Manifesto de 140 cristãos defende Evangelho contra discursos xenófobos e de ataque aos pobres (Documento)

| 22 Jan 21

Ilustração de Danuta Wojciechowska para “Os Ciganos”, de Sophia de Mello Breyner, cedida pela Porto Editora

 

Como cristãos sentimos a necessidade de exprimir uma forte oposição a qualquer projecto político assente em princípios xenófobos, racistas, homofóbicos, autoritários e de ataque aos pobres”, diz um manifesto assinado por 140 cristãos de diferentes origens, e entre os quais se contam professores universitários (incluindo da Universidade Católica), padres, dirigentes de movimentos e instituições religiosas e outros.

“Estes projectos são gravemente contrários à mensagem de Cristo”, diz o texto. “E consideramos particularmente grave a instrumentalização daquilo que temos de mais precioso, a nossa fé, ao serviço de projectos políticos claramente contrários ao Evangelho, a reboque de discursos providencialistas.”

O documento, que o 7MARGENS divulga em exclusivo a dois dias das eleições para a Presidência da República, acrescenta que perante “propostas políticas que abertamente procuram dividir, de forma maniqueísta, a sociedade entre ‘bons’ e ‘maus’, ‘puros’ e ‘impuros’, a pergunta do Evangelho” sobre “quem é o meu próximo” é devolvida aos cristãos hoje “com maior agudeza. Estão em causa injustiças como a negação do direito de asilo aos refugiados e da segregação de etnias, o impedimento de “um processo de reintegração dos presos” ou a sonegação da “assistência aos mais pobres dos pobres”, perante as quais ganha novo sentido a pergunta de “quem é que me faço próximo?”

 

É o seguinte o texto completo do Manifesto e a lista de subscritores:

 

Cristãos de várias denominações (católicos, metodistas, evangélicos, anglicanos, menonitas e presbiterianos) unem-se em valores base para estas eleições presidenciais presentes no seguinte Manifesto:

Como crentes somos desafiados a seguir ideais, mas como discípulos de Jesus somos chamados a seguir uma Pessoa. Algo comum a todas as religiões é que o espaço de aplicação das ideais não se circunscreve à zona geográfica da igreja, templo ou mesquita, no exclusivo da nossa oração particular com Deus, mas em toda nossa vida: em casa, com a família, nos nossos relacionamentos, no nosso trabalho e, como não pode deixar de ser, também na vida cívica e em sociedade.

Em tempo de campanha eleitoral em vista à eleição do/da Presidente da República, feita numa época de profunda clivagem, tribalização e fulanização dos discursos mediáticos, impõe-se aos cristãos retomar a pergunta dirigida a Jesus no Evangelho de Lucas como critério determinante do processo decisório do seu voto: “Quem é o meu próximo?”. (Lc 10, 25-37).

Na Parábola do Bom Samaritano, em face à provocação dos doutores da Lei, Jesus pega de propósito no exemplo de um estrangeiro que age irrepreensivelmente aos olhos de Deus na hospitalidade e no cuidado, colocando um alto representante do seu povo, da sua nacionalidade, como exemplo da pessoa que age contrariamente à palavra de Deus – “Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?”, pergunta Jesus. Toda a mensagem de Deus através de Jesus se consubstancia no encontro, na relação, nomeadamente daqueles que mais estão afastados de nós, dos que estão a ser oprimidos ou dos que sofrem. Qualquer voz que nos coloque contra estes irmãos, não é a voz de Deus. E, talvez por isso, a interpelação feita nos textos de Lucas volte hoje a ganhar um sentido renovado e amplo, intimando-nos a procurar novos personagens da parábola.

