Manuel Vieira Pinto: O assalto à catedral na primeira pessoa

| 2 Mai 20

O antigo bispo de Nampula morreu na noite de quinta-feira, 30 de Abril, no Porto, como o 7MARGENS noticiou. Na nota de condolências que apresentou “à Igreja Católica e à Família”, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirma que Manuel Vieira Pinto era um “conhecedor e defensor das aspirações do Povo irmão moçambicano”, que “exerceu junto deste o seu múnus sacerdotal durante longos anos após a independência”.

Em 1974, depois de ter escrito duas cartas que contestavam o colonialismo e defendiam a autodeterminação de Moçambique, o bispo de Nampula foi expulso do território pelas autoridades coloniais portuguesas. Os últimos momentos da sua presença na cidade, poucos dias antes da Páscoa, foram vividos pelo jornalista Manuel Vilas Boas, na altura a estagiar em Teologia na Sociedade Missionária da Boa Nova, e que aqui os conta na primeira pessoa.

Neste domingo, 3 de Maio, o 7MARGENS publicará mais um conjunto se testemunhos sobre esta figura decisiva da história recente de Portugal e Moçambique.

O bispo Manuel Vieira Pinto num dos seus primeiros anos em Moçambique: a defesa que fez da autodeterminação valeu-lhe a expulsão do território, ordenada pela polícia política do regime. Foto: Direitos reservados

 

 

Sucediam-se por aqueles dias do fim da Quaresma de 1974, as manifestações por toda a cidade de Nampula (Moçambique), onde a efígie do bispo Vieira Pinto era o tambor em que todos se fartavam de bater. Tinha chegado aos ouvidos de muitos que o prelado defendia ideias pouco amistosas sobre a independência da então “província ultramarina” do Índico. Corriam dizeres de documentos em que isso era mesmo explícito: no Repensar a Guerra e, sobretudo, no Imperativo de Consciência, de lavra primeira dos Missionários Combonianos.

A opinião pública saturava-se do mau viver dos colonos na cidade, acirrados por alguns, mais “cafrealizados”, no mato. Eram muitas as lojas dispersas pelo território da província de Nampula. O ambiente envenenava-se de conversas azedas sobre as intenções do bispo: “Entregar, isto, sem mais?… Que já chega de colonialismo?”, interrogavam-se nervosos, católicos, muçulmanos e não crentes.

Cheguei por esses dias à cidade capital da província. Vinha de António Enes (hoje, Angoche), 180 quilómetros a sudoeste, uma pequena cidade banhada por uma praia larga e longa. Aqui, o quotidiano fazia-se entre acácias rubras e o colégio, onde os filhos dos colonos eram um mar de gente. No edifício novo da escola, alguns simbólicos autóctones para manter a diferença. Uma cidade de doze mil habitantes: dois mil em alvenaria, dez mil no bairro do Ingúri, sob um longo tecto de barracas. Um cenário repetido por outras localidades.

 

A voz dos altifalantes

Na cidade de Nampula, com alguns milhares de habitantes mais que António Enes, mas quase todos sentados no chão. Havia cores nas casas e algum alcatrão nas ruas traçadas a esquadro.

O bispo vivia num canto da cidade, campo aberto de missão. Porta aberta a quem desejasse aproximar-se. Eu vinha de longe para tratar da documentação oficial para a minha ordenação. Chegava ao fim um estágio de dois anos, entre aulas e meças à imaginação. Do teatro a cantorias afinadas.

De vez em quando, os altifalantes, lembravam, no coração da cidade, que a manifestação estava marcada para a tarde, a fim de sacudir da catedral o bispo que ali viria fazer orações, em tarde de quarta-feira santa. Uma celebração penitencial, para os mais entendidos.

Capa do livro de Pedro Ramos Brandão, reproduzindo um dos panfletos postos a circular contra Vieira Pinto.

Eram mais intensos os cheiros das ruas com muitas fotografias, daquelas em que se lia já a sentença final: “Bispo de Nampula Vieira Pinto, famigerado traidor à pátria. Indesejável em território português. Viva Portugal uno e indivisível.”

 

Um infiltrado

Não eram precisos mais argumentos. Todas as razões estavam ali de pedras e paus nas mãos, de dezenas largas de exaltados patriotas.

