Manuela Silva: “Gostei muito de viver!”

| 14 Out 19

A memória da economista, que morreu dia 7 de Outubro em Lisboa, será feita nesta segunda-feira, 14, às 19h15, na Capela do Rato, numa eucaristia presidida pelo patriarca de Lisboa.

Manuela Silva, no doutoramento honoris causa no ISEG, a 21 de Junho de 2013. Foto © Maria do Céu Tostão

 

“Diz aos meus amigos que gostei muito de viver.” Nos derradeiros momentos de vida, já no hospital, Manuela Silva pegara na mão da irmã que a acompanhou nos últimos meses, olhando-a e, com plena consciência de que vivia os instantes finais, deu-lhe o último recado: “Vou partir, mas diz aos meus amigos que gostei muito de viver.”

A história é contada ao 7MARGENS por Fernando Gomes da Silva, que com ela trabalhou directamente entre 1976 e 1978 – ele na Direcção-geral do Planeamento do Ministério da Agricultura, e ela enquanto secretária de Estado do Planeamento no Ministério da Economia do I Governo Constitucional, liderado por Mário Soares. A memória de Manuela Silva, que morreu segunda-feira, dia 7, em Lisboa, será recordada nesta segunda-feira, 14, às 19h15, na Capela do Rato, numa eucaristia presidida pelo patriarca de Lisboa.

Na sua página na internet, a comunidade da Capela do Rato recorda “a qualidade e singularidade” da “coerência evangélica” de Manuela Silva que foi, por diferentes palavras, destacada também em muitas das reacções destes últimos dias à notícia da sua morte, inclusive a partir do estrangeiro.

Na homilia da missa do funeral, o padre António Janela, que lidou com ela durante décadas em vários âmbitos eclesiais, referiu-se a esses últimos momentos afirmando que “gostar de viver é a melhor resposta que um cristão pode dar diante da morte”. Manuela Silva “foi uma referência muito importante para aqueles que a conheceram nos seus escritos mas sobretudo no testemunho de vida” que deu, afirmou. Uma vida, acrescentou, “que traduz este compromisso do cristão não apenas na frequência dos ritos, mas no empenhamento”, um testemunho necessário hoje em dia e cuja memória deve ser “fecunda”.

Nascida em 1932, em Cascais, a intervenção cívica e política de Maria Manuela da Silva começa em paralelo à sua vida académica como professora de economia e continua até praticamente ao momento da sua morte, desdobrando-se por uma multiplicidade de actividades e interesses difíceis de resumir. Já na década de 1960 ela participava em acções clandestinas de grupos católicos de luta contra o regime ditatorial do Estado Novo. Ao mesmo tempo, envolvera-se também em campanhas de alfabetização em várias aldeias da região de Portalegre, dinamizadas pelo movimento Graal, de mulheres cristãs. Com ela, recorda Francisco Cordovil, que participou também na iniciativa, estiveram pessoas como Lindley Cintra ou José Mattoso.

Da mesma época datam experiências de desenvolvimento comunitário como as da Benedita, na região de Alcobaça. No funeral de Manuela Silva, quarta, dia 9, um dos testemunhos foi claro: “Devemos o Externato Cooperativo à iniciativa de desenvolvimento comunitário dos anos 1960 da Manuela Silva”, recordou Lúcia.

 

Pobreza, uma violação dos direitos humanos

Na missa exequial, marcou presença o Presidente da República, entre outras personalidades da vida académica e política, de vários movimentos católicos, da rede Cuidar da Casa Comum e de outros âmbitos nos quais Manuela Silva se movimentou. Teve “uma vida dedicada a causas de grande relevância económica e social, nas quais se incluem a justiça social, luta contra a pobreza e defesa dos Direitos Humanos”, referiu Marcelo Rebelo de Sousa na nota de condolências à família, na qual afirma que “a sua morte constitui uma perda de grande relevância” para Portugal.

Na reacção à notícia da morte, Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, destacara a dimensão da cidadã que sempre lutou por “maior justiça e pela paz” e defendia que não há desenvolvimento sem combate à pobreza e às desigualdades. Acompanhada por Alfredo Bruto da Costa, com quem promoveu e publicou os primeiros estudos sobre a pobreza em Portugal (na década de 1980), Manuela Silva foi também a grande dinamizadora da ideia de converter em letra de lei a declaração da pobreza como violação dos direitos humanos.

“No combate à pobreza e à exclusão, cabe ao Estado um papel pró-activo no sentido de promover e orientar o desenvolvimento sustentável, de modo a impedir o agravamento das desigualdades e a excessiva concentração da riqueza e desempenhar um papel subsidiário do mercado de trabalho na absorção do desemprego e na regulação dos salários e demais direitos dos trabalhadores”, justificava ela, em Julho de 2010, num artigo de opinião do Público sobre o tema.

