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Mãos à obra (8) – Lápis que escrevem histórias felizes

| 30/04/2021

Fomos novamente à Covilhã, desta vez pela mão de Rosa Carreira. Ita, como é conhecida, conta-nos como pequenos gestos gizados na colaboração e no envolvimento da comunidade podem construir solidariedade e escrever histórias de esperança. Por opção, as campanhas “Lápis Solidários” decorrem apenas nas pequenas mercearias e minimercados como forma de apoiar a economia local.

“A motivação das mercearias para venderem os lápis era forte, porque era óbvio que esta era uma forma de beneficiarem, uma vez que seria lá que os bens essenciais seriam adquiridos.” Foto © Coolabora

 

Esta história começa de forma muito simples, mas com efeitos em cadeia muito especiais. Apresentemos as personagens. A CooLabora é uma organização sem fins lucrativos que tem sede na Covilhã e apoia famílias em situação de exclusão social, procurando sempre que esse apoio se traduza na capacitação das pessoas, fugindo ao pendor assistencialista. Mas às vezes há que garantir necessidades básicas e por isso, o aparecimento da segunda personagem foi bem-vindo pela CooLabora: o projecto Entre Mundos é uma iniciativa de voluntariado criada por jovens estudantes de medicina da Universidade da Beira Interior, que a pandemia impediu de procurar outros mundos, pois era sua intenção estender a sua solidariedade até África.

Essa contingência e a vontade inabalável de ajudar levaram a que procurassem a CooLabora e nos fizessem uma proposta simples, mas poderosa: colocar à venda, em mercearias da Covilhã, lápis oferecidos pelo Entre Mundos, cujo valor seria usado na compra de bens nessas mesmas lojas para ajudar famílias em situação de grave carência devido à pandemia.

Os efeitos especiais começaram a surgir. O primeiro foi a boa adesão das três mercearias contactadas, um bom prenúncio, portanto. A motivação das mercearias para venderem os lápis era forte, não apenas pela ligação que os pequenos comerciantes têm com as suas comunidades, mas também porque era óbvio que esta era uma forma de beneficiarem, uma vez que seria lá que os bens essenciais seriam adquiridos.

Numa primeira fase ficaram à venda, com a devida divulgação nas lojas e nas redes sociais da CooLabora e do Entre Mundos, um total de 100 lápis. Cada lápis era vendido por um euro e era esse o valor que revertia para as famílias. Em pouco tempo, conseguimos que cerca de 50 famílias pudessem ver incluídos ovos frescos, nos cabazes de alimentos que já estávamos a entregar devido à pandemia e ao desemprego crescente.

Este foi outro dos efeitos especiais dos lápis solidários, pois habitualmente os cabazes são compostos por alimentos que não se deterioram rapidamente. Graças a esta iniciativa que nos permite adquirir os produtos no próprio dia da entrega, conseguimos começar a integrar produtos frescos nos cabazes, tornando-os mais saudáveis, mais bonitos e mais amigos do comércio local. Iogurtes e frutas foram-se juntando e, já que estávamos a tornar os cabazes tão apetitosos, lançámos uma campanha de recolha de livros para crianças.

E foi assim que apareceram os cabazes com alimentos para o corpo e para a alma. Havia agora que decidir que livros incluir em que cabazes, adaptando-os aos seus destinatários e isso implicava o conhecimento directo das famílias. O Projecto Quero Ser Mais, gerido pela CooLabora e financiado pelo Programa Escolhas, envolve crianças e jovens de contextos vulneráveis em actividades que contribuem para o desenvolvimento de competências que lhes permitam quebrar o círculo de exclusão em que nasceram, tornando-os protagonistas das mudanças que se mostram necessárias nas suas comunidades. Foram estas crianças que assumiram a responsabilidade de distribuir as dezenas de livros recebidos pelos cabazes. E assim surgiu mais um efeito especial: estas crianças quiseram ler os livros para poderem garantir uma distribuição acertada. Livros que estavam esquecidos em casas de pessoas, foram assim reabertos por estes voluntários espontâneos e lidos de novo pelos destinatários finais.

Coolabora. Covilhã

“E foi assim que apareceram os cabazes com alimentos para o corpo e para a alma.” Foto © Coolabora

 

O sucesso desta iniciativa levou os voluntários do Projecto Entre Mundos a desafiar de novo a CooLabora e agora com maior arrojo: convidar as mercearias a financiarem os lápis que iriam vender. Assim fizeram e desta vez em maiores quantidades. As mercearias e minimercados aceitaram e de novo se envolveram com entusiasmo na venda dos lápis cujo valor final seria investido nas próprias lojas. Aos poucos, esta ideia simples tem tomado corpo e já se contam por largas dezenas as famílias que receberam cabazes menos monótonos.

Até agora, foram convidadas seis mercearias/minimercados e todos aderiram. Os clientes têm também aderido bem, pois o valor que investem é simbólico, recebem um lápis que escreve histórias felizes e percebem que contribuem para a dinamização do comércio local. Será por isso que têm também surgido donativos nas mercearias aderentes.

O fim desta história continua por escrever, porque queremos que não acabe. Enquanto ela durar, sabe-se lá os efeitos especiais que ainda podem acontecer.

Rosa Carreira é sócia fundadora da CooLabora e acredita no poder dos pequenos gestos para transformar o mundo.

 

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