Maria Antónia Leite Siza, 50 anos depois

| 17 Set 2022

Maria Antónia, a “grande musa” de Siza Vieira. Foto © José Grade/Museu Serralves

Maria Antónia, a “grande musa” de Siza Vieira. Foto © José Grade/Museu Serralves

 

 

Parei no Porto para visitar uma exposição dedicada à artista Maria Antónia Marinho Leite Siza Vieira (1940-1973), organizada a partir de um conjunto de cem desenhos doados pelo marido, o arquiteto Álvaro Siza Vieira, à Fundação Serralves.

Confesso a minha profunda emoção: não só porque desde sempre admirei a obra da Maria Antónia Siza, mas por saber que ela foi a grande musa de Siza Vieira, a mulher que ele muito amou. Maria Antónia também o amou apaixonadamente. Era uma figura solar: muito bela, criativa, comunicativa, alegre. Mas era também uma figura trágica por quem experimento uma profunda compaixão.

Maria Antónia Siza morreu em 1973 com apenas 32 anos de idade de uma embolia pulmonar. Teve dois filhos de Álvaro Siza. Também podemos encontrar algumas das suas obras na coleção de arte moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. Lembro-me de ouvir falar da sua morte prematura, tinha pouco mais de 20 anos. Fora aluna de “Trabalhos Manuais” de sua irmã, Maria Luísa Marinho, no liceu Carolina Michaelis no Porto.

Em corajosa conta-corrente à eclosão e prevalência da pintura abstrata – era dominante na altura –, Maria Antónia Siza, com uma imensa originalidade (diria genialidade), é sobretudo conhecida pelo seu desenho figurativo a tinta-da-china, alguns deles feitos de um só traço, prolongando-se em meandros de silhuetas, muitas delas contorcidas, angustiadas, desesperadas. Foi profundamente marcada por uma educação tradicional católica, pela doença psicológica – uma grave depressão após o segundo parto –, impregnada pelo “medo do pecado” e outros medos (ir para o inferno, por exemplo), culpas, angústias, inquietações religiosas – vejam-se os desenhos O beijo de Judas e Bodas de Caná ou as figuras distorcidas de representantes eclesiásticos.

Maria Antónia liberta-se desta opressão quando começa a frequentar o curso de pintura da Escola de Belas Artes do Porto – um caminho aberto e novo! –, inserindo-se na cultura contracorrente dos anos 60 e integrando-se num círculo de amigos artistas ou arquitetos do qual Álvaro Siza Vieira fazia parte: Alcino Soutinho, Alexandre Alves Costa, José Rodrigues, Ângelo de Sousa, Jorge Pinheiro. Ouviam jazz – Maria Antónia considerava que o jazz de Dave Brubeck “a levava às alturas” –, viajavam em conjunto, faziam serões, escreviam.  Siza Vieira afirma que quase desistiu ele próprio de desenhar quando se deparou com a qualidade dos desenhos de Maria Antónia.

 

Uma das obras de Maria Antónia: “Percorro aquele caminho sentindo-me a madrugada, com os lobos a uivar e o sol prestes a nascer.” Direitos reservados

Uma das obras de Maria Antónia: “Percorro aquele caminho sentindo-me a madrugada, com os lobos a uivar e o sol prestes a nascer.” Direitos reservados

 

Apesar da sua felicidade e afinidade cultural e artística com Siza Vieira, Maria Antónia vivia tormentos interiores e angústias que bloqueavam a sua capacidade de criar. Afirma Maria Antónia: “Percorro aquele caminho sentindo-me a madrugada, com os lobos a uivar e o sol prestes a nascer.” Ao recuperar desses regulares bloqueios era capaz de fazer 30 desenhos num dia, lembra Álvaro Siza Vieira. “Acontecia-lhe o desejo do desenho” (Valdemar Cruz, Expresso, 2 de setembro de 2022). Mas nos seus desenhos abundam corpos atormentados, expressão da dificuldade nas relações com a sua família conservadora, a ditadura, a guerra, as difíceis condições de Portugal: um “turbilhão interno” (ibid.). O universo onírico do leito (cama) é objeto de muitos e contraditórios desenhos. Muita comunhão e muita solidão, alternadamente. Sensualidade e vazio. Em linhas curvas e retas “articulava corpos em fragmentos” (ibid.). Desenha a silhueta ou a face do marido com infinita ternura, não raras vezes com subtil humor.

