Padre de Lisboa morreu aos 72 anos

Marcelo evoca “figura carismática” do padre João Seabra, em declaração exclusiva ao 7M

| 3 Jun 2022

O padre João Seabra: carismático desde logo com os jovens, dizem muitos dos seus amigos. Foto: Direitos reservados

 

“Uma grande perda para a Igreja e para o país e, para mim, a perda de um dos maiores amigos da minha vida” é como o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, define, numa declaração exclusiva ao 7MARGENS, o desaparecimento do padre João Seabra, do Patriarcado de Lisboa. Aquele que foi, ainda no dizer de Marcelo, “das figuras mais carismáticas da Igreja Católica portuguesa nos últimos 40 anos, sobretudo nos anos 80/90 até à viragem do século”, morreu na noite desta sexta-feira, 3 de Junho, de acordo com uma informação oficial do Patriarcado. Tinha 72 anos.

João Maria Félix da Costa Seabra nasceu em Lisboa, a 14 de Setembro de 1949. Licenciado pela Faculdade de Direito de Lisboa, só depois de concluir o curso, onde foi colega de Marcelo Rebelo de Sousa, decidiria entrar para o Seminário dos Olivais, em 1973. Licenciou-se em Teologia, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), e em Direito Canónico, na Universidade de Salamanca. Foi ordenado padre a 5 de Novembro de 1978, pelo cardeal António Ribeiro.

Em Novembro de 2018, assinalando os 40 anos dessa data, quando já estava doente, João Seabra dizia que a sua vida consistira “só nisto: dar-[se] todo à obra da Igreja”, mas acrescentando que esta “não existe para si própria”, antes “para que Cristo se possa encontrar com cada homem, para que cada homem se possa encontrar com Cristo.”

Doutorado em Direito Canónico pela Universidade Pontifícia Urbaniana, foi nomeado cónego da Sé Patriarcal de Lisboa e director do Instituto Superior de Direito Canónico, da UCP, onde também exerceu o cargo de capelão. Pároco em Santos-o-Velho e na Encarnação, ao Chiado, foi João Seabra quem trouxe para Portugal o movimento Comunhão e Libertação (CL), fundado em Milão (Itália) pelo padre Luigi Giussani, que dá prioridade à educação com o objectivo de formar elites inspiradas pela fé cristã. Assistente de equipas de casais, foi também fundador da associação dona do Colégio São Tomás, em Lisboa, e do Ramalhão, em Sintra.

É precisamente esse percurso de pároco, capelão da UCP, introdutor da Comunhão e Libertação em Portugal, formador de jovens, formador de casais e pensador que o Presidente evoca na declaração ao 7MARGENS. Recordando a amizade que os ligava desde os 12 anos – “está entre os dois ou três maiores amigos da minha vida” –, vizinhos da mesma rua que “todos os dias [estavam] em casa um do outro”, Marcelo acrescenta: “Marcou milhares de pessoas de várias gerações, com a sua posição muito forte, muito determinada, muito corajosa, muto coerente nos seus ideais.” Ao mesmo tempo, acrescenta Marcelo, João Seabra era e foi “muito lutador”, incluindo no “período final da sua vida, muito longo, em que, à semelhança d[o Papa] João Paulo II, encarnou uma série de sofrimentos e de provações mostrando que também isso faz parte da vida e também isso deve ser vivido, e ele vivia, de acordo com a sua fé”.

No Palácio de Belém, no final do concerto com José Cid, no segundo dia da Festa do Livro, o Presidente recordava também as “posições muito firmes” do padre Seabra: “Era monárquico, por exemplo; era um homem conservador, tinha uma leitura do Vaticano II que nem sempre concordava com aquela que eu perfilhava e que outros perfilhavam.” Mesmo assim, Marcelo aponta o seu lado “carismático, brilhante, inteligente e lutador” que marcou muito católicos. “Sobretudo num período difícil empolgou a juventude e manteve-a ligada à Igreja Católica e à presença da Igreja Católica na sociedade. E ainda teve energia para criar um colégio, para se lançar na tarefa de ser o líder de uma comunidade educativa.”

Marcelo tinha estado com o padre Seabra há poucos meses, já este ano, e tinha-o condecorado com o grau de grande-oficial da Ordem do Infante D. Henrique. “Era um grande orador. Pensava e funcionava com o digital – funcionou quase até ao fim com o digital, mas deixou de poder usar a sua voz e a sua presença que era verdadeiramente impressiva”, recorda.

