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O Papa Francisco e o Grande Imã de Al-Azhar após a assinatura da Declaração de Abu Dhabi, 4 fevereiro 2019 Foto © Vatican Media
O Papa Francisco e o Grande Imã de Al-Azhar beijam-se após a assinatura da Declaração de Abu Dhabi, a 4 de fevereiro de 2019 Foto © Vatican Media

As difíceis decisões do conclave (9)

Mais do que a tolerância, Francisco ensinou o amor. E agora, seremos finalmente “fratelli tutti”?

| 07/05/2025

Na antevisão do conclave, o 7MARGENS publica uma curta série de textos sobre aspetos fundamentais do pontificado de Francisco e de antevisão do que podem ser temas decisivos do próximo. Mais do que qualquer rótulo com que o queiram carimbar, o próximo Papa ficará conhecido pelo destino que der aos caminhos abertos pelo seu predecessor. E, como se perceberá ao ler estes textos, o ministério do sucessor de Francisco não se apresenta fácil. Sucede a um Papa que foi buscar à tradição e à fé a coragem para “não deixar pedra sobre pedra”. Hoje abordamos o legado de Francisco no capítulo do diálogo ecuménico e inter-religioso.

 

Tudo começou há 80 anos, mais coisa menos coisa. Quando Jorge brincava, despreocupado, nas ruas do bairro de Flores, em Buenos Aires. Ali, tinha amigos judeus, a quem os locais chamavam “os russos”, pois muitos vinham da zona de Odessa onde vivia uma numerosa comunidade judaica, e também amigos muçulmanos, que ele tratava por “turcos”, porque na sua maioria tinham desembarcado na Argentina com passaportes do antigo Império Otomano. “O turco está? Vem também o russo? No bairro, na minha idade mais verde, as diferenças eram a normalidade, e eram respeitadas”, viria a escrever o mesmo Jorge, já como Papa Francisco e perto de completar 90 anos, na sua autobiografia, Esperança.

“O bairro era um microcosmo complexo, multiétnico, multireligioso e multicultural”, continuava. Um espelho do mundo em que vivemos, poderia dizer-se. Mas numa versão quente e luminosa, sem as sombras dos extremismos, fundamentalismos e instrumentalizações da religião que gelam hoje tantas relações.

Para Jorge, as diferenças continuaram sempre a ser “a normalidade” e nunca deixou de as respeitar e valorizar. E se é verdade que, depois de ter sido eleito Papa, não voltou mais à Argentina, também é verdade que levou consigo para o Vaticano e para onde quer que fosse esta certeza enraizada na infância passada nas ruas de Flores: a certeza de que, por mais diferentes que sejamos, somos todos irmãos.

Todos irmãos, ou “fratelli tutti”, como escreveu o Santo de quem Jorge tomou o nome quando foi eleito Papa. Todos irmãos, ou Fratelli tutti, como fez questão de intitular aquela que foi uma das encíclicas mais marcantes do seu pontificado. E na qual começa por recordar um episódio que mostra como também o coração daquele Santo não conhecia fronteiras e sabia da importância de aproximar diferentes e de “superar as distâncias  de proveniência, nacionalidade, cor ou religião”: em plena Quinta Cruzada, em junho de 1219, Francisco de Assis partiu de barco com alguns irmãos e viajou até ao porto de São João do Acre, no norte da Palestina (atual cidade israelita de Akka) com o objetivo de visitar o sultão do Egito, Malik al Kamil, e restabelecer a paz. Também o mundo de então estava “cheio de torrões de vigia e muralhas defensivas”. Mas São Francisco percebeu que não fazia sentido uma “guerra dialética impondo doutrinas”, porque “Deus é amor, e quem permanece no amor, permanece em Deus” (1 Jo 4, 16), por isso “comunicava o amor de Deus”. E praticava-o.

 

“Não há alternativa: ou construímos juntos o futuro ou não haverá futuro”

A Casa da Família Abraâmica é um dos frutos do diálogo inter-religioso promovido por Francisco. Foto Abrahamic Family House

A Casa da Família Abraâmica, em Abu Dhabi, é um dos frutos concretos do diálogo inter-religioso promovido por Francisco. Foto © Abrahamic Family House

Assim fez também o Papa que lhe tomou o nome. De resto, outra das suas grandes inspirações para escrever a encíclica Fratelli Tutti foi um dos principais clérigos muçulmanos do mundo, o imã Ahmad Al-Tayyeb, revelou. Al-Tayyeb é o grande imã da Mesquita de Al-Azhar e reitor da universidade com o mesmo nome, no Cairo, capital do Egito, e Francisco construiu com ele uma forte – e para muitos improvável – amizade.

