Começou nesta quarta-feira, 24 de setembro, o ano 5786 para os judeus. E mais de 35 mil fizeram questão de celebrar o Rosh Hashaná peregrinando a Uman, uma pequena cidade no centro da Ucrânia onde está sepultado o rabi e místico do movimento hassídico Nachman de Bratslav. Vindos de várias partes do mundo, mas sobretudo de Israel, todos enfrentaram o risco de, já na Ucrânia, serem apanhados no meio de um ataque russo. Mas alguns enfrentaram também o risco de nem sequer lhes ser permitido viajar: foi o caso de várias dezenas de jovens desertores ultraortodoxos, detidos nos últimos dias no aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv.
A jornada nunca poderia ser simples. Com o espaço aéreo da Ucrânia fechado devido à guerra e à lei marcial em vigor, e com as estradas frequentemente interrompidas por greves, os peregrinos chegam por rotas tortuosas desde a Polónia, Hungria e Moldávia. Uman fica a cerca de 300 quilómetros da linha da frente do conflito em curso e não foi poupada de ataques de mísseis e drones russos no passado.
Ainda assim, o risco pouco desencoraja os fiéis. “Acho que somos os únicos turistas na Ucrânia neste momento”, disse Ran Frank, um homem de 35 anos de Jerusalém, ao The Kyiv Post. “Mas sinto menos medo aqui do que em Israel. A Ucrânia é mais espraiada – parece mais segura”, assinalou.
Nas últimas semanas, os partidos ultraortodoxos Shas e Judaísmo Unido da Torá (UTJ) pressionaram o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e as autoridades militares para permitir que os estudantes da yeshiva (escola talmúdica), que recusam alistar-se no serviço militar, participassem nesta peregrinação anual sem medo de serem presos.
No entanto, a Procuradoria-Geral da República afirmou que o Governo não tinha o direito de criar um mecanismo para permitir que desertores ultraortodoxos deixassem Israel, e afirmou que seria ilegal que estes o fizessem, mesmo que o destino fosse Uman. Aqueles que fogem do recrutamento continuaram, assim, totalmente proibidos de sair do país, explica o jornal The Times of Israel.
Isso levou a um aumento das prisões no aeroporto, com o grupo extremista Facção Jerusalém a denunciar no domingo passado que cerca de 100 desertores estavam detidos numa prisão militar, tendo alguns sido entretanto libertados.
Para aqueles que conseguiram chegar a Uman, a peregrinação significou alojamentos lotados e despesas elevadas. Ainda assim, o número dos que o fazem anualmente é significativo. Embora a peregrinação tenha sido praticamente interrompida em 2020 devido à pandemia mundial de covid-19, recomeçou em força no ano seguinte e tem continuado a crescer, mesmo depois da invasão russa da Ucrânia em 2022.
De acordo com dados do Instituto Israelita para a Democracia, citados pelo The Times of Israel, cerca de 8% de todos os judeus israelitas com mais de 18 anos já visitaram Uman. Dos que visitaram, 23,5% são ultraortodoxos, 20% são religiosos nacionais, 15% são religiosos tradicionais, 28% são tradicionais não religiosos e 13,5% são seculares.
Nascido em 1772, no local onde hoje se situa a cidade ucraniana de Medzhybizh, o rabi Nachman de Braslav tornou-se conhecido pelas suas criativas parábolas inspiradas em contos populares do Leste Europeu. Bisneto de Baal Shem Tov, fundador do judaísmo hassídico, Nachman acreditava que todos os judeus tinham o potencial de se tornarem tzaddik (pessoas santas e justas) e enfatizava a importância de viver com fé, simplicidade e alegria.
Para os peregrinos, celebrar o Rosh Hashaná em Uman, o local onde ele faleceu aos 38 anos, é mais que um ritual, sustenta uma reportagem da agência IntelliNews. É “uma declaração de fé diante do medo, uma jornada a uma cidade que se tornou um lar espiritual apesar da guerra”. E assim, ao cair da noite e ao soar das primeiras orações do Ano Novo, nesta terça-feira, as ruas de Uman transformaram-se num coro de devoção, lembrando ao mundo que, mesmo no meio do(s) conflito(s), a tradição e a esperança perduram.










