Maria Domingos, OP (1936-2021), alma do mosteiro do Lumiar

| 16 Fev 21

Maria Domingos, Monjas Dominicanas.

Maria Domingos, “alma” do mosteiro do Lumiar durante quase três décadas. Foto Onde Moras? © Praça Filmes, cedida ao 7Margens.

 

A irmã Maria Domingos, monja dominicana, uma das fundadoras, em 1982, do Mosteiro de Santa Maria (Lumiar, Lisboa), morreu nesta segunda-feira, 15 de Fevereiro, em Leiria, onde se encontrava hospitalizada na sequência de uma infecção por covid. Era a alma do mosteiro, como diz o dominicano frei Filipe Rodrigues. Uma eucaristia de exéquias será celebrada nesta terça, 16, às 19h, podendo ser acompanhada no canal YouTube de frei Filipe Rodrigues.

Nascida a 26 de Fevereiro de 1936 (estava a poucos dias de completar 85 anos), Maria Domingos ingressou no mosteiro de Fátima das monjas dominicanas. Passou ainda para o mosteiro que então existia no Porto mas em 1982, depois de uma temporada em Prouille, um grupo de irmãs fundou o mosteiro do Lumiar. Entre elas, estavam as últimas quatro que ali permaneceram: Maria Domingos, Teresa, Mary John e Louise-Marie. Esta última morreu a 27 de Janeiro de 2018, um ano antes de, a 5 de Março de 2019, as outras três companheiras deixarem o mosteiro para integrarem a comunidade de Fátima, como o 7MARGENS noticiou na altura.

“A Ir. Maria Domingos distinguiu-se sempre pela sua forma de estar na Igreja e no mundo: simplicidade, humildade, discrição e muita alegria”, escreve o dominicano frei José Filipe Rodrigues, na sua página Retalhos da Vida de um Padre.

“Prioresa durante alguns mandatos, foi sempre a alma do mosteiro, abrindo as suas portas e portões às várias pessoas e grupos que viam no mosteiro um lugar de acolhimento e de paz.”

Essa dimensão do acolhimento é destacada por Teresa Vasconcelos, professora do Ensino Superior e participante no Movimento do Graal, colaboradora regular do 7MARGENS: “Da varanda da frente do andar em que vivo vejo, ao longe, um pouco mais alto, a quinta e a casa cor de rosa das nossas queridas Monjas Dominicanas. Ao chegar para a missa, recebia-nos aquele jardim gloriosamente florido e a cara fresca e bronzeada pelo sol da Ir. Maria Domingos. (…) Aquele mosteiro foi, durante longos anos, um abrigo e um alimento espiritual para mim.”

 

Uma fé vivida de forma atípica
Maria Domingos, Monjas Dominicanas.

A irmã Maria Domingos a cuidar do jardim do mosteiro. Foto Onde Moras? © Praça Filmes, cedida ao 7Margens.

 

A cineasta Inês Mendes Gil, que realizou com as irmãs, ainda no Mosteiro do Lumiar, o filme Onde Moras?, sublinha, num depoimento escrito a convite  do 7MARGENS, que para Maria Domingos, “ser monja foi uma oportunidade de ser livre, como testemunha no filme”. De facto, acrescenta, “ela vivia a sua fé de uma forma atípica, e como se sentia livre, ela abrira com as suas irmãs um espaço de liberdade à sua volta, através da tolerância, da simplicidade e da partilha de uma espiritualidade despojada”, que questionava “os fundamentos dos dogmas para expandir o espírito e permitir o diálogo com o outro”.

Durante anos, a comunidade animou os Encontros do Lumiar, um oásis de debate, encontro, conversa e construção de redes, que contaram com a intervenção de dezenas de convidados, crentes e não-crentes. Os dominicanos José Augusto Mourão e Mateus Peres, primeiro, e o actual cardeal José Tolentino Mendonça, nos últimos anos de vida do mosteiro, eram quem colaborava com as irmãs na preparação e dinamização dos encontros.

“Aquela subida, da minha casa para a delas, aos domingos ou aos sábados, quando havia os Encontros do Mosteiro, era uma espécie de rampa para uma espiritualidade mais profunda, mais enraizada, mais contemplativa… mais alegre”, conta Teresa Vasconcelos. Agora, com o mosteiro fechado, acrescenta, “não raras vezes, ao nascer do sol ia à varanda da frente e rezava com elas, ainda que já estivessem longe. Sempre recebi Luz delas. Sempre me vi rodeada de carinho e de beleza. Guardo comigo os livrinhos que durante anos publicaram, com o teor das conferências.”

O dominicano frei Filipe, que acompanhou as irmãs nos últimos tempos da sua permanência em Lisboa, nota outros aspectos da vida do mosteiro, sublinhados por uma pequena multidão de amigos e passantes: “Ensinaram-nos que a beleza está nos pequenos gestos, que o acolhimento é sempre mais belo que a recusa, que há mais alegria em dar do que em receber, que ser contemplativo é um acto de união com Deus e com as pessoas.” E conclui: “A Ordem Dominicana deve-lhe muito e nós, dominicanos, também muito lhe devemos. Acreditamos que quando morremos voltamos para junto de Deus. Para nós, dominicanos, é mesmo ver face-a-face Aquele que contemplámos e pregámos. Que agora, junto de Deus, viva na alegria que não tem fim.”

 

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