Marco Beasley em Sintra: Como sem esta música poderíamos estar?

| 25 Mai 19

Foto © PSML/Luis Duarte

 

Tome-se o exemplo da tarantella tradicional da Apúlia italiana Como sencza la vita poi campare (“Como sem vida posso estar”). Entram primeiro as castanholas a marcar o compasso, depois os instrumentos de corda (alaúde, arquialaúde, guitarra barroca e colascione) e só depois a voz poderosa do tenor Marco Beasley: “Como sem vida posso estar?/
 Como posso sem coração bem querer?/ Como sem alma vos posso salvar?/ Como posso sem olhos bem ver?/ Como sem língua posso falar?/
 Como sem corpo posso me suster?/ Como sem vós posso continuar?/ Destes-me tudo o que ser e ter.”

Como sem esta música poderíamos estar? O concerto que nesta noite de sábado, dia 25 (às 21h30), encerra o ciclo Reencontros – 5ª Temporada de Música da Parques de Sintra promete ser intenso, divertido, profundo, íntimo, quente. Numa viagem por temas tradicionais do século XVI, entre a Apúlia e Nápoles, a que deu o título de Sul, poderá ver-se toda a riqueza e pluriformidade de um cancioneiro tão abundante quanto musicalmente excepcional.

Marco Beasley é um dos tenores mais destacados da actualidade, exímio na interpretação da música italiana antiga, tradicional e erudita, sacra e profana – e tudo isto com uma presença em palco marcada pelo expressionismo dramático. No programa para esta noite de sábado na Sala dos Cisnes do Palácio de Sintra, escreve ele: “Aqui, nesta 
era de globalização, lendas antigas de milhares de anos continuam a ser contadas, e os rituais sobrevivem. 
As histórias destas terras são antigas, como os versos que nos acompanham nesta jornada. Poetas da Natureza, poetas de mil palavras, de mil canções, que contam histórias de crianças e de amores
do passado, da dor da perda e da alegria do encontro de novas amizades. Sud é isto e muito mais.”

Nesta viagem, acrescenta, os espectadores afortunados que puderem ver o concerto serão acompanhados pela “mestria antiga disfarçada de simplicidade” de Stefano Rocco (no arquialaúde e guitarra barroca) e Fabio Accurso (alaúde), com estes “eternos instrumentos de viagem”, aos quais se juntam o colascionede Leonardo Massa e as pandeiretas tambores de Vito de Lorenzi, instrumentos tradicionais napolitanos. Tudo isto, seguindo os passos de dança de Lieselotte Volckaert, “uma mulher do norte que, dançando, nos narra a paixão do sul”.

 

Dos bosques aos encantamentos

Marco Beasley fechará assim, com chave de ouro, um ciclo de quatro concertos onde foi possível ouvir intérpretes e cancioneiros de primeira qualidade: depois de Jean Tubéry e do Ensemble La Fenice (dia 4), o segundo concerto trouxe o Ensemble Clément Janequin, dirigido por Dominique Visse, com música de Clément Janequin e contemporâneos, a chanson francesa do século XVI.

O Ensemble Clément Janequin: cantar à volta da mesa. Foto © PSML/Pedro Lopes

 

Música de salão ou de divertimentos de pequenos grupos, estas peças eram cantadas em ocasiões em que as pessoas e juntavam à mesa e se divertiam. Por isso, o modo de encenação do Ensemble em palco procurou recriar esse ambiente: sentados em redor de uma mesa, desfiavam canções que tanto celebravam o prazer da mesa como a jocosidade ou os jogos de sedução e os galanteios.

Além da disposição em palco, a iluminação – centrada na mesa, no candeeiro que ali se encontrava e no texto – também contribuía para essa recriação do que seriam momentos que atravessavam todas as classes de modo a celebrar a vida. No final, um encorefoi buscar uma outra belíssima peça de Claudin de Sermisy, Au joli bois(No lindo bosque), onde se canta a passagem da tristeza à alegria.

Ensemble Arte Musica, sábado passado. Foto © PSML/Luís Duarte

 

O terceiro concerto, sábado passado, 18 de Maio, foi de novo uma viagem primorosa com os italianos do Ensemble Arte Musica, dirigidos por Francesco Cera, através da múcida de Claudio Monteverdi e Sigismondo d’India. De novo, o “poder dramático dos textos” de Sigismondo e os Madrigali Guerriere et Amorosi, de Monteverdi, possibilitaram uma extraordinária experiência do “recitar cantando”, a forma musical que pretendia transmitir o sentido dos poemas através de uma voz a solo que era acompanhada por basso contínuo.

No início e no final do concerto, destacou-se a visão quase bélica do amor – luta e conquista, derrota e sofrimento –, que depois contrastava, durante o seu desenrolar, com a perspectiva mais delicada, apaixonada ou meditativa. O cravo, instrumento central em Monteverdi, Sigismondo ou ainda Frescobaldi e Corbetta, dos quais também se ouviram peças, foi no concerto um factor de ligação essencial. Executado pelo director do ensemble, Francesco Cera, era nele que se sintetizavam as vozes das duas sopranos e dos dois tenores, bem como a viola de gamba, o lirone, a teoria e a guitarra barroca.

Um ciclo entre a luz e a alegria, os bosques e os encantamentos.

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