A “maior teóloga” lusófona

Maria Clara Bingemer: O rosto da Igreja está a tornar-se mais feminino

| 9 Mar 2024

Dela disse o actual cardeal José Tolentino Mendonça que é “a maior teóloga a pensar e a escrever em língua portuguesa”. Professora na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, Maria Clara Bingemer é um nome incontornável no pensamento teológico contemporâneo. Com uma personalidade afável e bem disposta, e com uma grande capacidade de fazer humor, a sua linguagem tem a capacidade de ser facilmente compreendida por todos.

Autora de Viver Como Crentes no Mundo em Mudança, Simone Weil – Mística de Fronteira e Experiência de Deus na Contemporanidade, publicados em Portugal pela Paulinas, Maria Clara Bingemer diz, nesta entrevista ao 7MARGENS, que a mobilização dos jovens pelo clima é um lugar teológico. Nascida no Rio de Janeiro, casada há 55 anos, com três filhos e cinco netos, a teóloga coordenou o Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, entre 1994 e 2004, e foi decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas, entre 2004 e 2010. Entre as suas obras mais recentes, editadas no Brasil, estão O mistério e o mundo e Um rosto para Deus?

Esta entrevista, feita numa sua passagem recente por Portugal, foi acrescentada com as três perguntas iniciais, a propósito da sua nomeação como consultora da secretaria-geral do Sínodo dos Bispos.

 

Maria Clara Bingemer no Porto

Maria Clara Bingemer no Porto, em Novembro de 2019. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

7MARGENS – Foi nomeada há poucas semanas como consultora da Secretaria-Geral do Sínodo. Como reagiu a essa nomeação?

MARIA CLARA BINGEMER (MCB) – Reagi com certa surpresa. Já havia sido sondada sobre se teria disponibilidade há um bom tempo atrás. Como não havia recebido nenhuma comunicação a respeito, achei que era assunto encerrado. Por isso fiquei surpresa quando o anúncio da nomeação chegou. Mas o que mais me impressionou foi a quantidade de pessoas que me felicitou, que me escreveu, que me disse que espera que eu, como mulher, marque presença. Foi isso que mais me impressionou e me fez ver que o Sínodo realmente chega às pessoas, chega ao povo de Deus, que espera que dali saia algo novo e bom para a Igreja. Nesse sentido, recebo essa missão com desejo de cumpri-la o melhor possível. 

7M – Em Outubro, pela primeira vez, houve mulheres a votar na assembleia do Sínodo dos Bispos. Havia quem quisesse mais, houve quem criticasse o Papa por dar o voto a pessoas que não são bispos… O Papa Francisco está de facto a abrir caminho para mais responsabilidades das mulheres na Igreja ou isto é só aparência?

Gostaria de destacar o que o pontificado de Francisco fez em relação às mulheres… Embora as feministas não estejam satisfeitas porque gostariam de mais, o facto é que a presença das mulheres cresceu dentro da Igreja. Em pontos estratégicos, especialmente nos pontos de tomada de decisão, há uma maior visibilidade de mulheres ocupando cargos, tomando decisões, transformando o futuro. Factos eclesiológicos foram assim criados porque as mulheres estão começando a ocupar espaços que nunca ocuparam antes. A face da Igreja, o rosto eclesial está se tornando mais feminino. E isso, na minha opinião, é viver e praticar a sinodalidade.

O Papa Francisco não abriu a ordenação para as mulheres, embora tenha criado e confirmado o grupo de estudos sobre o diaconado feminino. Mas nomeou muitas mulheres para cargos importantes. Parece-me um primeiro passo, fecundo e promissor, para ir mudando positivamente a história. 

7M – São Paulo refere várias mulheres que deixou a liderar as comunidades que ele fundou; muitas teólogas e teólogos defendem que nos primeiros séculos havia mulheres diáconos e que essa experiência deve ser retomada. Como olha para esses dois debates?

Creio que na verdade hoje continua acontecendo o que acontecia na Igreja paulina. A mulher nunca cessou de realizar estes serviços e ministérios. A Igreja sempre contou com elas, que são maioria dentro do tecido eclesial. Paulo oficializou essa ministerialidade feminina. Depois, a Igreja se tornou mais clerical e rigidamente estruturada e esse espaço foi fechado oficialmente. Mas oficiosamente as mulheres continuaram a atuar e servir ativamente a Igreja. As religiosas têm feito coisas esplêndidas. 

E também as leigas. Há muitas mulheres teólogas. Em um país como o Brasil, onde há pouco clero para o tamanho do país, as mulheres na verdade assumem a totalidade dos serviços eclesiais: não apenas dão catequese, mas organizam e realizam as celebrações dominicais. O padre só passa lá uma vez ao mês, se tanto, pois tem muitas outras comunidades que atender. Mas a comunidade não fica sem celebração. Fica apenas sem a Eucaristia. Isso chegou a ser mencionado na reunião [da Conferência Episcopal Latino-Americana] de Aparecida, mas afinal não foi para a frente em termos de mudança concreta. As mulheres teólogas hoje ocupam cada vez mais espaço. Ainda são discriminadas, mas estão aprendendo a lutar. No Brasil acabamos de constituir uma Rede Brasileira de Teólogas que tem quase 100 mulheres. Isso vai ajudando. A Argentina tem um movimento chamado Teologanda que faz um trabalho maravilhoso promovendo o trabalho da mulher na teologia. 

