível: morrer à fome ou arriscar-se a ser baleados enquanto tentam desesperadamente chegar à comida para alimentar as suas famílias”, e é contra isso que se manifestam mais de 170 organizações não governamentais (ONG) em todo o mundo, incluindo a Amnistia Internacional e a Cáritas Internationalis, numa declaração conjunta publicada esta terça-feira, 1 de julho.
Assinalando que “as semanas que se seguiram ao lançamento do esquema de distribuição israelita foram das mais mortíferas e violentas desde outubro de 2023”, com mais de 500 palestinianos mortos e quase 4.000 feridos “apenas por tentarem aceder ou distribuir alimentos”, as perto de 200 ONG denunciam o modo de funcionamento deste “esquema mortal de distribuição israelita (incluindo a chamada Fundação Humanitária de Gaza) na Faixa de Gaza”.
“Sob o novo esquema do governo israelita, civis famintos e enfraquecidos são forçados a caminhar durante horas por terrenos perigosos e zonas de conflito ativo, apenas para enfrentar uma corrida violenta e caótica para chegar a locais de distribuição cercados e militarizados com um único ponto de entrada. Lá, milhares são libertados em recintos caóticos para lutar por suprimentos alimentares limitados”, detalham. “Essas áreas tornaram-se locais de repetidos massacres, em flagrante desrespeito pelo direito internacional humanitário”, prossegue a declaração, sublinhando que “crianças órfãs e cuidadores estão entre os mortos” e que há “crianças feridas em mais de metade dos ataques a civis nesses locais”.
Como se tal não bastasse, “com o sistema de saúde de Gaza em ruínas, muitos dos baleados são deixados a sangrar sozinhos, fora do alcance das ambulâncias e sem acesso a cuidados médicos que poderiam salvar as suas vidas”, assinalam ainda os signatários da declaração.
Para as mais de 170 ONG, não restam dúvidas de que “isto não é uma resposta humanitária”. E apontam que também a Associação Sphere, que estabelece padrões mínimos para a qualidade da ajuda humanitária, alertou que a abordagem da Fundação Humanitária de Gaza não cumpre os padrões e princípios humanitários fundamentais.
“Esta normalização do sofrimento não pode ser permitida”, defendem, apelando a todos os Estados terceiros para que “tomem medidas concretas para pôr fim ao cerco sufocante e respeitem o direito dos civis em Gaza a acederem em segurança à ajuda e a receberem proteção”, e “exortem os doadores a não financiarem programas de ajuda militarizados que violam o direito internacional, não respeitam os princípios humanitários, agravam os danos e correm o risco de ser cúmplices de atrocidades”.
Na declaração, que continua aberta à subscrição por parte de outras organizações, pede-se ainda o apoio à restauração de um mecanismo de coordenação unificado e liderado pela ONU — baseado no direito internacional humanitário e inclusivo da UNRWA, da sociedade civil palestina e da comunidade humanitária em geral — para atender às necessidades da população “.
O texto termina com renovados apelos “por um cessar-fogo imediato e sustentado, pela libertação de todos os reféns e prisioneiros detidos arbitrariamente, pelo acesso humanitário total e em grande escala e pelo fim da impunidade generalizada que permite essas atrocidades e nega aos palestinianos a sua dignidade básica”.










