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Manuela Silva e Sophia

Manuela Silva e Sophia

by | 11 Nov 19 | Entre Margens, Últimas

Há coincidências de datas cuja ocorrência nos perturbam e nos sacodem o dia-a-dia do nosso viver. Foram assim os passados dias 6 e 7 do corrente mês de Novembro.

A 6 celebrou-se o centenário do nascimento de Sophia e a 7 completava-se um mês sobre a partida para Deus da Manuela Silva.

Manuela Silva na Fundação Betânia, por ela criada. Foto © Maria do Céu Tostão

 

À primeira vista são duas efemérides sem qualquer ligação, salvo referirem-se a dois vultos nacionais de indiscutível projecção – ainda que por motivos completamente diferentes – na nossa vida pública na segunda metade do séc. XX e inícios do séc. XXI. Sobre estas efemérides já tudo de essencial foi dito e reflectido, pelo que a ousadia das palavras que se seguem só pode ter desculpa radicada nos sentimentos do autor destas linhas.

Ao percorrer diversos textos comemorativos ou celebrativos do centenário do nascimento de Sophia que admiro profundamente, fui, naturalmente, conduzido à sua obra poética e à sua extraordinária figura humana de poeta. Foi então que a ligação à partida da Manuela aflorou ao meu espírito.

De facto, para aqueles que mais de perto acompanharam a vida humana da Manuela, alguns dos mais conhecidos poemas de Sophia parecem ter sido escritos como uma espécie de guião para essa vida humana. Referindo apenas alguns dos mais conhecidos:

“Vemos, ouvimos e lemos

Não podemos ignorar…

 

Vemos, ouvimos e lemos

Relatórios da fome

O caminho da injustiça

A linguagem do terror

 

A bomba de Hiroshima

Vergonha de nós todos

Reduziu a cinzas

A carne das crianças

 

D’África e Vietname

Sobe a lamentação

Dos povos destruídos

Dos povos destroçados.

 

Nada pode apagar

O concerto dos gritos

O nosso tempo é

Pecado organizado”

Sophia de Mello Breyner Andresen numa foto datada provavelmente dos anos 1950. Foto Fernando Lemos/Direitos reservados

 

“A minha vida é o mar o Abril a rua

O meu interior é uma atenção voltada para fora

O meu viver escuta…

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro

Sabendo que o real o mostrará”

 

“Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão

Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se comprem e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mão dada com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.”

 

“Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedores e sem vencidos

Que o tempo que nos deste seja um novo

Recomeço de esperança e de justiça

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

…

Erguei o nosso ser à transparência

Para podermos ler melhor a vida

Para entendermos vosso mandamento

Para que venha a nós o vosso reino

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

…

Fazei Senhor que a paz seja de todos

Dai-nos a paz que nasce da verdade

Dai-nos a paz que nasce da justiça

Dai-nos a paz chamada liberdade

Dai-nos Senhor apaz que vos pedimos…”

 

“Nunca choraremos bastante quando vemos

O gesto criador ser impedido

Nunca choraremos bastante quendo vemos

Que quem ousa lutar é destruído

Por troças por insídias por venenos

E por outras maneiras que sabemos …”

 

“Era um Cristo sem poder

Sem espada e sem riqueza

Seus amigos o negavam

Antes do galo cantar

A polícia o perseguia

Guiada por Fariseus

O poder lavou as mãos daquele sangue inocente

Crucificai-o depressa

Lhe pedia toda a gente

Guiada por Fariseus:”

 

Do espírito deste conjunto de poemas, e muitos mais haveria no mesmo sentido, se articulou a vida terrena, mais privada ou de cariz mais público, da Manuela. Sempre presente onde a injustiça, a guerra e a fome pedissem a sua acção, a Manuela vivia o seu interior numa atenção sempre voltada para os outros. Não trazia o Deus em si, antes o procurava no mundo, sabendo que o real o mostraria. O poema “Porque”, assim titulado por Sophia, marca um verdadeiro itinerário da Manuela. Meditemo-lo interiormente e encontraremos múltiplos traços de caminhos percorridos desde sempre pela Manuela, não numa crítica aos outros, mas sempre com o seu sorriso característico, simultaneamente, de uma bondade inesgotável. A Manuela era implacável para com o erro e para consigo própria, mas de uma enorme tolerância para com quem errava.

A procura da Paz, de forma muito clara “a paz sem vencedores e sem vencidos”, marcaram toda a sua vida.

Esta pequena evocação do 30º dia da passagem da Manuela para Deus, ficaria truncada no essencial sem recordar o final da homília de frei Bento Domingues, na celebração de 8 de novembro no Convento dos Dominicanos de Lisboa. Dizia frei Bento, na sua linguagem muito peculiar: sobre a vida da figura pessoal e pública da Manuela já tudo foi dito. Não é isso que ela nos pede hoje, mas antes que olhemos o futuro e sejamos capazes de continuar a sua acção.

Mais uma vez um poema de Sophia, “Quando”, nos ajuda nesta tarefa:

“Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta

Continuará o jardim, o céu e o mar,

E como hoje igualmente hão-de bailar

As quatro estações à minha porta.

…

Será o mesmo brilho, a mesma festa,

Será o mesmo jardim à minha porta,

E os cabelos doirados da floresta,

Como se eu não estivesse morta.”

 

Que todos nós, seus amigos, saibamos continuar a sua gesta de vida, o mesmo jardim “como se Ela não estivesse morta”.

 

Lisboa, 10 de Novembro 2019

Fernando Gomes da Silva é engenheiro agrónomo

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