Creio que a mulher vai ela mesma ocupando os espaços que se apresentam e assim vai transformando a Igreja. Muitos bispos reconhecem isso. Padres também. Outros têm mais dificuldade. Mas o facto é que sem elas a dinâmica eclesial não caminharia por falta de pessoas. 

 

Mulheres, Sínodo, Sinodalidade, Igreja Católica

Mulheres participantes no Sínodo sobre a sinodalidade, 7 de Outubro de 2023, à saída de uma das sessões da assembleia. “Com Francisco, a presença das mulheres cresceu dentro da Igreja”, diz Maria Clara Bingemer. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

7M – Numa intervenção que fez em 2019, no Porto, comparou a sua geração, que lutou pela justiça social, com a dos jovens que hoje lutam pelo clima. Não são lutas diferentes?

Não. Acho justamente que a entrada pelo clima vai levá-los a lutas parecidas com as da minha geração. Por outro lado, a minha geração ainda não estava tão consciente do problema climático…

7M – Nessa altura não era um problema tão grave…

Ainda não tinha emergido com a força que tem hoje. Éramos então mobilizados contra as ditaduras, pela liberdade, contra a tortura, pelos direitos humanos e pela justiça social. Já os meus filhos, a quem procurei transmitir essa sensibilidade, e a sua geração, são pessoas éticas e com sensibilidade pelos mais pobres, mas não tinham aquela utopia… Eu dizia: aos jovens de hoje falta utopia. Os meus netos (a mais velha vai fazer 17 anos) já nasceram manipulando o telemóvel, o tablet… Mas de repente, eles morderam a questão do clima. E isso os mobiliza. Sentem a importancia do problema e sentem que se não se priorizar essa pauta, eles podem não ter mais uma terra habitável. 

Fui muito tocada por aquela jovem alemã, Carola Rackete, que conta na sua história: “sempre fui privilegiada, branca, de um país rico, não me faltava dinheiro para nada, fiz três cursos superiores…” Ela começou pelo clima, ia de barco vendo a destruição do planeta… Então decidiu fazer alguma coisa: entrou na SeeWatch, capitaneando um barco para salvar migrantes no mar, refugiados e enfrentando sozinha o ministro italiano Salvini. Foi presa com o barco numa barra. Pelo clima, ela mobilizou-se para uma causa humana.

7M – A mobilização pelo clima é também um lugar teológico?

Sim, pode ser um lugar teológico. Leonardo Boff chama a atenção para isso há muito tempo. Repete sempre que temos que nos conscientizar que a terra não é um vis a vis para nós, um outro diferente para o qual olhamos. Nós somos terra. Quando a terra sofre, nós sofremos. Isso tem um enorme impacto na teologia da criação. 

Gostaria igualmente de dizer uma palavra sobre o ecofeminismo , corrente de pensamento inclusive teológico que aproxima a causa da libertação da mulher com a da terra. Há aproximações teológicas belas a serem feitas entre o corpo da terra e o corpo da mulher. Há toda uma mística e uma teologia que emergem daí. Eu pessoalmente tenho trabalhado este tema e creio que estou apenas começando. 

O facto de a causa se tornar comum, as pessoas e os jovens estarem dispostos a ir para a rua protestar, considero tudo isso muito positivo. O tempo de amadurecimento, do engajamento, vai ter de registar depurações; o discernimento é muito importante. Mas a mobilização, o impulso desse movimento é muito relevante.

 

Clima, manifestação, jovens

Jovens numa manifestação pelo clima. “O facto de os jovens estarem dispostos a ir para a rua protestar, considero tudo isso muito positivo. O tempo de amadurecimento, do engajamento, vai ter de registar depurações; o discernimento é muito importante. Mas a mobilização, o impulso desse movimento é muito relevante.” Foto: Direitos reservados.

 

7M – Como é que a teologia pode tornar essa mobilização num capítulo da reflexão teológica? 

Pode fazê-lo no sentido em que lutar pela Terra é lutar pelo ser humano. A corrente ecofeminista tem ligado muito a Terra à mulher. Mas há outro aspecto importante que é a ligação da Terra, dos recursos naturais à vida que começa: a infância, a adolescência, a juventude; as pessoas em crescimento são vulneráveis. 

A Terra é vulnerável e um ser vivo em crescimento também. Há uma afinidade que os jovens podem sentir com a Terra e os recursos naturais que estão sendo depredados – o que pode dar uma boa pauta para a teologia pensar. 

E temos também de fazer o resto do círculo, no sentido de que, quando se luta pela Terra, pela ecologia, na verdade está a fazer-se um acto de justiça social tão importante quanto distribuir comida pelos famintos que estão na rua: está a devolver-se o cosmos ao que tem fome, agindo para que não falte água a quem tem sede, dando um tecto ao que não tem abrigo; no fundo, ligando tudo isto às Bem-Aventuranças, ao Evangelho.

