A Secretaria Geral do Sínodo acaba de publicar os dois primeiros relatórios finais dos grupos de estudo instituídos pelo Papa Francisco na sequência da primeira sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade: o do grupo 3 sobre “A missão no ambiente digital” – que propõe a criação de um gabinete ou Comissão Pontifícia que acompanhe de perto esta nova área pastoral – e o do grupo 4, dedicado à “Revisão da Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis numa perspectiva sinodal missionária”, que pede uma maior participação feminina nos seminários.
Os 15 grupos de estudo tinham sido chamados a entregar o fruto da sua reflexão até ao final do mês de junho de 2025. Mas, com a morte do Papa Francisco, a eleição do Papa Leão XIV e a necessidade de alguns grupos disporem de mais tempo, o Papa Leão XIV decidiu alargar a data de entrega dos relatórios finais até 31 de dezembro de 2025. Determinou também que estes relatórios fossem tornados públicos, concretizando assim uma das características essenciais da Igreja sinodal: a transparência e a prestação de contas.
Os primeiros dois foram assim colocados online no sítio oficial do Sínodo esta terça-feira, 3 de fevereiro, para já apenas em inglês e italiano. Mas há uma síntese, disponível em várias línguas – incluindo o português – a acompanhar cada um deles. Os relatórios dos grupos restantes irão sendo publicados ao longo das próximas semanas, estando os próximos previstos para 10 de março.
O relatório do grupo 3 sugere, entre várias recomendações, a criação de uma Comissão Pontifícia para a Cultura Digital e as Novas Tecnologias — ou um gabinete ou departamento equivalente — que monitorize as questões emergentes no mundo digital, prepare documentos, orientações e manuais práticos, desenvolva estratégias de formação específicas para bispos, padres, religiosos e leigos, e apoie as conferências episcopais na incorporação da missão digital no planeamento pastoral.
O documento de 26 páginas alerta ainda para os riscos éticos associados às plataformas digitais, sublinhando que muitos participantes de uma consulta internacional realizada pelo grupo apontaram o uso indevido de plataformas online para polarização, manipulação ou disseminação de informações falsas como um desafio significativo para a vida eclesial e a evangelização e instando especificamente as conferências episcopais e as equipas diocesanas a reconhecerem estes riscos, até porque as principais plataformas “não são neutras”, com os sistemas algorítmicos a dificultarem muitas vezes a disseminação de mensagens positivas, enquanto amplificam conteúdo controverso ou divisivo.
Reconhecendo que os ambientes online podem intensificar posturas ideológicas, simplificar excessivamente debates complexos e incentivar confrontos que enfraquecem a comunhão eclesial, o grupo 3 alerta ainda no seu relatório que aqueles que se dedicam à evangelização digital devem estar atentos a possíveis “abusos de autoridade, desvios doutrinais, sensacionalismo e manipulação”.
O relatório também recomenda o fortalecimento do acompanhamento e da formação espiritual dos chamados “missionários digitais”, especificando que a segurança e o bem-estar digitais, juntamente com a literacia mediática, devem ser mais estruturalmente integrados na educação católica e na formação nos seminários.
Outra área de reflexão do relatório diz respeito à possibilidade de o conceito tradicional de jurisdição eclesial — normalmente associado a um território geográfico — necessitar de adaptação para abordar as realidades digitais “supraterritoriais”. Tal implica que os escritórios competentes do Vaticano estudem possíveis adaptações canónicas.
Exemplos reais de “boas práticas” em seminários

Abertura ano letivo 2022/23 no Seminário Conciliar de Braga. O relatório apela aos seminários para que incluam “mulheres bem preparadas e competentes como corresponsáveis em todos os níveis de formação”. Foto: Direitos reservados
O segundo relatório, de 24 páginas, centra-se em diretrizes para a formação de futuros padres. Mas não propõe uma revisão completa da Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis de 2016, um documento da Congregação para o Clero sobre a formação sacerdotal, que é considerado “ainda válido em seus princípios fundamentais”, mas pretende antes ser um documento orientador para a sua implementação em “chave sinodal missionária”.
Uma das principais orientações é a de que a formação sacerdotal seja imersa na vida da comunidade cristã, com a possibilidade de alternar a residência tradicional no seminário com períodos de vivência em comunidades paroquiais ou outros ambientes eclesiais, particularmente durante as fases mais avançadas da formação.
O relatório apela também aos seminários para que incluam “mulheres bem preparadas e competentes como corresponsáveis em todos os níveis de formação, inclusive dentro da equipa de formação, a fim de beneficiarem da sua indispensável contribuição para o discernimento vocacional e para o acompanhamento dos candidatos ao sacerdócio”.
A responsabilidade pela formação dos futuros sacerdotes, diz ainda o documento, “não pode ficar limitada ao bispo e àqueles diretamente encarregados da formação, mas requer a contribuição de todo o Povo de Deus”. O documento apela por isso aos bispos para que promovam a escuta e a interação entre pessoas de diferentes vocações na elaboração dos planos nacionais de formação, e afirma que o Povo de Deus deve ser “verdadeiramente ouvido” antes da concessão das Ordens sagradas.
O relatório lista 26 exemplos reais de “boas práticas” em seminários de diversas partes do mundo. É o caso de um seminário francês, em que um casal – uma conselheira matrimonial e seu marido aposentado, casados há 39 anos e com seis filhos – vive no seminário como parte integrante da sua equipa de formação, juntamente com seis padres. Ou de um seminário nigeriano que exige que os seminaristas realizem todos os trabalhos de manutenção e limpeza do edifício do seminário para “vivenciar a dignidade do trabalho humano”.
O relatório prevê que as propostas sejam gradualmente implementadas pelas conferências episcopais nos seus seminários no espaço de três anos, sugerindo que cada uma delas crie um grupo de trabalho próprio para acompanhar a “revisão sinodal da formação de padres”.
O cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo dos Bispos, observou que os relatórios finais “devem ser entendidos como documentos de trabalho, um ponto de partida e não de chegada”, mas afirmou que eles “já contêm indicações valiosas… nas quais as Igrejas locais e as diversas realidades eclesiais podem inspirar-se neste exato momento”.
Com a entrega de seus relatórios finais, ambos os grupos de estudo concluíram os seus mandatos e são considerados dissolvidos. A Secretaria-Geral do Sínodo, em conjunto com os Dicastérios da Cúria Romana, terá agora a tarefa de traduzir o que emergiu neste relatório em “propostas operacionais” práticas, que serão depois entregues à avaliação e aprovação do Papa.