Na nota que, ainda nesta noite, fez publicar na página da Presidência, Marcelo resume ainda: “Homem da fé e da razão, da acção e do pensamento, mostrou-se sempre incansável na defesa não apenas das suas convicções mas da verdade cristã que professava, apostado na formação dos jovens, defensor da necessidade de dar testemunho e de não temer ir contra a corrente.”

 

Contra a corrente

“Uma personalidade marcante”, diz dele o actual patriarca de Lisboa, que foi colega de seminário de João Seabra. Foto: Direitos reservados.

 

Essa ideia de ir contra a corrente levava-o a tomar posições que raramente agradavam a todos. Desde os tempos em que frequentou a Faculdade de Teologia, contestando as influências que o Concílio Vaticano II, primeiro, e a Revolução de Abril, depois, incutiam nos estudantes, muitos dos quais futuros padres, no sentido da participação, da democraticidade ou da ligação do Evangelho à justiça social. Aliás, da sua passagem pela UCP – sobretudo mais tarde, como capelão – ficaria uma ligação profunda a muitos estudantes, nomeadamente nas áreas do Direito e da Economia – esta última, criticada muitas vezes por se colar a sectores da direita política e financeira do país.

Na década de 1990, João Seabra elogiou o então secretário de Estado Sousa Lara por ter retirado Saramago da lista de candidatos portugueses a um prémio europeu; mais tarde, seria um crítico acérrimo da Lei de Liberdade Religiosa, em nome do que considerava o lugar da Igreja Católica na sociedade portuguesa. Não gostando de que se criticasse o Papa – na altura, João Paulo II –, admitia que, se fosse Paulo VI, teria mais dificuldade em ele próprio não o criticar.

Autor de vários livros, os seus mais próximos e os seus admiradores sublinhavam em João Seabra as capacidades de acompanhamento e paternidade espirituais, de entusiasmar outros, de os cativar – e daí também a sua popularidade entre gerações de jovens. O livro João Seabra – à Sua maneira, de José Luís Ramos Pinheiro e Raquel Abecasis, dá voz a um conjunto de amigos, conhecidos, clérigos e outras pessoas que com ele se cruzaram e que, nas diferentes fases da sua vida, destacam o “desassombro e a lucidez com que fala do que interessa, a começar pela fé”, como escrevem os autores do livro.

O livro Não Sou Dono da Verdade, Mas Sou Possuído Por Ela reúne também um conjunto de testemunhos de amigos, incluindo Marcelo Rebelo de Sousa, Manuel Braga da Cruz, Duarte de Bragança, o economista João César das Neves, padre Duarte da Cunha, Henrique Leitão, Aura Miguel, José Milhazes, Jaime Nogueira Pinto, Isilda Pegado, Pedro Santana Lopes ou Zita Seabra.

Os que não apreciavam as suas ideias criticavam-lhe a arrogância aparente, por vezes quase a roçar a má educação, para quem não conhecesse o seu modo frontal e ríspido. No seu livro Visitas ao Poder, de 1993, a socióloga Maria Filomena Mónica confessa-se “fascinada e indignada” ao mesmo tempo. “Fascinada, por encontrar alguém aparentemente imune (…) aos ‘sinais dos tempos’; indignada, pelo perigo que estas posições contêm para a sociedade tolerante onde eu gostaria de viver.”

O patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, que foi colega de João Seabra no seminário, escrevia no prefácio de Não Sou Dono da Verdade… que o seu amigo era “uma personalidade marcante”. E explicava: “O seu modo ao mesmo tempo convicto e desempoeirado de estar como padre fosse onde fosse e com quem fosse; a sua sensibilidade e piedade; a disponibilidade para acolher ou procurar os colegas, convivendo, escutando e aconselhando – tudo isto nos marcou, marca e estimula.”

As exéquias de João Seabra decorrem na próxima segunda-feira, 6, às 10h, na Sé Patriarcal de Lisboa, sendo presididas pelo cardeal-patriarca. A partir deste sábado à tarde, o corpo do padre Seabra estará em câmara-ardente no Colégio de São Tomás (Quinta das Conchas, ao Lumiar), em Lisboa.

 

Luigino Bruni: “Se organizarmos a JMJ Lisboa como há dez anos, será um falhanço total”

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Gratuito e universal

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