 

“Cidadã e católica irrequieta e empenhada”

No Público, aliás, publicou vários textos sobre os seus combates, incluindo para defender que as grandes empresas tinham de ter outro tipo de controlo que não apenas o dos accionistas. Elas decidem muito dos quotidianos dos povos e das pessoas e não podem ser deixadas apenas nas mãos dos investidores, insistia.

Essa visão provinha do seu rigoroso olhar de economista, mas que colocava sempre o serviço das pessoas no centro da economia. Em Novembro de 2012, em pleno período de intervenção da troika em Portugal, criticava o Governo de então por usar eufemismos para “esconder interesses do capital privado” e desmantelar o Estado social, como dizia numa entrevista ao Jornal de Negócios.

No ISEG, onde leccionou de 1970 a 1991, Manuela Silva presidiu ao Conselho Pedagógico, dirigiu a Revista de Estudos de Economia e um centro de pesquisa, tendo criado, na década de 1990, um mestrado em Economia e Política Social – factos que a escola também recordou na nota de homenagem que publicou.

Carlos Farinha Rodrigues, economista e colega na mesma escola, referiu-se na rede social Facebook ao legado da antiga professora nas suas vertentes de economista, académica e católica empenhada no estudo e divulgação do pensamento social da Igreja. Ela entendia a economia na perspectiva do serviço às pessoas e do desenvolvimento “sustentado e inclusivo”, escrevia. Também no Facebook, Ricardo Paes Mamede falava da “cidadã e católica irrequieta e empenhada”.

“Graças ao seu pensamento estratégico, ao seu comprometimento e à sua capacidade para inspirar, formar e confiar responsabilidades”, Manuela Silva dinamizou a criação do Centro de Estudos para a Intervenção Social (Cesis), que recordou ainda o papel pioneiro da sua fundadora não só na “intervenção e desenvolvimento comunitário ou nos estudos sobre a pobreza em Portugal e no desvelar das desigualdades entre mulheres e homens”, como também no levantar sempre a “voz, rigorosa e interpelante” em favor de “uma sociedade mais democrática, mais justa e mais igual”.

Manuela Silva no espaço de oração da Fundação Betânia, por ela criada. Foto © Maria do Céu Tostão

 

Livre e desassombrada

Filipe Coelho, professor luso-angolano do ISEG e membro do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa (CEPCEP, da Universidade Católica) recordou, também no momento do funeral, a dimensão pessoal e solidária da economista: um dia, Manuela Silva disse-lhe que gostaria de ajudar alguém que fosse apoiado pela Acções para um Mundo Unido (AMU), uma Organização Não-Governamental liderada por Filipe Coelho. Acabou a apoiar a concessão de uma bolsa de estudo para uma aluna de enfermagem que hoje tem um papel de líder em Angola, contou. A capacidade de uma vida despojada, solidária com outros mas sempre disponível para acolher era uma das suas características.

Também há anos que Manuela Silva entendia que o combate à pobreza não se podia isolar da luta contra a emergência climática. Filipe Coelho recordava a sua participação num colóquio sobre o tema, há já duas décadas; e ainda na semana anterior à sua morte, Manuela manifestara ao dirigente da AMU o seu entusiasmo com o encontro A Economia de Francisco, que decorrerá em Março do próximo ano.

Em declarações ao 7MARGENS no final de Julho, a própria afirmava, a propósito dessa iniciativa, que seria importante que a Universidade Católica Portuguesa (UCP) e outras instituições da Igreja aproveitassem o encontro para “rever os seus critérios” e pôr em questão iniciativas como a do “mestrado em marketing de produtos de luxo”. As escolas católicas são “as primeiras a formar gestores para a economia que mata”, acrescentava, referindo a expressão do Papa na exortação A Alegria do Evangelho.

Dentro da Igreja Católica, a voz livre e desassombrada de Manuela Silva não a inibiu de se empenhar em muitas iniciativas, chegando mesmo a ser, em vários mandatos, presidente e vice-presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP). No comunicado tornado público, a actual comissão destacava “o seu testemunho de dedicação constante e incansável às causas da Justiça e da Paz, inspirada no Evangelho e da doutrina social da Igreja”. Uma dedicação que incluiu os “âmbitos académico, social, político e eclesial”, sempre com “uma atenção especial à causa do combate à pobreza como violação dos direitos humanos”.

A “extraordinária capacidade de iniciativa, dinamismo e organização de trabalho em equipa” também se destacava em Manuela Silva, que “nunca esmoreceu na dedicação a essas causas, nem com o avançar da idade, nem com a doença que a veio a vitimar”, dizia ainda a CNJP no comunicado, considerando-a “um exemplo luminoso”.