7M – Na encíclica Laudato Si’ e no Sínodo da Amazónia, o Papa disse que é necessário aliar o problema dos pobres à justiça climática, à espiritualidade e à mística. 

Esse foi o grande contributo da Laudato Si’, que inaugurou um novo capítulo na doutrina social da Igreja. Começou um novo capítulo com a Laudato Si – que é um documento espectacular, tendo sido muito apreciado mesmo fora da Igreja, por pensadores como Edgar Morin, pela qualidade da sua reflexão. 

Creio que o Papa Francisco foi muito feliz com o documento, mostrando que o problema climático é indissociável do problema da injustiça social e da pobreza. Um acarreta o outro. Vejo que entre os jovens católicos a Laudato Si’ tem boa entrada. E mesmo entre intelectuais não católicos, como referi. 

Acho que isso é a grande nota de novidade na LS. O problema da terra não se dissocia do problema dos pobres. É um só problema, pois ambos estão ligados. É a vida, é a criação de Deus que está ameaçada de extinção. Francisco de Assis, que encabeça a encíclica, foi o que viveu isso de forma mística e poética. Simone Weil, uma pensadora que muito aprecio e que tenho estudado bastante, era fascinada por Francisco justamente porque via nele uma total integração de corpo e espírito e uma total comunhão com a criação e com cada ser vivente. Atingir qualquer ser vivo é atingir toda a criação e isto sempre afeta o coração de Deus.

 

Maria Clara Bingemer no Porto, em Novembro 2019 © António Marujo/7MARGENS

Maria Clara Bingemer no Porto, em Novembro de 2019. “Creio que a Teologia da Libertação sempre esteve presente no falar do Papa. Ele foi formado pela Teologia del Pueblo, que é inseparável da Teologia da Libertação na verdade. Para ele a questão dos pobres, da justiça, é primordial.”  © António Marujo/7MARGENS

 

7M – Sente que o Sínodo da Amazónia foi decisivo para uma espécie de ressurreição da Teologia da Libertação, para trazer uma nova credibilidade ou de reabilitação dessa corrente? 

Sinto. Primeiro, pela sinodalidade em exercício: os indígenas dentro do Vaticano, como membros do Sínodo. Isso jamais se viu na vida. E o Papa criticando quem fez pouco dos índios…

Mas creio que a Teologia da Libertação sempre esteve presente no falar do Papa. Ele foi formado pela Teologia del Pueblo, que é inseparável da Teologia da Libertação na verdade. Para ele a questão dos pobres, da justiça, é primordial. Sua exortação sobre a santidade, Gaudete et Exultate, é clara quando menciona as obras de misericórdia corporais e espirituais, ressaltando a importância das duas, mas explicitando a primordialidade que devem ter as corporais. 

Portanto, creio que o Sinodo da Amazónia foi uma visibilização do que Francisco já estava fazendo desde o início do seu pontificado, já explícito na Evangelii Gaudium. 

7M – E também da Pacha Mama, a representação da divindade ligada à terra e à mãe que foi levada por indígenas para Roma, durante o Sínodo da Amazónia…

Exactamente. Houve uma valorização das culturas que sempre foram menosprezadas pela Igreja, postas à margem. Havia só transmissão: ia-se lá para salvar os índios do erro… Agora não. Eles estão contribuindo para a construção da Igreja. Acho que este aspecto foi um ganho mesmo espectacular. É um aspecto que, desde o seu início, a Teologia da Libertação se propõe fazer, e alguns teólogos também fizeram, mas não foi ainda uma coisa maior. Considero que, vinda do centro da Igreja, é uma coisa maior. Depois também me parece que, acontecendo durante o Sínodo da Amazónia – que considero histórico – foi importante, mas não tanto. 

Só depois é que vai repercutir-se e também foi muito importante a reedição do Pacto das Catacumbas, [que tinha sido] feito no final do Concílio, com dom Hélder [Câmara] que capitaneou. Mas isso é que foi maravilhoso no Concílio [Vaticano II]: era um aspecto que estava na sombra e que, de repente, emergiu: muitos bispos mas também outros segmentos eclesiais, no mesmo lugar. Considero este facto com uma força simbólica muito grande – o que é espantoso. É um documento de grande impacto, que deve ser muito estudado, rezado, revisitado dentro da Igreja, da teologia.

7M – O teólogo José Comblin dizia: “Nós quisemos salvar os pobres, agora eles querem ser ricos e vão para o pentecostalismo.” O discurso da teologia da libertação também falhou neste processo?