Foi juntamente com Al-Tayyeb que escreveu o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da convivência comum, que ambos assinaram a 4 de fevereiro de 2019, aquando da sua ida aos Emirados Árabes Unidos, naquela que foi a primeira visita papal à Península Arábica, berço do Islão. “A fé – diz o prefácio do documento – leva o crente a ver no outro um irmão a ser apoiado e amado”. E por isso o texto faz um convite a “todas as pessoas que trazem no coração a fé em Deus e a fé na fraternidade humana”, para que se unam e trabalhem em conjunto, “de modo que tal documento se torne para as novas gerações um guia rumo à cultura do respeito mútuo, na compreensão da grande graça divina que torna irmãos todos os seres humanos”.

Durante aquele encontro com Al-Tayebb, o Papa foi perentório: “Não há alternativa: ou construímos juntos o futuro ou não haverá futuro. As religiões, em particular, não podem renunciar à tarefa urgente de construir pontes entre os povos e as culturas. Chegou o momento das religiões trabalharem mais ativamente, com coragem e audácia, sem fingimentos, para ajudar a família humana a amadurecer a capacidade de reconciliação, a visão de esperança e os caminhos concretos para a paz”. O facto de terem escrito, assinado, e colocado – eles próprios – em prática, aquele documento foi como uma pedra angular nessa construção.

E porque as imagens valem muitas vezes mais do que mil palavras, a fotografia do momento em que ambos se abraçaram e beijaram, após a assinatura do texto, correu o mundo. Muitos salientaram que a Declaração abria novos horizontes não só para o diálogo entre cristãos e muçulmanos. Para o Ministro do Exterior dos Emirados Árabes, Sheikh Abdallah Ben Zayed Al Nahyan, o encontro do Papa com o Grande Imã de Al-Azhar marcou uma nova fase nas “relações entre religiões”.

De facto, o impacto da declaração de Abu Dhabi foi tal que levou à criação, em agosto desse mesmo ano, na capital dos Emirados Árabes, do Comité Superior da Fraternidade Humana para a sua implementação, composto por membros cristãos, muçulmanos e judeus. Alguns meses mais tarde, em dezembro, elementos deste comité, acompanhados pelo cardeal Miguel Ángel Ayuso Guixot, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, e pelo juiz Muhammad Abd al-Salam, encontraram-se em Nova Iorque com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. Entregaram-lhe uma mensagem do Papa Francisco e do Grande Imã de Al-Azhar na qual se propunha declarar o dia 4 de fevereiro Dia Mundial da Fraternidade Humana, iniciativa que não podia ter sido melhor recebida. O Comité Superior da Fraternidade Humana também orientou a construção da Casa da Família Abraâmica em Abu Dhabi, espaço onde coexistem uma igreja, uma mesquita e uma sinagoga, inaugurado em 2023.

Este é apenas um exemplo de que, mais do que fomentar o diálogo e a tolerância, ou o intercâmbio intelectual e teológico, Francisco foi um verdadeiro protagonista da “cultura do encontro” de que tanto falava, através de gestos de solidariedade concretos, relacionamentos pessoais e visitas frequentes a países onde os católicos são uma minoria. Como em 2021, quando visitou regiões do Iraque outrora controladas pelo Estado Islâmico, naquela que foi a primeira visita de um Papa ao país. Numa praça em Mosul, onde há quatro igrejas, rezou pelas vítimas do conflito e pediu uma coexistência harmoniosa entre cristãos e muçulmanos. Convidou os cristãos deslocados a regressarem às suas casas e elogiou os jovens voluntários iraquianos – cristãos e muçulmanos – que trabalham lado a lado para reconstruir as igrejas e mesquitas destruídas pelo Estado Islâmico. Além disso, convocou um encontro inter-religioso em Ur, local de nascimento de Abraão, considerado um profeta por judeus, cristãos e muçulmanos.

Cláudio Epelman, do Congresso Judaico Mundial, escrevia há poucos dias que teve o “profundo privilégio” de se encontrar com o Papa Francisco em nome da comunidade judaica global. “As nossas conversas foram pessoais, significativas e sempre pautadas pelo respeito mútuo. Ele conheceu os meus filhos. Ele acolheu-me não apenas como representante de uma instituição judaica, mas como amigo. Nele, encontramos um verdadeiro parceiro — alguém que compreendia a história judaica e a honrava”, sublinhou Epelman.

