Mãos à obra (1) – Admiradores Secretos: fazer o bem sem saber a quem

| 11 Mar 2021

“Admiradores Secretos nasceu por uma razão concreta, num momento de grave crise para o país”. Foto: Cabaz de um doador © Animadores Secretos.

 

No último fim-de-semana de janeiro, durante a costumeira chamada telefónica de domingo, eu e a minha irmã mais velha comentávamos o aumento exponencial de necessidades das famílias portuguesas, e a dificuldade de algumas delas em pedir ajuda – muitas confrontadas pela primeira vez com a situação. Pessoas como nós, que tinham um emprego estável e uma situação financeira confortável e vivida com responsabilidade viram-se, em meio da pandemia, sem ter o que comer ou dar aos filhos para os alimentar.

Foi dessa informalidade que nasceu a ideia de criar um espaço onde fosse possível cruzar necessidades com disponibilidade de ajuda, uma espécie de ‘entreposto’, onde quem precisasse, sem ter de se identificar – isto para nós era fundamental, pudesse pedir auxílio. E onde quem tivesse disponibilidade para tal se pudesse inscrever como doador.

Queríamos algo direcionado, uma ajuda pontual, mas eficaz no suprir de necessidades concretas de pessoas concretas: queríamos que famílias com crianças recebessem fraldas e papas; que idosos recebessem leite e cola para as próteses; que famílias numerosas tivessem carne e peixe e legumes para poder fazer uma refeição decente e saudável. E queríamos garantir uma ajuda digna, com a menor exposição possível de quem está em dificuldades.

Foi nessa simplicidade e informalidade de sofá que criámos dois formulários (em Google Docs) que decidimos enviar aos nossos amigos com esse desafio: se puderem ajudar, inscrevam-se como doadores; se precisarem de ajuda ou souberem de alguém que precise, inscrevam-se para a receber. Aquilo a que nos comprometíamos era a fazer o cruzamento de necessidades e doações, por região, e pôr em contacto (discreto) as famílias. E de repente, nascia a Admiradores Secretos.

Fizemos um apelo nas nossas redes sociais e, aquilo que nos parecia um projeto familiar – com o qual “se conseguíssemos ajudar 10 famílias” cumpriria o seu papel – se transformou num caso sério! [O núcleo que gere a iniciativa é formado pela Margarida, as suas duas irmãs e um amigo]. No dia 2 de fevereiro fizemos o primeiro tweet e nessa tarde tínhamos um site montado – oferta de um amigo querido que viu a publicação no meu Twitter e pôs mãos à obra, espontaneamente –, notícias em meios de comunicação social nacionais e em 24h tínhamos mais de 100 doadores inscritos e 30 famílias a pedir ajuda.

Daí até aos atuais 5000 doadores inscritos e mais de 400 famílias ajudadas foram precisas apenas três semanas – e uma dúzia de amigos voluntários que, entretanto, tivemos que recrutar para nos ajudarem nesta missão, e que têm dado do seu tempo, da sua generosidade e dos seus conhecimentos para esta causa. Há três semanas que mais de uma dezena de pessoas se dedica diariamente a organizar bases de dados; a atualizar o site; a fazer cruzamentos de doadores com famílias a pedir ajuda; a responder a centenas de emails e a esclarecer dúvidas e a acompanhar processos; a gerir as redes sociais da plataforma; a falar publicamente do projeto…

Recebemos pedidos de ajuda de todo o país, e inscrições de doadores que extravasaram as nossas fronteiras: Bélgica, Tailândia, Angola, Luxemburgo… foram milhares de pessoas que confiaram em nós, e que se disponibilizaram para ajudar famílias que, sem o seu auxílio, passariam por dificuldades ainda mais sérias. Houve cabazes deixados à porta, outros encomendados online, outros entregues em lugares recatados para que membros da família em dificuldades não descobrissem que outros tinham apelado à generosidade da comunidade.

A Admiradores Secretos nasceu por uma razão concreta, num momento de grave crise para o país e desde o primeiro momento que sabíamos que ela tinha um prazo para acabar. Não porque não haja necessidades, mas porque sempre foi muito claro para nós que não podemos nem queremos substituir-nos a todas as organizações – e ao próprio Estado – que há vários anos estão no terreno a fazer de forma admirável este trabalho de apoio social. Depois, porque por uma questão de escrutínio e transparência, não fazia sentido fazer durar no tempo uma iniciativa da sociedade civil que evoluiu de uma forma orgânica e totalmente inesperada. E porque ajudas estruturadas exigem um acompanhamento e um conhecimento que só quem trabalha na área social pode assumir.

Nós somos apenas um grupo de jornalistas, cientistas, marketeers, professores, informáticos e afins que sentiram que precisavam de fazer algo pela comunidade, mas que não podem nem devem tentar fazer algo que vai muito para além das suas capacidades.

Só que como as sementes lançadas em boa terra geralmente têm por onde crescer, é com muita alegria que podemos revelar que recebemos o contacto de várias organizações de solidariedade social dispostas a pegar nesta ideia, e a aplicá-la regionalmente, pelo que estamos atualmente em negociações com as mesmas para que a Admiradores Secretos não tenha, afinal, um fim.

A plataforma, que nasceu com o objetivo de ajudar 10 famílias, entregou até dia 28 de fevereiro 461 cabazes, em todo o país. Graças à generosidade de centenas de pessoas, foram entregues a 461 famílias bens alimentares essenciais, mas também ovos de Páscoa, botijas de gás, peluches e uma quantidade extraordinária de amor, dignidade e esperança.

“Graças à generosidade de centenas de pessoas, foram entregues a 461 famílias bens alimentares essenciais”. Foto: Cabaz de um doador © Animadores Secretos

 

A Admiradores Secretos encontra-se atualmente fechada para novos pedidos de ajuda porque gostávamos muito de garantir que até dia 8 de março todos os 650 pedidos têm resposta, e porque gostávamos de, entretanto, fazer a passagem de testemunho para estas organizações que nos procuraram e que podem, em condições muito mais estruturadas, continuar a auxiliar todos aqueles que nos procuraram.

E porque temos a certeza de que houve algo que já conseguimos fazer: todos os doadores que se cruzaram com a nossa plataforma vão agora ter mais atenção às famílias que estão ao seu lado. E se conseguirmos contribuir para uma sociedade mais atenta, contribuímos para uma sociedade mais igual. Admirável. Ainda que secretamente.

 

Margarida Vaqueiro Lopes é jornalista das revistas Visão e Exame.

 

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