Manuela Silva: um olhar inteiro, justo e solidário sobre a Terra inteira

| 8 Out 19 | Entre Margens, Últimas

Manuela Silva em Julho de 2012, quando completou 80 anos. Foto © Maria do Céu Tostão

 

Esperávamos a sua partida, mas acreditávamos que talvez fosse possível ainda continuar connosco. A Manuela Silva iniciou segunda-feira (7 de outubro) uma grande viagem e deixou-nos. Hoje, já são muitas as notícias e os testemunhos sobre quem foi e como foram envolvidos aqueles que tiveram o privilégio de com ela privar. Já não há muito para dizer, ou talvez esteja ainda tudo para dizer, porque importa que tudo continue a ser dito.

Não é verdade que a Manuela tenha iniciado uma outra grande viagem. Mudou de meio de transporte, mas apenas está continuando a viagem que vinha fazendo através da Terra inteira e com os seus múltiplos companheiros de percurso.

Quando alguém que nos é próximo de repente o deixa de o ser fisicamente, costumamos dizer: “Oxalá a sua memória permaneça entre nós”, como que a querer apanhá-la para guardar lá em casa numa caixinha bonitinha. Com a Manuela, não é preciso clamar pela memória; ela não é apropriável, nem susceptível de ser fechada num qualquer cofre.

Ela está entre nós (connosco), quer queiramos, quer não. E é assim, porque tal é uma consequência da abrangência do seu modo de estar e interpretar o mundo, a natureza, os homens e as mulheres, da sua personalidade forte, do rigor do seu empenhamento, da sua capacidade para fazer com os outros e da afetividade que transmitia aos que caminhavam com ela.

O título que encima este pequeno texto “um olhar inteiro, justo e solidário sobre a Terra inteira” é isso mesmo que pretende transmitir. O seu olhar não se pode meter dentro de gavetas, do género: fez isto, aquilo e aqueloutro. Era, é, um olhar inteiro, estando nele todos e cada um dos homens e mulheres, toda a Terra que nos foi doada e sobre a qual deveríamos ter como único critério de ação fazê-la maior, para que os que cá estamos e os que hão de vir sejam mais felizes, mais justos e mais solidários, cada um e uns com os outros.

Já perceberam que não pretendo trazer aqui uma nota biográfica que não acrescentaria nada ao que tem vindo a ser feito durante o dia de hoje. A Manuela tem vindo a ser referida, e bem, como a economista, a professora, a cidadã empenhada com as questões sociais e a pobreza. É verdade, mas não é tudo. Diria antes: a Manuela é uma cidadã do mundo de que todos esses empenhamentos são uma componente, mas não são todas as suas componentes.

Talvez não devesse acrescentar mais nada, porque não sei usar as palavras com a mestria suficiente para poder enobrecer quem é a Manuela. Talvez referir como que sinalizações da sua permanência connosco: a aluna brilhante, o seu empenhamento no Ministério dos Assuntos Sociais, o desenvolvimento comunitário, a educação, a militância em prol da justiça, da paz e da solidariedade, a natureza, a sustentabilidade, a animação do Grupo Economia e Sociedade, a Fundação Betânia e a busca do sentido da vida e do ser de cada um, o desenvolvimento da rede Cuidar da Casa Comum e todos os seus escritos que constituem água que brota da fonte que não seca.

A Manuela era uma força da natureza, como se costuma dizer, o que quer que isto signifique. Deixo-vos com dois episódios em que ela foi protagonista. Como aluna brilhante, quando terminou o curso, o diretor do então ISCEF-Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (uma prestigiada figura pública e ministro de Salazar) chamou-a e disse-lhe qualquer coisa como o seguinte: “Olhe, Manuela, nós queríamos contratá-la como assistente, mas como sabe temos uma dificuldade; é que a disciplina que é necessário manter nas aulas não é compatível com o termos senhoras como assistentes e, por isso, eu convido-a a ficar como responsável da animação da sala das alunas.” A Manuela arregalou os olhos, agradeceu e saiu pela porta fora.

O segundo, muito recente, passou-se comigo. Um dia telefonei-lhe para saber como estava. Disse que estava bem, mas que tinha passado a noite e a manhã a dormir por causa dos comprimidos que tinha tomado e que apesar de já estar a começar a ter dores, de novo, não podia continuar a tomar os comprimidos, porque senão ficava sem forças para fazer muitas das coisas que tinha que fazer.

Vejam a fibra!

 

Manuel Brandão Alves é economista e professor jubilado do Instituto Superior de Economia e Gestão

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