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“Make White House Great Again”

| 11/11/2020

“Bem sei que Joe Biden nunca entusiasmou, mas parece ser o homem certo para devolver a dignidade à Casa Branca. Voltaremos a ter um ser humano na presidência do país mais poderoso do mundo.” Foto: Direitos reservados.

 

A divisa mais adequada para substituir a ilusão trumpista de Make América Great Again será Make White House Great Again, isto é, por outras palavras, deixemos que a decência volte à Casa Branca.

 A dinâmica político-social a que estamos a assistir nos Estados Unidos vai muito para lá do que se poderia considerar um confronto entre direita e esquerda. Aliás, tais conceitos são estruturalmente diversos dos europeus e é necessário esforço de análise e algum conhecimento da sociedade americana para poder entender a razão de ser dos acontecimentos. De qualquer forma, como escreveu Manuel Carvalho, no Público, aludindo a uma democracia “doente”: “Não é a velha clivagem saudável entre esquerda e direita, entre progressismo e conservadorismo que está em causa: é a oposição entre a decência e a falta de escrúpulo. Se a democracia hesita nesta escolha, é porque se tornou uma banal formalidade.”

É nesta mesma linha que se manifesta Onésimo Teotónio de Almeida, o académico açoriano que vive há décadas nos EUA e ensina na universidade de Brown, em texto de opinião no DN: “Se as instituições americanas não tivessem acumulado mais de dois séculos de experiência democrática, o actual ocupante da Casa Branca já teria transformado este país numa ditadura, já que não lhe assiste o mínimo respeito pelo processo democrático.”

Portanto, a cultura trumpista está para lá da política. É sobretudo uma questão de decência. Como alguém disse, Trump é o mestre da mentira e está infectado pela desonestidade. Negou sempre a gravidade da pandemia, levando a que, tendo os Estados Unidos 4% da população mundial, tenham contado 20% das vítimas mortais do globo por covid-19.

Descreditou constantemente a ciência tratando ao pontapé o Dr. Fauci, um dos maiores especialistas mundiais na matéria. Ridicularizou a utilização da máscara, difamou a Organização Mundial de Saúde, efabulou com a hidroxicloroquina, chegou ao ponto de sugerir publicamente injecções de lixívia para matar o coronavírus, abrindo assim a porta a algumas mortes de pessoas para quem a voz de Trump é a voz de Deus, e sempre a apadrinhar as mais delirantes teorias da conspiração.

Apoiar Trump, sendo o tipo de indivíduo que é, retira a qualquer pessoa o direito de se indignar depois contra a injustiça, o abuso, a difamação e o crime. Durante os últimos quatro anos ele dedicou-se a escrever todos os dias, no Twitter e fora dele, uma espécie de “Manual para destruir um grande país”. Comportou-se sempre como um líder de tipo feudal.

A derrota de Trump é boa para os EUA e melhor para o mundo, no contexto das relações multilaterais, Portugal incluído, tendo em conta o recente ultimato do embaixador a propósito da tecnologia 5G. Mas também será positiva para as organizações internacionais, incluindo a OMS e a ONU, assim como o regresso de um dos países mais poluidores do globo ao Acordo de Paris é igualmente fundamental para travar as alterações climáticas. Até Wall Street parece ter reagido bem à vitória democrata.

Crê-se que com Biden as relações externas americanas serão menos tensas e mais democráticas e o fascínio saloio pelos ditadores passará à história. Os republicanos do Lincoln Project afirmam que desde 2013 Trump paga 125 vezes mais impostos na China – que ele diaboliza – do que no seu próprio país. Para quem se diz nacionalista e trabalhar pela grandeza da América estamos conversados. Trump foi eleito com a promessa de afastar os lóbis de Washington, mas apenas os usou a favor das suas empresas.

Donald Trump é um homem indigno. Não revelou dignidade ao ganhar nem ao perder. Quando tomou posse mentiu descaradamente ao dizer que a sua cerimónia de tomada de posse tinha mais gente do que a de Obama, quando talvez tenha reunido cerca de metade. E agora começou por declarar vitória quando ainda faltavam escrutinar milhões de votos. Ao perceber que iria perder a eleição falou em irregularidades que não provou, que ninguém viu e que o sistema eleitoral doméstico e os observadores internacionais desmentiram.

Na quinta-feira passada [5 de Novembro], as principais televisões americanas cortaram o discurso mentiroso em pleno directo e desmentiram-no, acusando-o de insistir em afirmações falsas, e até a trumpista Fox News referiu que tais acusações eram infundadas. Altos dirigentes do Partido Republicano como os senadores Mitch McConnell e Marco Rubio, demarcaram-se das acusações delirantes de Trump e da atitude de se ter declarado vencedor das presidenciais antes de a eleição terminar, defendendo a contagem dos votos até ao fim.

Bem sei que Joe Biden nunca entusiasmou, mas parece ser o homem certo para devolver a dignidade à Casa Branca. Voltaremos a ter um ser humano na presidência do país mais poderoso do mundo. Biden terá que lidar com a corrosiva herança trumpista mas parece ter estofo e experiência política para tal, até porque já trabalhou sob liderança de outrem e foi aprovado, estando portanto em melhores condições para liderar. Já quanto a Trump, ninguém o imagina a trabalhar sob autoridade de ninguém…

Insisto. Esta eleição era sobre dignidade. Deixemos então o apóstolo Pedro falar: “Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados. Mas principalmente aqueles que segundo a carne andam em concupiscências de imundície, e desprezam as autoridades; atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades” (2 Pedro 2:9,10).

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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