A dignidade dos fragilizados (Três histórias – 2)

Mais duas histórias de um lar

| 27 Dez 2021

Foto de Arquivo, @ Direitos Reservados

 

[São histórias verdadeiras, como as anteriores. A segunda é uma das histórias alegres que, como vos disse, também há nos lares.]

 

– Era enfermeira, D. Maria Luísa? Vejo que lava muito bem as mãos, como uma profissional.

– Só aprendi a lavar bem as mãos agora com a covid. Por acaso, quando era rapariga nova, queria ser enfermeira, mas nunca cheguei a ser. Com 17 anos, comecei a trabalhar num hospital, assim só como ajudante. Tinha um horário das 7 às 12 e das 13 às 17, todos os dias. Limpava, lavava, ia buscar coisas, fazia o que me pediam. Era para ganhar prática, para depois começar a estudar para enfermeira.

E depois, um dia, internaram um rapaz da minha idade. Estava muito doente. Não sei o que é que ele tinha. Nunca tive de tratar dele, nem de lhe dar nada, eram só as enfermeiras que tratavam dele. Mas passava às vezes pela cama dele e parava e ficava a olhar para ele. Acho que ele nem sequer me via, nem via ninguém, de tão mal que estava, coitado. Vi-o morrer. E a morte dele perturbou-me tanto que deixei o trabalho no hospital. E decidi que já não queria ser enfermeira.

______________

– Tem um minutinho para mim, D. Teresa?

– Claro, D. Amélia! Diga lá.

A D. Teresa é a diretora do lar e a D. Amélia é uma das pessoas que lá vive. Está lá a viver há dois anos, mas tem uma longa relação com o lar, que começou muito antes de a D. Amélia ser a diretora. Primeiro, trabalhou lá como enfermeira os últimos doze anos da sua carreira. Quando se reformou, ajudava no centro de dia dois dias por semana, como voluntária. Depois, passou ela própria a ser utente do centro de dia. Finalmente, quando a saúde se deteriorou ainda mais, foi viver para o lar.

– Estive a falar com a minha filha e com o meu filho, que são os meus herdeiros naturais. Já os pus a par da minha decisão e eles acham muito bem: decidi dar ao lar a minha herança. Não é muito, não pense, mas ajuda. Para atividades extras que não estejam cobertas pelo orçamento normal. Sei lá, festas e espetáculos no lar, passeios, coisas assim. Mas, antes disso, queria já dar um dinheiro que eu tenho no banco e que não me faz falta para fazer uma festa este verão. Um almoço e depois um conjunto a tocar. Gostava que se servisse leitão. O que é que acha?

 

Texto reproduzido do blogue Travessa do Fala-Só, de Vítor Santos Lindegaard; o 7MARGENS agradece ao autor a cedência para publicação.

 

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