Manuel Vieira Pinto: um bispo à frente do seu tempo (testemunho)

| 31 Mai 20

Manuel Vieira Pinto em Nampula. Foto: Direitos reservados

 

Há experiências/vivências que, de tão intensas, ficam a fazer parte de nós.

Tive o padre Manuel Vieira Pinto como director espiritual no então Seminário de Vilar. Um tempo que não sei medir no calendário, pelos anos ou meses, mas que seguramente deixou marcas no meu modo de sentir e de viver a vida, a partir da juventude.

As meditações que nos fazia em cada manhã, antes da missa, constituíam momentos intensos que alimentavam e estimulavam o nosso sonho de jovens tão generosos quão imaturos. Era esse o tempo e esse o modo de preparar os (constituídos) candidatos ao sacerdócio ministerial logo desde a mais tenra adolescência, segregando-os do mundo e modelando-os numa rígida disciplina e mente heterónoma.

O padre Vieira Pinto transmitia-nos uma espiritualidade intensa, envolvente, exigente, que nos entusiasmava e cativava. Dava suporte, energia e um sentido a jovens que, conduzidos ao seminário por caminhos porventura ínvios, alimentavam projectos, ajudando-os porventura a sublimar os dias que viviam embalados pelo sonho e distantes do mundo real. Mas eram assim esses tempos. O padre Manuel Vieira Pinto vivia uma espiritualidade incarnada numa tal transparência de generosidade e de serviço que contagiava e impregnava aqueles que com enorme solicitude acompanhava. O fascínio da sua personalidade cativava. Ouvi-lo era perceber que estava ele todo naquilo que pregava.

“O contacto com o Movimento por um Mundo Melhor, em Roma, amadureceu-lhe convicções e orientou-lhe dinamismos”, escreveu-se na Voz Portucalense a respeito do seu percurso pastoral e pessoal. Transmitir ao nosso tempo a revelação feita por Jesus continuou a ser a sua paixão, agora num contexto diferente. Percebia-se que para ele era evidente que não se poderia apresentar o Evangelho a não ser como uma mensagem capaz de ter em conta a evolução da história e as condições de vida dos homens deste tempo.

Vivi com entusiasmo o fenómeno de multidões acorrerem, no Porto, ao então Palácio de Cristal para ouvir o “apóstolo” do movimento que respondia à sede de renovação da Igreja que levou João XXIII a convocar o Vaticano II.

 

Capacidade para ouvir e servir

Muito se disse e se testemunhou sobre o bispo D. Manuel Vieira Pinto por ocasião do seu falecimento. Muito fica por dizer, seguramente. O modo como exerceu o seu ministério episcopal permanece como um testemunho vivo na memória de quem o conheceu. Nele percebemos traços essenciais do que deve ser a figura de bispo: não um administrador distante, mas um pastor próximo do seu rebanho, com capacidade para ouvir e servir. De quem não se possa dizer querido y lejano señor obispo, como rezava o título de um livro famoso. Um bispo que testemunhava a sua fé de modo transparente na sua postura alegre, empática, simples e acolhedora.

Percebia-se onde estava a fonte da sua fé e a força das suas convicções. A sua vida dava autoridade à sua palavra: um bispo que acreditava, e isso via-se. Percebia-se que ele foi, antes de mais nada, um cristão discípulo de Jesus de Nazaré. Poderíamos ouvir da sua boca as palavras de Santo Agostinho: “Para vós sou bispo, convosco sou cristão.” A sua nomeação para bispo de Nampula encheu de esperança quantos percebiam a urgência das transformações que se impunham e adivinhavam na vida do povo moçambicano, vítima de servidões que bloqueavam o seu destino.

A sua biografia regista um episódio que permanece como uma síntese expressiva de toda a sua vida. “Porque é que tu, que és bispo, quando vens falar comigo, nunca me falas de Deus e da religião, mas do Povo, da defesa dos seus direitos e da sua dignidade?”, perguntou a dada altura o então Presidente moçambicano, Samora Machel, ao bispo de Nampula. “Porque um deus que precisasse da minha defesa seria um deus que não é Deus. Deus não precisa que O defendam. O Homem, sim”, respondeu-lhe D. Manuel.

A sua figura de bispo, depois de renunciar ao governo da diocese pela idade avançada, viveu no silêncio da Casa Sacerdotal do Porto, na doação da vida até aos últimos momentos a exemplaridade do testemunho de quem viveu “para servir e não para ser servido”.

Pouco antes do encerramento do Vaticano II, um grupo de Padres Conciliares celebrou nas Catacumbas de Domitila, de maneira discreta, a Eucaristia e assinou um compromisso de vida, trabalho e missão marcados pela pobreza, pela humildade e pela oração. D. Manuel Vieira Pinto, ao tempo ainda não ordenado bispo, assinaria sem dúvida, esse compromisso. Ele foi um bispo à frente do seu tempo.

 

António Teixeira Coelho é professor aposentado do Ensino Secundário e presbítero da diocese do Porto durante 20 anos, dispensado do ministério.

 

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