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[Entre Margens]

Mais males que Bem ou glorificação das desgraças?

| 30/06/2026

 

Vivemos em tempo de guerras e males de toda a espécie que afligem as sociedades mundiais. E afligem mais por os meios de comunicação os engrandecerem mais que o Bem. Há, ainda, males ocultos nos subterrâneos dos segredos do grande icebergue monstruoso do deep state, tão falado. Há dias, falou-se disso, num encontro à volta de problemas sociais, de saúde, familiares, e de muitos outros, que cada um dos participantes ia apresentando; inesperadamente, um dos presentes veio com a questão: se seriam mais os males ou as coisas boas desta época em que vivemos? As primeiras respostas foram categóricas: são mais os males. E aduziam muitos exemplos: guerras, injustiças, corrupção, redes de violências horrorosas, tráfico de pessoas. E davam exemplos: mulheres mortas em família, pessoas sem abrigo a viver nas ruas, os assaltos, as guerras, a fome… E, ainda, omitiam os escândalos ligados ao caso Epstein que há cerca de cinquenta anos oprimiram mulheres, crianças e mancharam pessoas de quase todas as classes sociais no mundo inteiro, em especial dos endinheirados. E parece que ainda não se sabe metade destes subterrâneos horrendos do nosso mundo.

© UNICEFOleksii Filippov Civis passam por um edifício danificado pela guerra na Ucrânia.

Foto © Oleksii Filippov | UNICEF: Civis passam por um edifício danificado pela guerra na Ucrânia.

No encontro, um dos presentes começou a discordar e a aduzir que também se fazem muitas coisas boas. Mas nem por isso os presentes mudaram. Os males no mundo era mais, diziam vários.

Porque será, então, que há tendência para dizer que acontecem mais males no mundo que coisas boas? O mundo vai bastante mal, mas serão mais as desgraças que as coisas boas que se fazem? Falar de desgraças e males será tendência dos jornais, televisão, rádio, redes sociais, romances, filmes para conseguir vender e interessar mais os leitores e espetadores? Outros talvez digam que já alguns filósofos fizeram o mesmo; tentaram argumentar que tantos males eram razão suficiente para negarem a existência de Deus. Um Deus que deixava sofrer tanto as pessoas não podia existir porque não seria bom ou não tinha poder para evitar esses males; e um Deus sem poder ou sem bondade não podia existir e, por isso, eles só podiam ser ateus. E assim, alguns passaram a aceitar a distopia (sociedade desordenada) da morte de Deus e de um mundo de maldade.

É certo que há muitas injustiças, doenças, crimes, violências, assassínios, assaltos, etc. Alguns dirão, contudo, que os males não serão mais que as coisas boas. Será uma evidência que se publicam mais investigações e estatísticas dos males que das coisas boas? A matemática não concorda com a conclusão generalizada que alguns tiram: mais divulgados nas notícias e publicações logo, são em maior número neste mundo em que vivemos ou nesta Europa, ou neste Portugal ou nesta ilha da Madeira, que as coisas boas. A matemática perguntará: e vocês já contaram ou calcularam as coisas boas que se fazem e as compararam com os males? Deixam-se levar por estatísticas falsas de taberna e de conversas de praia e esplanadas entre comadres e amigalhaços, e de encontros casuais nas ruas à volta de títulos de jornais e revistas de noticiários sensacionais. As pessoas ouvem meia dúzia de violências, homicídios e desgraças familiares no país e esquecem os milhões de famílias de um país que vivem em paz, em boa colaboração e união. E desses milhões os jornais raramente falam e quase só a propósito do que corre mal. As notícias de eventos de bem não vendem tanto e lá vem o princípio: o que não é publicado não conta, não existe. Há dezenas de guerras e os jornais falam de algumas todos os dias e doutros males que vão acontecendo, mas pouco ou nada do muito que corre bem apesar dos males, guerras, injustiças, corrupções e crimes horrorosos. Mas não falam da paz que existe em dezenas de outros países, das famílias modelares, nem das pessoas bondosas e dos santos atuais, vivos.

Vídeo do Papa, Violência sobre mulheres, Hermes Mangialardo

“Sim, há muita violência familiar e mulheres, crianças e adultos suas vítimas. Mas pergunta-se se são mais esses males e essas vítimas ou são mais as pessoas que não são vítimas de guerras?” Foto: retirada do vídeo do Papa, Fevereiro 2021, sobre violência sobre mulheres. Ilustração de Hermes Mangialardo, reproduzida do vídeo.

Sim, há muita violência familiar e mulheres, crianças e adultos suas vítimas. Mas pergunta-se se são mais esses males e essas vítimas ou são mais as pessoas que não são vítimas de guerras? São milhares (milhões) que são mortos nas guerras, no tráfico de armas, de drogas de compra e venda de pessoas e crianças, de escravização conhecidas e subterrâneas. É uma tristeza lamentável a prevenir por iniciativas de solidariedade e bondade. Contudo, mais milhões que não são assassinados, nem vítimas dessas barbaridades porque a maior parte da população mundial pratica boas ações.

Com a Páscoa, fomos convidados a celebrar o Pai Bom que entregou o seu Filho como fármaco (pharmakon) para os pecadores e criminosos que abandonam a cegueira e se arrependem… Convidaria os leitores a pensar no bem praticado por alguns santos de hoje, canonizados ou não, quando ouvirem divulgar e engrandecer, por semanas e meses crimes de violência de alguns criminosos de fama. Bem sabemos que um ou poucos crimes já é demais, mas não esqueçamos os muitos que fazem o bem.

 

Aires Gameiro é padre da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, licenciado em Psicologia e doutorado em Teologia Pastoral da Saúde. Foi director da revista Hospitalidade e de duas Casas de Saúde do Instituto S. João de Deus; é membro honorário da Academia Portuguesa da História. 

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