Certamente. A teologia da libertação também cometeu muitos erros, tal como qualquer corrente humana. Um dos erros que teve grande impacto sobre o que refere foi o facto de a teologia da libertação – algumas correntes, nem todas – ter demonizado as classes médias e as elites, os intelectuais, quando todas as revoluções do mundo acontecem pela aliança entre as classes populares e as classes médias. Muita gente se sentiu rejeitada na Igreja da libertação. Muitos dos que viviam em São Paulo, por exemplo (o cardeal Paulo Evaristo Arns era um dos pilares também da teologia da libertação) sentiam-se rejeitados. Esses, burgueses, paulistas, ricos e endinheirados foram para movimentos hiperconservadores – Opus Dei, Legionários de Cristo… 

A teologia da libertação cometeu alguns pecados, no sentido de ser um pouco dualista: não é preciso estudar, basta trabalhar com o povo, e outras ideias assim, desvalorizavam a formação, o estudo. Acho que isto teve um impacto negativo no sentido em que as lideranças começaram a ficar mal preparadas e, de certo modo, insatisfeitas, começando a ser cooptadas para outras tarefas, facto que foi decisivo. 

Também o pentecostalismo entrou com força total e isso teve um grande impacto entre as classes populares, abandonadas pela militância deprimida com a queda do socialismo real e a derrota de Lula e de outros candidatos de esquerda às eleições nos países latinoamericanos. 

 

Fieis em adoração, igreja evangélica. Foto © Pixabay

Fiéis em adoração numa igreja: “Também o pentecostalismo entrou com força total e isso teve um grande impacto entre as classes populares, abandonadas pela militância deprimida com a queda do socialismo real e a derrota de Lula e de outros candidatos de esquerda às eleições nos países latinoamericanos.” Foto © Pixabay.

 

7M – E qual foi o papel do Papa João Paulo II?

Na política do pontificado de João Paulo II – longo de 26 anos – ele foi mudando a face do episcopado latino-americano, porque nessa marcha da Igreja latino-americana houve muitos bispos que foram cruciais. Por exemplo, na Argentina, que tem uma Igreja de perfil mais conservador, houve figuras como o bispo [Enrique] Angelelli, que morreu num acidente até hoje não esclarecido. É considerado mártir e foi beatificado por Francisco, juntamente com outros que o acompanhavam. 

Tudo isso foi mudando. A nomeação dos padres [para bispos] brasileiros demorou um pouco mais para conseguir neutralizar [a Igreja da teologia da libertação], porque eram muitos; havia uma importante célula progressista, mas conseguiram [mudá-la]. Foram nomeando bispos de outra linha e a teologia da libertação já não encontrava apoio nos pastores, pelo contrário: ao contrário, encontrava atitudes negativas, o que criou um vazio pastoral. Toda a pastoral que se construiu nos anos 70 – comunidades de base, círculos bíblicos – tudo isso foi sendo neutralizado e no seu lugar foram sendo colocados movimentos conservadores e neoconservadores. Então, os pobres ficaram de novo sem pai nem mãe e nesse vazio entrou a proposta pentecostal.

7M – Também com o apoio financeiro dos Estados Unidos?

Os EUA tinham todo o interesse, não sei se explícito, em financiar esses movimentos. O pentecostalismo e esse vazio pneumatológico, pelo carisma e pelos motivos teológicos – uma pneumatologia só latente e não patente –, emergiu como uma panela de pressão. Surge então um boom carismático. Não se falava muito do Espírito Santo, em algumas obras teológicas falava-se no grande desconhecido. 

Era a reedição do problema que Paulo encontrou na comunidade de Corinto. Toda a gente falava tantas línguas que já não havia assembleia, ninguém se entendia e toda a gente brigava pelo poder. Mas o mais grave nem foi esse primeiro momento, que foi absorvido pala hierarquia: a música, por exemplo, é muito alienante. As liturgias são muito “exteriores”, barulhentas e efervescentes.A lex orandi já não encontra a lex credendi: há tanto barulho, tanta agitação, tanta exterioridade, que não há uma proposta concreta, é o louvor pelo louvor.

7M – E isso também entrou na Igreja Católica no Brasil. 

Sim, também contagiou demasiado a Igreja Católica. Há uma certa visão da condição humana, onde é tudo meio mágico. Mas o segundo momento é que foi mais grave, quando apareceu com muita força a teologia da prosperidade. 

Deste movimento carismático, nasceram o pentecostalismo e o neopentecostalismo. Neste momento, acresce a questão da configuração carismática com o problema da prosperidade, da riqueza, em que as igrejas se tornam igrejas electrónicas; tornam-se mercados, marcas como se fossem um mcdonald’s. Os pastores formam-se a partir da caixa e quanto mais dinheiro trouxerem, melhor… 

Esse vazio criado pelo golpe mortal que a pastoral libertadora levou, aliada a outros elementos, propiciou bastante o surgimento desse mundo pentecostal. No Brasil é onde mais cresce, na Venezuela também. Mas no Chile, na Argentina e até na Colômbia nota-se um substracto católico forte. Chile, Argentina e o Perú são mais europeus e, nesse sentido, as igrejas históricas têm vantagem, embora incluam esse fenómeno.

 

Maria Clara Bingemer. Foto: Direitos reservados.

Maria Clara Bingemer: “Se alguém vai fazer uma tese – sou professora e oriento doutoramentos – e se o tema for, por exemplo, o bem comum em São Basílio, não há problema. Mas se escolher, como uma aluna veio me pedir, uma tese sobre o amor incondicional de Deus e a comunidade LGBT, o tema não passa.” Foto: Direitos reservados.

