Coração Silenciado em Belém

Marcelo quer Estado a investigar abusos na Igreja e a gerir indemnizações

| 12 Jan 2024

Marcelo, entrevista RTP+Público, abusos sexuais

O Presidente da República em entrevista à RTP e jornal Público em Março de 2023, falando sobre os abusos sexuais na Igreja. Imagem captada do vídeo

 

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sugeriu esta sexta-feira a criação de uma comissão independente tutelada pelo Estado para investigar os abusos sexuais na Igreja Católica, disseram responsáveis da Associação Coração Silenciado à saída de uma audiência com o chefe de Estado.

Citado pela Lusa, segundo notícia reproduzida pela CNN Portugal, António Grosso, um dos responsáveis da Associação afirmou à saída da audiência que o Presidente defendeu ainda que “é responsabilidade do Estado o problema das indemnizações, não deixando de reconhecer que a Igreja tem de tratar do assunto também”.

Cristina Amaral e António Grosso, vítimas de abusos de membros da Igreja Católica e representantes da associação de vítimas, disseram que a sugestão de uma comissão estatal partiu do Presidente. À saída da audiência com o chefe de Estado, que decorreu ao final da tarde no Palácio de Belém, em Lisboa, acrescentaram que a sugestão tem por base o modelo seguido em Espanha, onde foi feita uma investigação pública, sem interferência ou participação da Igreja.

“A sugestão do senhor Presidente foi muito clara: não vamos dizer à Igreja para investigar a Igreja, basicamente foi o que ele nos disse. As comissões que existem têm como patrocínio e como iniciativa a Igreja e o que nós vínhamos aqui sugerir era exatamente” uma comissão pública.  “O senhor Presidente teve muita empatia pela nossa causa e as primeiras palavras foram dele. Há aqui uma responsabilidade do Estado. Vínhamos nós com essa ideia, mas foi o Presidente a sugeri-la primeiro”, disse Cristina Amaral.

A justificação para uma responsabilidade estatal nesta matéria, explicou António Grosso referindo-se ao entendimento do chefe de Estado, deriva da responsabilidade política perante um dever constitucional de protecção das crianças.

Os representantes da associação disseram ter ainda obtido de Marcelo Rebelo de Sousa a garantia de que na próxima legislatura irá sensibilizar Governo e Assembleia da República para o tema.

 

Encontro com bispos no domingo

Os bispos em assembleia plenária em Abril 2022: as vítimas querem mais, da parte da hierarquia da Igreja. Foto © Agência Ecclesia/PR

 

No caso da Igreja Católica e da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), com cuja presidência a Associação Coração Silenciado se reúne no domingo, 14, António Grosso e Cristina Amaral dizem querer sensibilizar para o dever de assumir responsabilidade idêntica, ao reconhecer a sua “responsabilidade colectiva enquanto instituição para indemnizar materialmente”.

Deixando críticas à hierarquia católica, António Grosso acusou a instituição de estar “numa de esmolas”, ao “pagar comprimidos e consultas”, o que o responsável rejeita como solução, pedindo uma “atitude mais forte”.

“A Igreja Católica pouco se tem mexido para ajudar as vítimas. É preciso que haja alguma atitude mais forte, que a Igreja se chegue à frente e traga um plano de indemnizações, para o qual não é preciso grande criatividade: as indemnizações pagas pela Igreja Católica já foram realizadas em muitas partes do mundo. Há milhares de pessoas que precisariam de ser compensadas materialmente, porque não há outra forma”, disse ainda.

António Grosso recordou o “papel brilhante” da Comissão Independente liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht, que há cerca de um ano apresentou um relatório com 512 testemunhos validados de crianças e jovens abusados pela igreja desde 1950.

“Existem 512 provas testemunhais do que foram os crimes sórdidos, hediondos e imorais – e do ponto de vista da religião pecados mortais – sobre crianças e jovens durante as últimas décadas. No entanto essas provas testemunhais de nada têm servido, para a Igreja nem para o Estado”, disse, tendo mais tarde ironizado, sobre a ausência de provas materiais: “Em 1950, 1960, 1970, esquecemo-nos de levar o telemóvel para o confessionário para filmar.”

António Grosso defendeu que a “prova testemunhal” tem de ter consequências, criticando a Igreja por se refugiar em crimes prescritos, clérigos entretanto falecidos ou na necessidade de avaliar caso a caso para adiar a assunção de responsabilidades.

“Para nós não é assim, o caso é só um, a instituição chama-se Igreja Católica portuguesa. O crime não foi apenas cometido por aqueles que o realizaram, mas também por aqueles que o encobriram”, disse.

Na reunião de domingo com a CEP, a associação pretende pedir ainda o fim das prescrições destes crimes na lei canónica, algo que também pretendem que aconteça na lei civil, considerando a existência de prazos “um absurdo” quando se sabe que uma vítima de abusos sexuais pode precisar de quatro a cinco décadas para conseguir revelar o que sofreu. “A dor não prescreve”, concluiu António Grosso.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Irritações e sol na cara

Irritações e sol na cara novidade

“Todos os dias têm muito para correr mal, sim. Mas pode-se passar pela vida irritado? Apitos e palavras desagradáveis, respirações impacientes, sempre com o “não posso mais” na boca.” – A crónica de Inês Patrício, a partir de Berlim

A cor do racismo

A cor do racismo novidade

O que espero de todos é que nos tornemos cada vez mais gente de bem. O que espero dos que tolamente se afirmam como “portugueses de bem” é que se deem conta do ridículo e da pobreza de espírito que ostentam. E que não se armem em cristãos, porque o Cristianismo está nas antípodas das ideias perigosas que propõem.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This