Documentos largados na secretaria da diocese, era preciso chegar às quatro da tarde ao terreiro da catedral. De boleia, sentei-me no Subaru ofegante do bispo. Mandou a prudência que o bispo não descesse também para a catedral. Regressou de imediato a casa.

Eu, pé ante pé, por entre a multidão, em frente à catedral, perguntei se aquele era o lugar mais seguro, mesmo em frente aos polícias, que se encarregavam de proteger o edifício. Uma pedra ecoou no corpo do templo branco com a porta semicerrada.

A resposta da polícia não tinha chegado quando, num salto nervoso, entrei de rompante na catedral. Fora, as vozes aqueciam slogans de morte ao bispo traidor. Numa das sacristias, soltavam-se vozes em altercação.

 

“Isto é território do Vaticano!”

O responsável da PIDE-DGS (polícia política do regime), em Nampula, um antigo padre salesiano (!), tentava convencer o pároco, um minhoto de rija têmpera, já desaparecido, a abandonar aquele lugar: dizia não dispor de forças policiais suficientes para cuidar da sua integridade física. “Não saio!”, gritava-lhe o padre, exaltadíssimo. E acrescentava: “Como deve saber, a catedral é território do Vaticano!” “Aqui quem manda é a força!”, contra-argumentava o pide ex-padre. “E nós não temos forças que cheguem!”

Não aguentei mais aquele braço de ferro e atirei-me pela porta lateral. As pedras avançavam como dardos sobre a catedral. Fora, por detrás do templo, pretendia escapar-me para a residência da paróquia, onde tinha deixado os meus pertences.

Era preciso atravessar quintais de muros altos. Três jovens da JOC (Juventude Operária Católica) reconheceram-me e decidiram aproximar-se de mim. Ainda pensei arregaçar as mangas para uma defesa imediata, corpo a corpo.

Quando os manifestantes se aperceberam de que o bispo já não vinha, descarregaram pedras e paus nos muros da catedral, até saciarem a raiva que os tinha acometido. Vingaram-se, alguns minutos depois, na residência paroquial, onde partiram vidros e deixaram violências de animais feridos.

Catedral de Nampula, o lugar das manifestações violentas contra Vieira Pinto. Foto © Rosino/Wikimedia Commons 

 

Jaculatórias incendiárias

Já não me apanharam estes bandoleiros porque, de imediato, por mãos de amigo, enrolado num cobertor, escondido no fundo da caixa de uma pick up, rumámos pela saída de Nacala, em direção a terras do Parapato, antigo nome de António Enes.

Nunca tantas jaculatórias incendiárias me saíram da boca. Era já madrugada quando, inquietos, por entre raios e coriscos, aportámos à terra que, ao tempo, ainda era prometida…

Notícias do dia seguinte davam notas de uma Nampula a ferro e fogo, com um bispo como capacho nas mãos da polícia política. Um pequeno avião levou o “condenado” para o aeroporto da Beira, seguindo depois para a capital, Lourenço Marques (hoje Maputo), para o despacho final.

 Vieira Pinto em Setembro de 1968, um ano depois de ter chegado a Nampula como bispo. Foto: Direitos reservados

 

 
Um núncio e um cardeal

Em Lisboa, no aeroporto da Portela, pela manhãzinha, o núncio apostólico era chamado de improviso para receber a presa da PIDE. Não fora a coragem do então cardeal de Lisboa, D. António Ribeiro, e a “encomenda” seguiria em direcção a Roma, oferta “envenenada” a Paulo VI, Papa que recebera, anos antes, os líderes dos movimentos de libertação das então colónias portuguesas em África…

No calendário cristão, o dia dfa chegada de Vieira Pinto a Lisboa era 14 de abril de 1974, Domingo de Páscoa, depois dos desaires daquela semana torturante. Algum delay da Ressurreição… faltava arrumar as pedras grandes que tapavam a entrada do sepulcro…. Estavam ali, subtis, as interpelações de toda a revolução moçambicana.

Alguém jamais esqueceria aquele gesto profético do mensageiro que vinha “por um mundo melhor”: uma criança negra, arrancada à mãe, é projectada contra o Sol, à chegada, ao pequeno aeroporto de Nampula, a esmagar esperanças e a criar rancores, que jamais se viriam a apagar.

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