 

7M – As novas áreas de estudo da teologia da libertação – ecofeminismo, género, ecologia, ambiente, questão indígena, diálogo inter-religioso – são ainda olhadas com muita desconfiança, tal como a primeira teologia da libertação. Não há o risco de criar novas zonas de conflito entre teologia e hierarquia?

São temas desafiantes, não são temas tranquilos. Se alguém vai fazer uma tese de doutoramento – sou professora e oriento vários doutoramentos – e se o tema for, por exemplo, o bem comum em São Basílio, não há problema. Mas se escolher, como uma aluna veio me pedir, uma tese sobre o amor incondicional de Deus e a comunidade LGBT, o tema não passa na comissão de pós-graduação. Alargando um pouco – pondo a mulher, o negro e o homossexual – já passa. 

Fora da universidade, há teólogos formados, sobretudo no meio protestante histórico, que já estão a trabalhar muito nesses temas. Na Igreja Católica, há toda a questão da ideologia de género, a que se tem pavor. É uma zona meio conflituosa. O bom é que a situação, para as mulheres, melhorou. O feminismo ficou até mais inofensivo. Tem de se lidar com a questão gay, a questão trans… Mas na questão da mulher há a questão dos direitos reprodutivos, dos direitos do corpo, que são muito sensíveis, a questão do aborto, os catholics for a free choice, a opção pelo aborto, a descriminalização – não a legalização –, que baixa o índice de mortes de mulheres. Muitas teólogas estão nessa linha. E realmente isso traz problemas sérios. 

7M – Onde está a fronteira entre a abertura a anseios das pessoas, sem ir apenas atrás de alguns temas só por serem moda ou um fenómeno mediaticamente apetecível, guardando também o património do cristianismo e da reflexão teológica – que é também uma proposta diferente, apesar de tudo?

Tem muita razão. Na questão do género às vezes há esse risco. Não tanto por moda, mas por tocar em temas conflitivos de uma maneira desnecessariamente provocadora. A questão da ecologia já foi assunto, eu penso que já não há perigo nenhum. Creio que o feminismo tem que fazer uma autocrítica, como já é feita de certo modo, no feminismo europeu. Houve alguns erros cometidos que agora podem ser retomados em outra perspectiva e aprofundando mais certos conceitos. 

 

Imagem de arquivo (2010) de um grupo de “Católicos pela igualdade”, junto ao edifício do Capitólio de St. Paul, Minnesota (EUA), de apoio à igualdade de direitos para lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros. Foto © Fibonacci Blue, CC BY 2.0 , via Wikimedia Commons.

“Na Igreja Católica, há toda a questão da ideologia de género, a que se tem pavor. É uma zona meio conflituosa.” Imagem de arquivo (2010) de um grupo de “Católicos pela igualdade”, junto ao Capitólio de St. Paul, Minnesota (EUA), de apoio a direitos para lésbicas, gays, bissexuais e trans. Foto © Fibonacci Blue, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

 

7M – Mas podemos pensar também na questão da eutanásia. Aqui em Portugal tivemos há pouco tempo esse debate, que culimou com a aprovação de uma lei de despenalização.

Essa não é ainda uma questão muito candente na América Latina. Discute-se, mas não temos a população tão idosa [como na Europa]. O tema vai chegar, mas mais devagar. Eu sei que aqui na Europa é muito forte. Discutiu-se muito e foi muito positivo o que o Papa disse na Gaudete et Exsultate (escrevi um livrinho sobre o assunto com o título Santidade: Chamado à Humanidade [Paulinas Brasil]. 

Uma das coisas que eu comento é o que o Papa diz sobre o facto de que devemos sempre defender a vida do nascituro, mas também há a vida dos que já nasceram e não têm o que comer. Ele defendeu uma paternidade e maternidade responsáveis e também colocou a questão do aborto no seu devido lugar: não é arrancar os cabelos por causa dos fetos e não pensar nos que já nasceram que já não são fetos. 

Quanto à questão do diálogo inter-religioso tenho a impressão de que não corre o risco de se tornar uma moda. É um assunto muito presente na América Latina. Já com a questão dos povos originários, desde o começo essa questão estava colocada e agora está avançando mais em termos teológicos. Os teólogos estão a ter mais coragem de chamar as coisas pelo nome, de dizer que na Morenita [Nossa Senhora] de Guadalupe há elementos indígenas.

A questão dos afrodescendentes também cresce muito e há uma teologia negra sobretudo no Brasil e nos países caribenhos que têm uma população afro descendente extensa. Há toda uma teologia aí que cruza a questão racial com a questão do diálogo interreligioso, já que crescem os casos de dupla pertença de católicos ao candomblé e vice versa. 

