Manuela Silva: a capacidade de ver mais além

| 10 Mar 20

 

Manuela Silva na Fundação Betânia, por ela fundada. Foto © Maria do Céu Tostão, cedida pela autora.

 

Falar sobre a professora Manuela Silva é difícil.

Falar sobre a professora Manuela Silva é algo que não cabe em palavras.

O meu contacto com a professora começou em 1985. Poucos anos antes, ainda como estudante universitária, participei na aplicação dos questionários que estiveram subjacentes ao estudo sobre a pobreza em Portugal, mas foi pouco depois de concluída a licenciatura que recebi uma proposta para uma entrevista de emprego com a professora Manuela Silva para integrar a equipa que deveria produzir um novo estudo sobre a pobreza, desta vez focando as questões específicas da pobreza urbana.

Eu achava que não tinha nada para ser escolhida, mas após uma conversa de não mais de meia hora – porque quem conhecia a Manuela Silva sabe que, em geral, ela não gostava de demoras – aí estava eu no DPS. E o DPS desenhou a minha vida profissional.

O DPS era o Departamento de Pesquisa Social, criado por ela no contexto do Centro de Reflexão Cristã, com o objetivo de produzir conhecimento sobre a pobreza no país. Tema que, na época, não colhia o interesse da academia. Investigadora e professora universitária, Manuela Silva teve, assim, que gerar novos recursos para que os objetivos que preconizava fossem alcançados.

A imagem que naquela altura me transmitiram da professora foi a de uma pessoa rigorosa, exigente e austera. Mas se o rigor científico sempre foi uma das características que lhe reconhecemos e louvamos, a exigência foi um estímulo para o crescimento pessoal e profissional de quem com ela privou. Mas a austeridade nunca foi sentida e desaparece quando se pensa na sua capacidade para promover o trabalho em equipa; para reforçar as pessoas menos experientes, para promover a exposição de ideias, a reflexão e a análise; para se colocar ao nível do outro.

As responsabilidades que assumi no início da minha atividade profissional – a de construir o questionário que seria aplicado no contexto do estudo Pobreza Urbana em Portugal – e a forma como tudo se desenrolou, com um intenso trabalho de discussão onde a professora Manuela Silva, e também o professor Alfredo Bruto da Costa, se sentavam, à volta de uma mesa, com os elementos mais jovens da equipa ouvindo as opiniões, suscitando curiosidades, dando orientações e partilhando conhecimentos, revelam a grande humildade de uma e de outro e a sua capacidade para gerar autonomias.

Nesta evocação, permitam-me que recorde o Manuel Pimenta, coautor do livro Pobreza em Portugal, e parte integrante deste processo, desaparecido também há uns meses.

Em 1964, Manuela Silva escreveu que o desenvolvimento estava muito para além de uma dinâmica meramente económica. Para ela, o desenvolvimento deveria operar uma profunda transformação nas pessoas e nas comunidades, pois só assim será sustentável.

Tendo esta conceção subjacente, quando a professora Manuela Silva desenhou a investigação sobre a Pobreza Urbana em Portugal, associou-lhe uma componente de intervenção que conduziu a um trabalho em três contextos locais: Setúbal, Lisboa e Amadora. Tive a oportunidade de coordenar também esta vertente que, mais tarde, foi decisiva para definir a filosofia de trabalho no Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social).

Num estudo dos finais dos anos 90, do século passado, refere-se esta experiência no concelho de Setúbal como uma das primeiras a convocar o poder local para uma intervenção de combate à pobreza e de promoção do desenvolvimento social.

Em 1992, foi constituído o Cesis, pois a professora Manuela Silva achou que se tinha chegado a um ponto de crescimento da equipa e havia que “cortar o cordel” e deixar voar.

Entre 1992 e 1997, ela foi a presidente da assembleia geral. Contra algumas expectativas iniciais, o Cesis cresceu, alargou-se, sobreviveu a crises, mas as áreas de trabalho abertas pela Manuela Silva continuam pertinentes: os estudos sobre a população sem-abrigo e sobre as vulnerabilidades à pobreza da população imigrante e minorias étnicas; os processos de empobrecimento e envelhecimento; a pobreza infantil; as desigualdades de género; as questões associadas ao trabalho e ao emprego; os direitos humanos.

Mesmo sem estar presente na maior parte do percurso de atividade do Cesis, a Manuela Silva marcou decisivamente o seu perfil. Destaco:

– a responsabilidade perante compromissos;

– o estabelecimento de relações com a universidade;

– o conhecimento e a produção de conhecimento como instrumento de intervenção e de mudança social;

– a interdisciplinaridade, a troca de saberes e de experiências;

– a promoção da divulgação e a discussão alargada de resultados.

A Manuela Silva ouvia do vento. E o vento incentivava-a ao combate contra as injustiças e as desigualdades, mas também lhe contava sobre as belezas da natureza que admirava e sabia contemplar e preservar.

A Manuela Silva gostava de nozes e não seria por acaso que as nozes, na mitologia grega, são o fruto associado à capacidade de ver mais além.

7 de março de 2020

 

Ana Cardoso é socióloga, investigadora do Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social) e integra atualmente a sua direção. Texto escrito a partir da intervenção na sessão de evocação de Manuela Silva, realizada dia 7de Março no ISEG, em Lisboa.

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