E destacou ainda que, mesmo nos últimos anos, com o aumento do antissemitismo em todo o mundo, “o Papa Francisco nunca vacilou. Ele condenou o ódio em todas as suas formas e instou líderes políticos e religiosos a protegerem a dignidade de cada ser humano. Ele lembrou ao mundo que ‘ser antissemita é ser anticristão’. Essas palavras não eram apenas simbólicas — eram um escudo para inúmeras comunidades judaicas”, concluiu.

 

“Acreditamos na comunhão entre os cristãos?”

Papa Francisco e Patriarca Ecuménico Bartolomeu, durante a peregrinação apostólica a Jerusalém, em maio de 2014. Foto Nikolaos Manginas

Papa Francisco e Patriarca Ecuménico Bartolomeu, durante a peregrinação apostólica a Jerusalém, em maio de 2014. Foto © Nikolaos Manginas

É curioso e muito significativo que outra das grandes encíclicas do Papa Francisco, Laudato Si’ – que fará dez anos no próximo dia 24 de maio – também tenha sido inspirada num líder religioso contemporâneo: desta feita o Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I.

Através dela, Francisco reconheceu que aprendeu muito com o líder espiritual dos ortodoxos sobre a importância da conversão ecológica e de não separar o modo como tratamos a Casa Comum do modo como nos relacionamos uns com os outros. E com ela conseguiu a proeza de unir em torno desta ecologia integral (quase) todos os cristãos, e não só.

O economista norte-americano Herman Daly – falecido em 2022, que se assumia como cristão protestante – escreveu, em 2017, que esta encíclica “unificou as principais divisões do cristianismo, pelo menos no reconhecimento fundamental de que temos negligenciado vergonhosamente o dever de cuidar da Terra e de partilhar, de forma mais equitativa com o outro, com o futuro e com as demais criaturas, os recursos que ela oferece. Muitos ateus concordam com isso também, ao mesmo tempo que dizem que esta concordância nada deve à tradição judaico-cristã. Historicamente isso é questionável, mas, mesmo assim, o apoio deles é bem-vindo”.

Já em 2021, foi inédito o gesto que tiveram o Papa Francisco, o patriarca ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I, e o então arcebispo de Cantuária, Justin Welby, ao assinarem uma mensagem conjunta para a proteção da criação. “Juntos, como comunidades, igrejas, cidades e nações, devemos mudar de rumo e descobrir novos caminhos de trabalhar juntos para abater as barreiras tradicionais entre os povos, para parar de competir por recursos e começar a colaborar”, escreveram.

Foi também com Bartolomeu I que Francisco conversou, inúmeras vezes, sobre o sonho de uma data comum para a celebração da Páscoa, fazendo eco do desejo do Papa Paulo VI de uma data unificada para aquela que é a festa mais importante do cristianismo.

E com Bartolomeu I planeava encontrar-se muito em breve, na Turquia, para celebrarem juntos os 1.700 anos do Primeiro Concílio Ecuménico de Niceia. Foi nesse concílio que ficou aprovado, por unanimidade, o Credo que muitos cristãos ainda hoje recitam todos os domingos durante a missa. “A recordação deste importante acontecimento fortalecerá certamente os laços já existentes e encorajará todas as Igrejas a um testemunho renovado no mundo de hoje. A fraternidade vivida e o testemunho dado pelos cristãos serão também uma mensagem para o nosso mundo atormentado pela guerra e pela violência”, disse Francisco no final do ano passado.

“Esperamos em breve poder regressar à comunhão e poder saudar o bispo de Roma como nosso irmão mais velho”, tinha afirmado por seu lado o Patriarca ortodoxo Bartolomeu perante os membros do Conselho Presbiteral do Patriarcado de Lisboa, quando esteve em Portugal para participar, em maio de 2024, no Fórum Global do Diálogo promovido pelo Kaiciid – Centro Internacional de Diálogo.  Bartolomeu recordou então os encontros que teve com o Papa Francisco, a quem se dirigia muitas vezes como “amado irmão”: “encontrámo-nos doze vezes em Roma, Constantinopla, Lesbos, Jerusalém.”

Coincidência ou não, Francisco faleceu no dia a seguir ao Domingo de Páscoa, num ano em que os astros se alinharam para que esta festividade fosse celebrada na mesma data por todos os cristãos. Ele que tinha garantido, no passado mês de janeiro, que a Igreja Católica estava disposta a aceitar a data que todos decidissem, e que questionara, em tom provocatório: “Acreditamos na comunhão entre os cristãos?”.

Numa altura em que estamos prestes a conhecer o novo Papa, é legítima e importante outra questão: será que ele acredita nessa comunhão? Ou continuarão os cristãos, por muitos mais anos, a ter de perguntar uns aos outros: “E o teu Cristo, quando é que ressuscita?”.

 

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O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

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