7M – Já houve muitos santos assim, não é? Canonizados e que não se sabe bem se existiram…

São Cristóvão, Santa Filomena, São Jorge… Juan Diego é mais um [risos]. O que é bonito é que agora está a ser mais estudada na teologia a questão dos mitos. A linguagem simbólica e mitológica não deve ser execrada como se fosse uma mentira, uma iniquidade… Não, é muito rica! E a linguagem da Bíblia está cheia desse tipo de linguagem. Reabilitar o mito ajuda a dialogar com as outras tradições. 

Nas religiões afro as pessoas não vão directamente a Deus. Os ancestrais é que fazem a mediação. E nós temos os santos. O que os africanos fizeram, sobretudo na América Latina e no Brasil, foi perfeito: foi dar o nome dos santos católicos aos seus orixás. Mas eles continuavam dirigindo-se aos seus orixás. Como é uma religião muito cósmica, identificam as divindades com a água, com a terra, com a floresta, enquanto nós exaltamos os santos pelas suas virtudes, pela imitação de Jesus Cristo. Temos um único mediador, que é Jesus Cristo. Mas, na verdade, no catolicismo latino-americano, a devoção é a Maria e aos santos, Jesus Cristo fica meio na rectaguarda. Santo António é o primeiro depois de Maria, atrás vem santo Expedito, são Judas Tadeu… 

7M – É verdade…

É fantástico! Querem domesticar a experiência religiosa!? Não pode ser domesticada! Temos de dialogar, temos de integrar. Por exemplo, trabalhei três anos na Favela da Rocinha [Rio de Janeiro], que é a maior é quase uma cidade…

7M – Onde o Papa esteve em 2013…

Sim. É uma favela perigosa, mas quando se conhece a comunidade… Eu nunca tive problemas. Quem me levou lá foi um jesuíta belga, muito amigo, um belga “secularizadérrimo”. Ele trabalhava lá e eu comecei a trabalhar na formação dos coordenadores de círculos bíblicos. Achei uma maravilha. Às vezes, o tema era o Evangelho do domingo seguinte e quando se falava do demónio, eu pensava: como é que hei-de fazer? Nunca houve problema: o povo nadava de braçada nos Evangelhos. 

A partir do mês de Maio, não se podia trabalhar com os textos bíblicos Era só Maria. Só imagens, indo de barraca em barraca, rosários… Temos de aceitar a Virgem do Rosário, aceitar introduzir nisto a Bíblia e não entrar em conflito por essa razão. No dia 31, há a procissão, com anjinhos e Nossa Senhora enfeitada, à qual se faz a genuflexão. Meu amigo, o jesuíta belga, me dizia: “respirar, respeitar, não interferir em nada.” É isto que temos de aprender. 

Penso que a teologia latino-americana está tentando integrar cada vez mais estes elementos – o que está a mudar progressivamente a face do ensino da mariologia que não pode se tornar “ginecológica”, que quer saber como foi o parto, de onde veio a luz… Mas tem que recorrer mais e redescobrir a Maria dos evangelhos, profética, primeira discípula. Até os protestantes se estão a interessar por este tema. As tentativas de diálogo inter-religioso já estão a incorporar estes aspectos, já não é uma questão de modas… 

 

Papa Francisco. Rosário

“A partir do mês de Maio, não se podia trabalhar com os textos bíblicos Era só Maria. Só imagens, indo de barraca em barraca, rosários… Temos de aceitar a Virgem do Rosário, aceitar introduzir nisto a Bíblia e não entrar em conflito por essa razão.” Na foto, o Papa Francisco a rezar o Rosário. Foto © Vatican News

 

7M – Voltando ao Sínodo da Amazónia, e agora também ao Sínodo sobre a Sinodalidade, pergunto se algumas das intuições propostas – estou a pensar no tema da ordenação ou do diaconado para as mulheres – podem fazer caminho no sentido de serem adquiridos para a Igreja universal e não só para a América Latina?

Estou convencida de que se a porta for aberta – vamos ver se Francisco vai abrir – ela começará na Amazónia. Esperava-se muito que Francisco abrisse a ordenação dos homens casados para as comunidades amazónicas. Ele não o fez na exortação. Mas o resultado dos grupos de trabalho mostra claramente em todos os grupos esse desejo e essa esperança. Não foi dessa vez que a porta se abriu. Quem sabe no Sínodo sobre a sinodalidade acontece algo e a porta se abre?

7M Há pessoas que dizem que o Papa vai abrir a porta para, a seguir, aplicar esta decisão em todo o mundo

Isso não aconteceu no Sínodo da Amazónia. Talvez algum passo seja dado no sínodo sobre a sinodalidade. Se acontecer será bom. Já temos padres casados na Igreja. Os anglicanos bateram à porta de Bento XVI e este mandou todos entrarem, com as mulheres e seus filhos, periquitos e papagaios [risos]. Já há ministros ordenados casados em todas as igrejas cristãs. Nós, católicos, somos os únicos que não temos a ordenação de homens casados. Creio que essa é uma das razões para haver pouco clero, ficando o povo desassistido ou pelo menos assistido insuficientemente. O povo de Deus está necessitado de mais ministros, e creio que é isso que tem de ser contemplado em primeiro lugar.

