Mais de 900 mortos no Mediterrâneo desde o início do ano

| 1 Jul 19 | Destaques, Direitos Humanos, Newsletter, Sociedade, Últimas

Migrantes à deriva no Mediterrâneo, resgatados por equipas da ONG Jugend Rettet. Foto © Rita Gaspar (ver https://ppl.pt/causas/miguel?fbclid=IwAR2piZW9oEA08TDXzq1OFOZeRntruk3U8HkuXqgqP1p54RSIgYYLn65GKhM)

 

Morreram pelo menos 904 pessoas a tentar atravessar o mar Mediterrâneo, desde o início do ano até há poucos dias. O número foi avançado pela Comunidade de Sant’Egídio, no domingo, durante uma eucaristia celebrada numa igreja de Barcelona, que contou com a presença de Marco Impaggliazzo, presidente daquele movimento católico com sede em Roma.

São números que “assustam”, “tristes e alarmantes”, disse ao 7MARGENS André Costa Jorge, director do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS, da sigla inglesa). “Sobretudo porque, “por cada ser humano que ali morre, morre um pouco da nossa esperança”.

Citado pelo Religión Digital, o presidente da Comunidade de Sant’Egídio afirmou, na Basílica dos Santos Justus e Pastor, na capital catalã, que “as mortes no mar não são uma estatística, mas uma tragédia da humanidade face à qual não podemos ser indiferentes”.

A Comunidade apela a que se abram novos corredores humanitários – um dos trabalhos em que o grupo se tem empenhado – que permitam uma “via legal e segura para a chegada dos imigrantes à Europa”.

O bispo auxiliar de Barcelona, Antoni Vadell, afirmou na ocasião, citado pela mesma fonte, que “uma sociedade que já não é capaz de cuidar de quem é mais vulnerável torna-se desumana”.

Durante a celebração, em que estiveram presentes migrantes que conseguiram alcançar a Europa através destas rotas migratórias, foram pronunciados os nomes de alguns daqueles que morreram no último ano na tentativa de chegar ao continente europeu. Na mesma ocasião, foi lida a oração Morrer de esperança, também proclamada em Roma e outras cidades europeias para “não deixar cair no esquecimento a esperança e sofrimento de quem busca protecção na Europa”.

 

“Grande desilusão, tristeza e frustração”

Apesar de ter diminuído o número de chegadas às costas europeias, estes desfechos têm feito do Mediterrâneo um meio “mais mortal” e um “cemitério”, que reflecte “a incapacidade da Europa” em lidar com a situação, comenta André Costa Jorge. “Não podemos estar apenas sujeitos a estes picos emocionais.”

O mesmo responsável realça “o desinvestimento em acções de salvamento e em sistemas de solidariedade” por parte dos países europeus, nos últimos anos. “A Europa tem de ter uma acção concertada e de agir de forma coesa”, sustenta, acrescentando a necessidade de “uma acção mais proactiva e menos defensiva” por parte dos países europeus,querompa com a “falta de ambição governativa” em lidar com estes problemas numa perspectiva de médio e longo prazo e não apenas no imediato.

André Costa Jorge indica que Portugal acolheu até agora cerca de 700 dos 1.010 migrantes previstos noacordo celebrado no ano passado no âmbito do programa de reinstalação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Os expatriados estavam sob protecção do ACNUR na Turquia e no Egipto e foram acolhidos em 92 instituições. Está a decorrer em Portugal uma campanha da Plataforma de Apoio aos Refugiados para angariar doações e entidades que apoiem a instalação destas pessoas: “Apelo a que cada um de nós faça a sua parte, para não sermos todos co-responsáveis pelo que se passa no Mediterrâneo”, diz o responsável do JRS.

Miguel Duarte, o jovem português activista da ONG alemã Jugend Rettet, que foi acusado de auxílio à imigração ilegal em Itália, recebe este número com “uma grande tristeza”. “Significa que podíamos estar a fazer alguma coisa e não estamos. Se morressem mil pessoas por causa de um desastre natural, isso seria triste e inevitável, mas aqui sabíamos que isto ia acontecer e deixámos que acontecesse e ainda criminalizamos quem tenta ajudar.”

“Olho para isto com uma grande desilusão, tristeza e frustração”, diz o activista ao 7MARGENS. “Desilusão com os nossos representantes, com os estados europeus e não só com a Itália, por não estarem a fazer o que deviam fazer”, confessa.

(Texto com o contributo de António Marujo)

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