Hoje, diante de propostas políticas que abertamente procuram dividir, de forma maniqueísta, a sociedade entre “bons” e “maus”, “puros” e “impuros” – negando o direito de asilo aos refugiados e segregando etnias; impedindo um processo de reintegração dos presos e sonegando a assistência aos mais pobres dos pobres – a pergunta do Evangelho é-nos devolvida de novo com maior agudeza, responsabilizando-nos agora como protagonistas da história: diante destas injustiças de quem é que me faço próximo?

refugiados lesbos moria, Foto_ Comunidade de San'Egidio

“Negando o direito de asilo aos refugiados, a pergunta do Evangelho é-nos devolvida de novo: diante destas injustiças de quem é que me faço próximo?” Foto: Comunidade de San’Egídio.

 

Sem subterfúgios, responder a esta interrogação de forma responsável e comprometida implica renunciar à lógica egótica e desculpabilizante de Caim face à morte de Abel – “Sou, porventura, guarda do meu irmão?” (Gn 4,9). Na justa medida em que, só suplantando o raciocínio predatório e revanchista face ao próximo (que parece ter ressurgido no espaço das redes sociais como cultura dominante) podemos fazer emergir uma cultura diferente, de cuidado e de proximidade. A urgência não é apenas identificar aquele-outro que precisa de auxílio, mas desencadear a acção concreta do movimento de proximidade que ensaiamos perante um estranho caído à beira do caminho. Porque, afinal, diante das injustiças de cada tempo somos, ou não, responsáveis pelos nossos irmãos?

Como cristãos sentimos a necessidade de exprimir uma forte oposição a qualquer projecto político assente em princípios xenófobos, racistas, homofóbicos, autoritários e de ataque aos pobres. Acreditamos que estes projectos são gravemente contrários à mensagem de Cristo. E consideramos particularmente grave a instrumentalização daquilo que temos de mais precioso, a nossa fé, ao serviço de projectos políticos claramente contrários ao Evangelho, a reboque de discursos providencialistas.

Na dupla condição de crentes e cidadãos advogamos uma atitude cristã em relação à política e, por isso, assumimos um conjunto de princípios dos quais não abdicamos: a) o respeito por todos e todas, independentemente de género, credo, cor de pele, etnia ou orientação sexual, sem dar espaço a nenhum discurso de ódio; b) a promoção do pluralismo e da diversidade como componentes indispensáveis da nossa convivência humana; c) a luta pela erradicação da pobreza e das desigualdades mediante uma opção preferencial pelos pobres e por modelos de desenvolvimento sustentáveis e ecológicos; d) e, por último, o compromisso na construção do bem-comum, na defesa intransigente da justiça, da liberdade, da fraternidade, da tolerância, da solidariedade e da paz.

Conscientes da exigência do nosso baptismo, pretendemos frisar conjuntamente uma recusa intransponível perante projectos e programas políticos em relação aos quais não podemos, em consciência, votar – como glosa o poeta em Cântico Negro: “Não sei por onde vou/ Não sei para onde vou/ Sei que não vou por aí!”.  E pesem embora as nossas divergências políticas e divisões eclesiais, na presença de modelos populistas assentes na retórica de ódio e segregação, há uma certeza irrevogável que nos une: não aceitamos renunciar à nossa humanidade. E fazemo-lo publicamente, porque, em nosso entender, ser sinal do Evangelho no mundo contemporâneo não condescende com uma propaganda xenófoba e autoritária para fins eleitoralistas. Mas significa, ao invés, ter a capacidade de ser fermento na história dos homens e das mulheres nossos concidadãos: anunciando, aqui e agora, a possibilidade de um mundo novo transformado, onde todos tenham lugar, e a esperança de uma humanidade renovada, ressuscitada.

Na semana em que juntos celebramos o oitavário de oração pela unidade dos cristãos, os exemplos das comunidades ecuménicas de Taizé, Bose, Chemin Neuf e Grandchamp servem-nos como interpelação e desafio, bússola e compasso, na esperança de urdir um mundo reconciliado na sua diversidade: porque temos a certeza que é “possível construir o mundo justo” onde o outro-diferente não seja percebido como uma ameaça, mas como um dom! O que nos move é a memória desse “projecto” (desse Verbo que para nós tem um Nome) que “sem cessar de novo tentaremos”.

