Manuela Silva: homenagem à pioneira do combate à exclusão e defensora da “economia de comunhão”

| 10 Jan 20

Manuela Silva na Fundação Betânia, por ela fundada. Foto © Maria do Céu Tostão

 

Pioneira no combate à exclusão e nos estudos sobre a pobreza em Portugal, Manuela Silva, que morreu a 7 de Outubro de 2019, será homenageada este sábado, 11 de Janeiro, num debate promovido pelo Centro de Reflexão Cristã (CRC), de Lisboa. A economista não se coibia de ser muito crítica com o sistema económico-financeiro dominante, mesmo se manteve até ao fim o seu olhar de esperança sobre a realidade.

O colóquio-homenagem, que decorre a partir das 10h30 na Igreja Paroquial de São Tomás de Aquino (às Laranjeiras) contará com os contributos de Carlos Farinha Rodrigues (que falará sobre o pensamento económico de Manuela Silva, preocupada com a satisfação das necessidades básicas de todos), Isabel Allegro de Magalhães (sobre o exemplo vital da economista e a sua acção em favor de uma Igreja “mais feminina”) e Rita Veiga (acerca do seu empenhamento na criação da Rede Cuidar da Casa Comum).

Outros testemunhos falarão de outras facetas da impulsionadora da Fundação Betânia e a actriz Susana Sá lerá textos de Manuela Silva, que foi também a dinamizadora da proposta que levou à consideração legal da pobreza como uma violação dos direitos humanos.

Personalidade de referência nacional e internacional, Manuela Silva foi ainda fundadora e dirigente do CRC. Esta iniciativa marca, aliás, o início das comemorações dos 45 anos do Centro de Reflexão Cristã, criado em 1975 por um conjunto de cristãos de diferente denominações que, como se dizia na época, estavam empenhados “numa evangelização libertadora e na libertação do povo português”.

Por ocasião da morte de Manuela Silva, o 7MARGENS publicou vários testemunhos acerca da importância do seu pensamento e da sua personalidade (basta colocar o nome na lupa de pesquisa e aparecerãos os títulos dos vários artigos). Regista-se a seguir um outro aspecto importante da sua actividade, sobretudo na sua última década e meia de vida. 

 

Manuela Silva, por uma “economia de comunhão”

Uma das características de Manuela Silva, que morreu [dia 7 de Outubro de 2019], foi ter-se empenhado sempre numa tarefa aparentemente simples, mas de facto extraordinária: colocar a economia ao serviço do bem comum, prestando uma peculiar atenção aos mais pobres. A “economia de comunhão”, propugnada por Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, colheu a simpatia da economista.

“Falar de ‘cultura do dar’ ou de ‘economia de comunhão’, num ambiente cultural e sócio-político, caracterizado pelo primado do ter, da concorrência agressiva e da obsessão do lucro, é, seguramente, erguer uma voz profética, com todo o peso do incómodo a que, por via de regra, a profecia está associada”, afirmou Manuela Silva (Pelos caminhos da fé. À esquina do terceiro milénio, Multinova: Lisboa, 1999). Sucintamente, disse ela, trata-se de “fazer emergir um novo paradigma de organização dos recursos materiais e humanos, que assente na realização do ser humano como pessoa livre, criativa e responsável e respeite critérios de solidariedade e de co-responsabilização face ao eco-sistema”.

Para Manuela Silva, torna-se necessário começar por reconhecer o mal-estar que existe, hoje, no mundo ocidental, em relação à economia de abundância. A situação é considerada paradoxal. Por um lado, como nunca, há uma extraordinária abundância de bens e de serviços postos ao dispor das populações, a ponto de, em certos países, se acumularem stocks difíceis de escoar, e um espectacular avanço da ciência e da tecnologia, susceptível de satisfazer necessidades e aspirações do ser humano. Por outro lado, o “sucesso económico” apresenta sombras e perplexidades.

Algumas “disfunções” são recordadas pela economista: “O desemprego massivo de carácter estrutural, que afecta largos sectores da população dos próprios países da prosperidade; a precariedade do vínculo laboral, desumanizante e desqualificadora do trabalho humano, que impende sobre uma grande parte da população activa, sobretudo as gerações mais jovens impedidas de poderem fazer a sua inserção de pleno direito nas sociedades a que pertencem; a desigualdade gritante na repartição do rendimento e das oportunidades de acesso aos frutos do desenvolvimento, dando lugar a fenómenos de dualismo, com pesadas consequências para a desejada coesão social; a marginalização e a exclusão social de grupos humanos em situação particularmente vulnerável, origem de múltiplos e graves problemas sociais e, no limite, ameaça e risco para a segurança e a paz social de todos”.

Manuela Silva em Julho de 2012, quando completou 80 anos. Foto © Maria do Céu Tostão

 

Manuela Silva acrescenta que a tudo isto, e ao que disto decorre, se somam as repercussões do modelo económico vigente nos países economicamente menos desenvolvidos. As que destaca são “o fosso crescente entre as economias do centro e da periferia, sendo que estas últimas compreendem mais de 2/3 da população do globo; a acentuada desregulação dos equilíbrios ecológicos e a ameaça séria que pesa sobre a sobrevivência do próprio planeta; a ilicitude em que vem assentando o comércio mundial, que leva à progressiva deterioração dos termos de troca, sempre em desfavor das economias mais débeis e, inclusivamente, provoca a desestruturação das respectivas economias, em detrimento das possibilidades de sobrevivência das suas populações mais carenciadas; o florescimento das indústrias da guerra, do tráfico de drogas e de outras actividades ilícitas e desumanizantes”.

Afirma Manuela Silva que, “quando se ousa olhar, com limpidez e sem preconceitos, a realidade da economia mundial, tal como esta hoje se apresenta, vem à mente a expressão ousada de Viviane Forrester: o modelo económico vigente apresenta-se não como um sucesso económico mas como um ‘horror económico’, tal é o cortejo das vítimas que o acompanha”. E julgar que o modelo vigente se reformará a si próprio e que se trata apenas de uma questão de “tempo para ajustamento” ou “melhor regulação” é uma ilusão, garante a economista, que deplora que esse modelo tenha conseguido impôr a sua “racionalidade” como única. “Fê-lo à custa do silenciamento das variáveis que definem o bem-estar humano, a solidariedade, o equilíbrio ecológico e a paz social, como se a economia fosse dotada de autonomia e justificação em si mesma e não devesse estar ao serviço daqueles bens superiores”.

Manuela Silva sublinha a existência de uma relação entre economia e ética, que evita que a economia se coloque em posição de “definir as suas finalidades no sistema fechado dos seus próprios critérios”. É por isso que o projecto de “economia de comunhão” pode vir a ter “um efeito ampliado num modelo económico, de raiz humanista e solidária, para o século XXI”. A “economia de comunhão”, constata, nasce da “visão despreconceituosa” de uma mulher, Chiara Lubich, em relação à economia”. A fundadora do Movimento dos Focolares “tem o grande mérito de ter ousado romper a espessa cortina do determinismo económico, sempre favorável ao status quo, isto é, à posição do mais forte”. A economista evoca o momento em que, diante de uma imensa multidão de marginalizados e excluídos (“figurados na coroa dos favelados em tomo da próspera cidade de São Paulo”), Chiara Lubich “ousa afirmar que não pode deixar de existir um outro modo de organizar a economia”. A ocasião, defende Manuela Silva, é propícia para o afirmar. A hora, aliás, já tarda.

(Texto publicado inicialmente no Diário do Minho, de 13 de Outubro de 2019)

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