As mulheres estão a virar as costas – o que é um problema – e elas já são reconhecidas pelo povo. Um jesuíta amigo meu foi chamado uma vez, de longíssimo, porque estava morrendo uma senhora: foi a cavalo e quando chegou lá a senhora perguntou “por que é que foram incomodar o senhor, eu já me confessei aqui com a irmã” [risos]. 

 

Freiras Trabalho

“As mulheres estão a virar as costas – o que é um problema – e as freiras já são reconhecidas pelo povo. Um jesuíta amigo meu foi chamado uma vez, de longíssimo, porque estava morrendo uma senhora: foi a cavalo e quando chegou lá a senhora perguntou “por que é que o foram incomodar, eu já me confessei aqui com a irmã” [risos].” Foto © Pixabay

7M – A propósito dos seus livros, nomeadamente dos que estão publicados em Portugal: refere que é a partir das crises ética ou religiosa ou cultural que o cristianismo é chamado a encontrar o seu rosto e a sua identidade. Estamos a reconhecer uma profunda crise de identidade do cristianismo?

Sim, estamos falando de uma crise visceral: toda a civilização ocidental cristã está em agonia e isso começa na Europa, que é o berço da civilização cristã ocidental. Tudo o que nos ensinaram balança – o que provoca uma crise profunda. Mas a crise pode ser benéfica se a soubermos aproveitar. O cristianismo significava cristandade, um projecto gigantesco que absorvia tudo e tudo engolia. Mas o cristianismo é na verdade chamado pequeno rebanho, sal, fermento. Quem sabe se o cristianismo não vai encontrar a sua verdadeira identidade. Eu acredito nisso. 

Tenho trabalhado agora sobre experiências místicas na contemporaneidade – assunto que considero muito importante. Falaram-me de Adília Lopes, que não estava na Igreja, mas que tinha experiências muito fortes do transcendente e que escreveu sobre elas. 

Simone Weil é uma mulher prototípica nesta esfera, uma mulher que tinha tanto cuidado para não ser influenciada na sua liberdade intelectual, que continuou o seu curso de Filosofia, não era conhecedora dos grandes místicos. Gostava muito de São Francisco, leu as suas Florinhas, mas numa atitude independente, até ter a experiência de ser tomada pelo Cristo. Tinha uma sensibilidade enorme em relação à pobreza, foi trabalhar numa fábrica. Aquando desta experiência, foi ter com um dominicano inteligente, e este propôs-lhe o baptismo; ela não quis. Não se sentia chamada a entrar na Igreja. No seu último texto, reafirma sua fé em tudo o que a Igreja Católica diz. Mas ao mesmo tempo expõe suas dificuldades com a Igreja como instituição. Ela teve uma primeira experiência na Póvoa do Varzim. Foi o seu primeiro contacto com o catolicismo, quando ela afirma que o catolicismo é a religião dos escravos e que os escravos não podem senão aderir ao cristianismo e “eu com eles”. De certa forma, ela inverte a frase de Nietzche, repetindo-a. Nietzche diz que o cristianismo é a religião dos escravos e que por isso fez muito mal à humanidade. Simone Weil reafirma isso, mas reconhece que por isso mesmo é aí o seu lugar. 

7M – E quando no seu livro Experiência de Deus na Contemporaneidade se debruça sobre Simone Weil, Dorothy Day ou Etty Hillesum é porque as mulheres são mais capazes do cuidado? Onde arruma, por exemplo, Martin Luther King, o Irmão Roger de Taizé, o Abbé Pierre, Thomas Merton, Teilhard de Chardin, Desmond Tutu?… Por que é que escolheu aquelas três mulheres?

No livro falo também de um homem. Falo da Dorothy Day, da Simone Weil, da Etty Hillesum e falo de um jesuíta belga, Egide van Broeckhoeven, que queria ser cartuxo mas entrou na Companhia de Jesus e integra os padres operários. Ele era operário e morre num acidente de trabalho. Ele considerava a cartuxa como uma tentação. Na verdade, ele fala “da minha sarça ardente, a fábrica”. Essas mulheres místicas são vistas em espaços seculares, no meio de coisas que não têm nada a ver com a religião, absolutamente profanas. E aí elas fazem uma nova síntese.

Etty Hillesum, uma das retratadas em Experiência de Deus na Contemporaneidade. “A mística não se encontra só nos claustros, nos espaços construídos para o sagrado. Não, isso é combatido pelo cristianismo que, justamente, dessacralizou a religião!” Foto: Direitos reservados.

7M – É isso que propõe como a mística de olhos abertos? Essas pessoas traduzem esta mística?

Acho que sim, a mística não se encontra só nos claustros, nos espaços construídos para o sagrado. Não, isso é combatido pelo cristianismo que, justamente, dessacralizou a religião! Na verdade, Jesus não ficou no templo. Ele vai ao templo, mas na verdade ele está no espaço secular, na cidade, com as pessoas. 