Lavandaria do campo de refugiados de Samos

“É possível construir o mundo justo onde o outro-diferente não seja percebido como uma ameaça, mas como um dom!” (Foto: Meia de criança na lavandaria do campo de refugiados de Samos. © Luísa Lopes dos Santos, cedida pela autora.)

 

Subscritores (por ordem alfabética):

Adelaide Theotónio, Alfreda Ferreira da Fonseca, Aline Martinho, Alzira Pinheiro, Ana Carvalho, Ana Cristina Luís, Ana Margarida Guedes, Ana Margarida Vaz, Ana Paula Huisman, Ana Suspiro, Anabela Correia Gil Barata, António Pedro Monteiro

Bárbara Gardete, Beatriz Lourenço, Bruno Máximo Leite, Bruno Oliveira

Carolina Guedes, Catarina Pimentel Neto, Catarina Sá Couto, Cátia Tuna, Célia Lavado, Cláudio Teixeira, Colette Theotónio, Conceição Tello, Cristina de Meirelles Moita, Cristina Maurício, Cristina Milagre, Cristina Silva

Deolinda Machado, Diana Prudêncio

Elisabete Silva, Elsa Almeida, Elsa Ferreira

Filipa Cardoso, Filipa Teixeira, Filipa Vieira, Francisca Gigante, Francisco Cabral, Francisco Pinho

Goreti Real, Guilherme Cerejeira Borges

Helena Pina Cabral, Helena Silva, Helena Topa Valentim, Henrique Ferreira, Henrique Manuel Pereira

Inês Espada Vieira, Inês José, Inês Mata, Inês Sá Couto, Isabel Lacerda, Isabel Osório, Isabel Pacheco

Joana Bento Torres, Joana Máxima, Joana Rigato, Joana Rosas, João Alves da Cunha, João José da Silva Damião, João Gonçalves, João Luís Fontes, João Manuel Duque, João Miguel Almeida, João Miguel Ferreira, João Simões Tuna Jorge, Joel Francisco, Jorge Cardoso, José Carlos Antunes, José Osório, José Pedro Angélico, Juan Ambrósio, Júlia Barroso, Júlia Ferreira, Júlio Paisana

Leonor Balcão Reis, Lígia Gomes, Liliana Costa, Lisandra Rodrigues, Luís Bento, Luís Carlos Marques Gomes, Luís Leal, Luís Mah, Luís Vieira, Luísa Antunes, Luísa Ribeiro Ferreira

Madalena Anjos, Margarida Cavadas, Maria Campos, Maria Cardoso, Maria de Lurdes Rosa, Maria do Carmo Rosa Osório, Maria Eduarda Titosse, Maria Felício, Maria Francisca Simões, Maria Gabriela Bragança, Maria Paula Simões de Carvalho dos Santos Madeira, Maria Torres, Mariana Esmeriz, Mariana Rodrigues, Mariana Sá Couto, Mário José Fernandes Ribeiro, Marta Linhares, Martinho Tomé Martins Soares, Matilde Gil Barata Gomes, Miguel Santos, Miguel Veiga

Nuno Caiado

Palmira Dias, Paulo Costa, Pedro Felgueiras, Pedro Feliciano, Pedro Franco, Pedro Silva Rei

Rafaela Sousa, Raquel Botelho Rodrigues, Raul Rodrigues, Renato Poças, Rita Marques, Rita Veiga, Roel Huisman, Rosa Lourenço, Rui Coelho, Rui Fonseca, Rui Lavoura, Rui Miguel de Oliveira Moreira Fernandes, Rui Tavares de Almeida, Rute Pereira

Sandra Fernandes, Sara Martinho, Silvia Pereira, Sofia Pimenta, Sofia Reis, Sylvie Lopes Dias

Teresa Balcão Reis, Teresa Paiva Couceiro, Teresa Rebelo de Andrade, Teresa Vasconcelos, Tiago Costa, Tiago Simões da Silva

Vilma Silva

 

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