 

“Ícone” social do catolicismo português

Num testemunho escrito enviado ao 7MARGENS, o presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, recordava os estudos sobre a pobreza que a economista coordenou com Alfredo Bruto da Costa e afirmava: “Manuela Silva, foi uma mulher exemplo para todos nós e uma referência para a Igreja em Portugal, foi o ícone daquilo que é o social da Igreja em Portugal.” Enquanto cidadã, “desde a sua juventude sempre se empenhou nas causas sociais e toda a sua vida foi marcada pela preocupação de procurar maior justiça e maior fraternidade para o mundo e de uma forma muito especial para Portugal”, acrescentava. “Partiu com o coração inundado de esperança. Ela estava a viver estes tempos da Igreja sob o pontificado do Papa Francisco com uma intensidade muito forte, muito animada por este tempo de renovação.”

A Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos, o Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, o Centro de Reflexão Cristã (do qual foi co-fundadora e presidente) destacaram também as diferentes facetas da intervenção de Manuela Silva. Ela era “o rosto português do combate à pobreza”, dizia a nota do CRC, que recordava ainda o seu combate “por uma participação activa das mulheres na vida da Igreja”, outra das suas lutas mais importantes.

O Movimento Nós Somos Igreja – Portugal (NSI – PT) destacava a “activista empenhada na renovação da Igreja e que durante toda a sua vida interveio nas áreas mais diversas e fundamentais para defesa desta causa”. A coordenação nacional do Metanoia acrescentava que Manuela Silva “soube como poucos ligar a vida e a investigação à procura de justiça para todos preferindo os mais pobres” que foi, na política, animada pela “atenção ao desenvolvimento e luta contra a pobreza”.

Da Conferência Episcopal Portuguesa ficou, através do seu porta-voz, o pesar pela morte de uma “mulher de causas sociais” nas quais colocava “testemunho e empenhamento”.

Do âmbito internacional, no qual Manuela Silva trabalhou em grupos de investigação da Comissão Europeia e do Conselho da Europa, chegou também uma mensagem do MIIC (Movimento Internacional de Intelectuais Católicos-Pax Romana), que referia a morte da “grande militante cristã”.

Foto © António José Paulino

 
“Novos alicerces culturais e espirituais”

Os seus textos de espiritualidade, nos quais aliava realidade social, intervenção política, leitura da Bíblia, reflexão pessoal e pensamento social cristão manifestam que a vida e a forma de pensar de Manuela Silva estavam profundamente ancoradas na Bíblia, na grande tradição mística e nos mais importantes teólogos e pensadores do cristianismo. Por isso, os seus livros de conferências e crónicas de espiritualidade – Utopia Cristã e Aventura Humana e Pelos Caminhos da Fé (Multinova), Ouvi do Vento (Pedra Angular), ou os mais recentes No Jardim do Peixe (Fundação Betânia) e Resiliência Criatividade Beleza (ed. Cidade Nova) – são “uma referência de espiritualidade e de empenhamento pela justiça”, escrevia o Metanoia.

A criação da Fundação Betânia, em 1990, responde à necessidade por ela sentida – e que tão bem colocava em prática – de aliar “novos alicerces culturais e espirituais, que conduzam à realização harmoniosa do ser humano, na sua globalidade, e abram caminhos a modos de vida e a relações sociais orientadas segundo o primado do amor”, como dizia o voto de pesar aprovado pela Assembleia Municipal de Lisboa.

Nos últimos anos, Manuela Silva empenhou-se em duas novas áreas: a reflexão sobre a educação das gerações mais jovens, para o que juntou educadores, psicólogos, sociólogos e professores; e a questão da emergência climática: impulsionada pela encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, dinamizou e foi “a grande alma da rede Cuidar da Casa Comum”, como recordou a actual equipa de direcção da estrutura.

Numa crónica intitulada “Olhar o trágico como um novo possível”, publicada no livro Resiliência Criatividade Beleza, Manuela Silva refere fenómenos como o êxodo dos refugiados, as catástrofes naturais e as tensões geopolíticas, para afirmar: “Estamos perante um gigantesco desafio cultural e espiritual, que supõe e impõe um redobrado empenhamento, a todos os níveis, designadamente na educação das gerações mais jovens, para uma nova concepção e vida boa e feliz, que se traduza em novos estilos de vida, modos de pensar e de agir, de produzir e consumir, de cuidar de si, dos outros, do próprio local, do País em que se vive e do Planeta Terra em que todos hoje habitamos e onde novas gerações irão habitar nos tempos que se hão-de seguir.”

Este era o programa da vida que Manuela Silva gostou de viver.

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