A cristandade confinou tudo a espaços sagrados e, na praça pública, aparecia a Igreja com as procissões, com o bispo ao lado do [presidente da câmara]. Isso foi um momento, não existe mais. Quando houve o incêndio em Notre Dame, não houve pessoa entrevistada que não chorasse copiosamente, Notre Dame fazia parte de todos embora muitos ali não fossem crentes. Nada vai voltar ao pré-moderno. Não, hoje deve fazer-se uma síntese nova, e talvez hoje essa seja uma proposta mais compatível! Devemos procurar os espaços de diálogo da nova teologia com outras esferas. 

7M – Já escreveu sobre Adélia Prado e Sophia de Mello Breyner. Quais são as semelhanças e as diferenças entre estas duas mulheres poetas?  

Ambas são mulheres, casadas, mães de família, católicas, totalmente católicas (Adélia totalmente católica…), fazem poesia e vêem na poesia o sentido das suas vidas. Adélia fala do seu meio de salvação. A Sophia dizia que não sabia que os poemas nasciam nas pessoas, pensava que existiam por si mesmos. São essas algumas semelhanças. 

As diferenças serão: Sophia é grega e Adélia é judaica, carnal, puxa a transcendência para cá. Sophia é urânica, busca a beleza e tudo aquilo de que fala – o mar, a concha, a natureza – tudo eleva, tudo é para se ver a transcendência. Numa carta a Jorge de Sena, ela diz: “Voltei da Grécia, mas não pense que vim de uma Grécia pagã, é uma Grécia baptizada.” Ela vai para a Grécia enquanto cristã. Por outro lado, tem a sua fase militante. Tem um poema que achei lindo, em que fala daquela jovem grávida, militante comunista, Catarina Eufémia, que foi morta pela polícia de Salazar. É muito bonito! A Sophia tem o seu engajamento político, mas tem a poesia gratuita que é só beleza e ali faz as experiências de Deus. Adélia diz: “É em Deus, sexo e morte que eu penso todo o dia”. E escreve poemas onde o místico e o erótico estão juntos de uma maneira!… 

As diferenças fundamentais são essas: uma é telúrica, a outra é urânica, uma é grega e a outra [judaica], mas as duas têm em comum a poesia como se fosse o seu destino. Elas não têm como não fazer poesia. A Adélia é o profeta que também interpela, o poeta-profeta. E Sophia tem também momentos em que é um peso, a função poética, é uma missão. 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, provavelmente nos anos 1950: “A Sophia tem o seu engajamento político, mas tem a poesia gratuita que é só beleza e ali faz as experiências de Deus.” Foto © Fernando Lemos/Direitos reservados.

 

7M – Como é que sendo uma mulher casada, com filhos, hoje com netos, enveredou pela teologia sem medo?

Não vou dizer que foi vontade de Deus. [risos]. Eu era jornalista, estava contente com o jornalismo. Terminei o curso de Comunicação. Era católica comprometida. Corria o ano de 1975, em plena ditadura militar. Acabei o curso e recebi um convite para trabalhar no sector da comunicação da CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil], que era no Rio de Janeiro. O presidente era dom Aloísio Lorscheider e o secretário dom Ivo Lorscheider, eram as únicas vozes que se levantavam para denunciar as torturas…

Fiquei tão apaixonada por aquela Igreja que quis estudar teologia, mas pensando em ficar na comunicação, mas com mais bases teológicas. E achava que nunca iria ter trabalho: uma mulher, leiga… E a dada altura começou a aparecer trabalho. O padre João Batista Libânio me convidou para escrever um livro com ele, foi fundamental na minha vida. E insistiu para eu fazer o doutoramento na [Universidade] Gregoriana [em Roma], com o apoio do meu marido. A minha mãe morava comigo, era viúva e eu filha única, ela ajudava-me muito. O meu marido sempre achou que eu devia escolher a minha carreira com toda a liberdade. Se não fosse isso, seria muito mais difícil. 

Fui para Roma e fiquei no Colégio Pio Brasileiro. Era a única mulher entre muitos seminaristas e padres. De noite tudo escuro, às oito da noite cada um no seu quarto… A essa hora os meus filhos estavam na minha cama a fazer os deveres. Foram três meses assim, difíceis…

Depois comecei a ensinar. Fico feliz porque sinto que eu e as minhas colegas abrimos um caminho. Hoje, coisas que são tranquilas, não eram. Lembro que quando saiu a [encíclica] Dominum et Vivificantem, de João Paulo II, sobre o Espírito Santo, a irmã Maria Carmelita de Freitas, uma grande amiga, que era coordenadora do grupo onde os bispos tinham momentos de estudo e formação na CNBB, convidou-me para apresentar o documento aos bispos em uma das reuniões do grupo. Propôs o meu nome a dom Luciano [Mendes de Almeida, presidente da CNBB] e ele deu um pulo, apesar de ser meu amigo e ter crismado o meu marido. “Já viu uma mulher, leiga, para ensinar aos bispos sobre o documento do Papa?” Ela disse que eu era doutora em Teologia, igual aos padres que também lá iam. E foi uma experiência óptima: os bispos adoraram e a gente sente que quebrou o gelo, que abriu caminho e contribuiu para que a mulher estivesse presente na teologia. A mulher é necessária na teologia, na Igreja…

 

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