Utilizava uma técnica, diz Álvaro Siza, desenvolvida ao arrepio “de todas as regras ortodoxas”. “É muito difícil. Há as proporções gerais do corpo. Se se começa por um pé, por um dedo, facilmente se falha nas proporções. Há muita gente que esbarra quando chega aos pés ou às mãos”. Maria Antónia era sublime nesse percurso da mão. Mais tarde, quando a mão lhe tremia, começou a desenhar silhuetas a aguarela ou a óleo. O reconhecido arquiteto Alexandre Alves Costa revela aquela de quem diz ter sido a mulher mais interessante que conheceu: “algo fora do normal, o que dava um carácter quase surrealista às coisas que desenhava (…), apresentava um mundo pelo menos estranho”. Continuando, afirma: “Inventou um mundo novo: um mundo libertário, muito sensual, muito físico” e de igual modo perturbante. Ao ponto de, assegura, “possuir algumas pinturas dela que não se atreve a colocar na parede”.

Afirma Madelon Vriesendorp (no catálogo da exposição, p.13): “Aparentemente automáticos, os seus desenhos à pena são por vezes de uma precisão lúdica, acompanhando rostos e corpos contorcidos, isolados ou em grupo, em posições algo desconfortáveis e ao que tudo indica tentando conter as emoções ou uma gargalhada interior”. Figuras surrealistas.

 

Os desenhos de Maria Antónia entre a “precisão lúdica” e o “drama”. Direitos reservados.

Os desenhos de Maria Antónia entre a “precisão lúdica” e o “drama”. Direitos reservados.

 

José Luís Porfírio, crítico de arte, descreve os seus desenhos: “Há nos desenhos de Maria Antónia um lado de exceção que muito [me] interessa, e não tanto “a pessoa que só desenha muito bem”. Percebe-se “que há ali um drama”, prossegue. Para o crítico, a artista, “estava presa dentro da própria cabeça e representa uma singularidade”. Porfírio revela-se convencido de que “Maria Antónia e os seus desenhos terão sido um enigma para Álvaro Siza”. O sofrimento “que os desenhos dela representam merece respeito”, sustenta.

Ao deambular pela exposição surpreenderam-me as suas gravuras em linóleo, verdadeiramente sublimes, sem desenho prévio, delineadas ao movimento da goiva, orientadas por um “infalível instinto”, segundo Siza Vieira. Mais uma vez figuras antropomórficas. Trágicas.

Há uma predominância de figuras femininas nos desenhos de Maria Antónia: a condição bela e simultaneamente angustiante de ser mulher. O corpo. Sentimentos contraditórios: humor, angústia, rebeldia, contradições, desejo no feminino… Na exposição de trabalhos artísticos de mulheres Tudo o Que Eu Quero (Fundação Gulbenkian, 2021) figuram alguns dos seus trabalhos.

As obras de Maria Antónia Siza não são apenas em papel e tinta-da-china: faz aguarelas, gravuras, guaches e pintura a óleo, mas também bordados. A sua produção ficará no entanto desconhecida do público até muito recentemente. Por isso esta exposição na Fundação Serralves é tão importante.

Maria Antónia refere-se a uma igreja que visita em Pádua, com as paredes revestidas a pinturas de Giotto: “Ao pé disto, tudo é relativo.” Eis Maria Antónia: a elevação espiritual, a inquietude face a Deus, a arte no seu sentido mais puro. Tragédia e compaixão. A arte “salvou” Maria Antónia Leite Siza, tornou-a eterna. Pelo menos para alguns de nós.

 

Maria Antónia Leite Siza, 50 Anos Depois

Biblioteca do Museu da Fundação Serralves

Rua D. João de Castro, 210 – 4150-417 Porto
Segunda a sexta, das 10h às 18h
Sábado, Domingo e Feriados, das 10.00 às 19.00
Até fevereiro 2023

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante do Movimento do Graal; contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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