Maria e Marta – como compreender dois nomes num congresso mundial

| 20 Fev 20

“Continuando o seu caminho, Jesus entrou numa aldeia. E uma mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. Tinha ela uma irmã, chamada Maria, a qual, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra. Marta, porém, andava atarefada com muitos serviços; e, aproximando-se, disse: “Senhor, não te preocupa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar.” O Senhor respondeu-lhe: “Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.”

(Lucas 10, 38-42)

 

O congresso teve lugar em Portugal, com o apoio do Graal e do Lien. O Graal é um Movimento Internacional de Mulheres Cristãs, criado em 1921, pelo padre jesuíta Jaques Van Ginneken, professor na Universidade de Nimegue e um grupo de jovens mulheres cristãs dessa mesma universidade. Está presente em 22 países do mundo: Moçambique e Portugal são alguns deles. O Lien é uma rede transnacional europeia de intercâmbio e conscientização de mulheres profissionais em funções de liderança e chefia, criado, em 1989, por Maria de Lourdes Pintassilgo (Portugal) e Kerstin Jakobson (Suécia). A primeira mulher aqui mencionada foi membro do Graal e primeira-ministra em Portugal. A segunda é também membro do Graal e professora universitária na Suécia.

O Lien dedicou-se, entre outras coisas, a apoiar mulheres acabadas de entrar para o mundo profissional e um dos seus desejos era o de que, embora esse mundo fosse competitivo e masculinizado, as mulheres pudessem fazer dele um lugar “cuidado e humanizado”, um bom lugar para se estar. Com o intuito de disseminar essa intenção para mais jovens e por mais países, realizou-se em 2001, na Praia Grande (Sintra), um congresso mundial para jovens acabadas de se graduar. A convite de Maria de Lourdes Pintassilgo, fiz parte do comité organizador e fui também oradora no evento.

Foi nesse congresso que, pela primeira vez, tive a explicação relativa a dois nomes, Maria e Marta, cujo significado fiquei de procurar, desde 1983, ano no qual nasceram as minhas primas Maria e Marta. O facto é que, quando elas nasceram, o meu avô materno, impôs que fossem chamadas por esses nomes. Despertou-me curiosidade a insistência, uma vez que já as chamávamos por outros nomes. Perguntei à minha avó o motivo pelo qual seriam tão importantes esses nomes, ao que me respondeu: “São nomes com significado bíblico”. E acrescentou: “Aproveita que és alfabetizada e tiveste uma sorte diferente da minha, lê sobre isso…”. Na altura, não o fiz…

Apenas em 2001 é que o assunto ficou esclarecido, quando participei no congresso acima mencionado. De entre os vários temas e subtemas, com um pano de fundo que pretendia estimular a qualidade de vida no trabalho de mulheres no mundo, houve quatro que marcaram a minha vida, a saber: Ser e pertencer; Maria e Marta; Como lidar com as nossa vidas ocupadas; e Como construir relações fortes.

Ao pensar naquele congresso, Maria de Lourdes cumpria com uma das suas grandes preocupações para o futuro: que tipo de jovens deixar para “amanhã”. Era, pelo menos, o que eu sentia da sua parte, nos nossos encontros de preparação do congresso. A tónica que ela dava à questão da pertença de (a) algum lugar (be and belong), que já não devia ser considerado isolado, devido à globalização, foi para mim um estímulo para escolher e apresentar o tema “Expressões simbólicas dos bantus: a huku yi hanya hiku handza”, ie, a galinha vive de esgravatar a terra. Esta segunda parte do título é um provérbio changana, que tirei do livro 601 provérbios changanas, da autoria do padre Armando Ribeiro, C.M. (1989) e, tal como a obra explica, significa: sem trabalho, nada se alcança. O homem deve viver do seu trabalho. “Trabalha e terás, madruga e verás.”

Veio desse congresso a minha abertura para escrever acerca do meu lugar de pertença, na altura coisa rara entre nós. Aliás, as culturas moçambicanas, durante muito tempo, eram escritas por outsiders. Devo, então, ao Graal, que me tem dado força na busca da minha religiosidade e cultura africana, e à Maria de Lourdes, o estímulo para a escrita de um texto nesse sentido – o primeiro, mas que não cheguei a publicar. Lembro-me que a minha abordagem despertou muita atenção das jovens congressistas provenientes de diferentes lugares do mundo. Dei enfoque a tabus e a provérbios, alguns dos quais já mencionados no meu último texto publicado no 7MARGENS.

Uma vez que nele se celebrou Maria de Lourdes Pintassilgo, fica também para ela a minha singela homenagem.

Maria e Marta foi tema de apresentação das participantes que iam do Leste europeu. Leram trechos da Bíblia e apresentaram uma curta peça teatral; pela primeira vez, depois de muitos anos, pude compreender os significados daqueles nomes. E ligado ao congresso, penso que este era um subtema para nos ensinar o modo como podemos gerir o nosso tempo, naquela/nesta era da corrida: “our busy lifes”, as nossas vidas ocupadas, sem colocar em causa a componente humana – relativa ao cuidado connosco mesmas e com as pessoas com as quais convivemos – daí o tema sobre Como construir relações fortes.

Desse modo percebi o que os nomes bíblicos Marta e Maria significavam. Percebi, também, tal como se pretendia com o congresso, que soubéssemos como escolher o que é prioritário nas nossas vidas, como ordenar as nossas tarefas e que sentido dar a elas: sentarmo-nos ao pé de Jesus, como Maria, ou inquietarmo-nos com o acessório, como Marta.

Houve quem tivesse estabelecido uma relação entre o tema Maria e Marta com a leitura de Eclesiastes 3: “Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu (…)”. Hoje, distante desse congresso, vejo que ficou uma grande aprendizagem para a vida: lutar pela cultura do cuidado. Sobretudo, por uma qualidade de vida na qual há um lugar para exercitar o equilíbrio entre cuidar da minha vida espiritual (conhecer melhor a religiosidade dos meus ancestrais) e cuidar e humanizar o lugar no qual esteja a trabalhar. E para além da meritocracia, que tenho a obrigação social de cumprir sendo docente universitária, nunca me faltou a componente de voluntariado que tenho exercido, juntamente com alguns colegas, da minha e de outras universidades, levando o saber científico para fora das portas da Universidade, através das tertúlias itinerantes – conferências nas quais diferentes oradores discutem a interculturalidade, um tema premente hoje.

 

Sara Jona Laisse integra o Movimento Graal e é docente na Universidade Politécnica, em Maputo. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

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