Maria João Neves (1942-2021): pessoas que são como imagens de Deus sem moldura

| 26 Fev 2021

Dedicou a sua vida à educação como abertura a uma vida de maior responsabilidade e de solidariedade, e não descansou enquanto não concretizou o seu sonho: a Casa de Betânia, pequena instituição onde pessoas com deficiência residem como numa família. A irmã Maria João Neves, da Congregação de Santa Doroteia, morreu dia 8 na sequência de uma infecção por covid. 

Maria João Neves, Casa de Betânia, Doroteias

Maria João Neves, fundadora da Casa de Betânia e religiosa doroteia. Foto: Direitos reservados.

 

Havia uma expressão que a irmã Maria João Neves, religiosa doroteia que morreu dia 8 em consequência de uma hospitalização por covid-19, usava muito, referindo-se às pessoas com deficiência a quem dedicara a sua vida: elas são “imagens de Deus sem moldura”. E já veremos onde tinha Maria João Neves bebido esta expressão…

Isabel Pinto, médica de medicina geral e familiar, que trabalha na Unidade de Saúde Familiar de Samora Correia (Benavente), foi a companheira de aventura de Maria João Neves, na hora de criar a Casa de Betânia (que na realidade são três residências, casas de família para 22 pessoas com problemas cognitivos). E quando se lhe pede uma memória de Maria João Neves, é essa definição que recorda.

Conheceram-se ambas numa assembleia das irmãs doroteias, em 1981. Trabalharam depois juntas durante algum tempo no Colégio de Santa Doroteia, em Lisboa. “A Maria João tinha um irmão, num lar da APPACDM [Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental]. Mas ele gritava muito e o lar não era a melhor solução para ele. Começou então a pensar numa solução que o integrasse melhor”, conta ao 7MARGENS.

A irmã Maria João tinha, entretanto, feito já uma experiência na comunidade da Arca, associação com origem em França que acolhe pessoas naquelas condições, em residências familiares. Convidou Isabel para a acompanhar num regresso à Arca, que era a refer~encia que queriam adoptar. Há precisamente um ano, quando surgiram as revelações da Arca sobre as acusações de abusos ao seu fundador, Maria João ficaria profundamente abalada.

“Tínhamos ideia de criar uma comunidade da Arca em Portugal”, recorda Isabel Pinto, sobre o convite da irmã João. Mas isso exigia fazer uma experiência de três anos em França. Nessa altura, Maria João tinha o trabalho no colégio e Isabel abandonou a curta experiência que começara a fazer nas doroteias para poder acompanhar a mãe, que ficara sozinha. Era impossível a ambas deixarem essas missões.

“Pensámos em adaptar o modelo”. Assim aconteceu. Em Fevereiro de 1994, nascia a primeira Casa de Betânia, em Queijas, com algum apoio da Segurança Social e de muitos amigos. E com quatro jovens acolhidos por Maria João e Isabel, como pessoas da família: Manuel, Teresa, Hélder e Maria Ana.

A descrição pode dar a entender que foi fácil, mas não. Havia poucos recursos, ainda andaram a “contar os tostões para fazer a escritura da compra da casa”. Depois de peripécias várias, e quando estavam quase a ter de pagar e não tinham dinheiro, apareceu uma senhora, de origem goesa, que lhes deu o que era preciso. Mais tarde, a mesma doadora ofereceu-lhes também um apartamento em Oeiras, onde passaram a viver pessoas com menos autonomia.

Também houve dificuldades burocráticas: apesar de muita compreensão que recebiam, a Segurança Social tinha “muita dificuldade em aceitar a vida comunitária”. Ainda assim, viveram 15 anos com os primeiros rapazes e raparigas que acolheram.

Como não eram técnicas assalariadas da instituição, tiveram de passar a residir – quer dizer, a dormir – numa outra casa. Durante o dia, estavam com os seus “meninos” e “meninas”, para dormir tinham de os deixar apenas com as técnicas.

 

Referência, mãe, irmã, amiga
Maria João Neves, Casa de Betânia, Doroteias

Maria João Neves, na festa de 55 anos de religiosa, na Casa de Betânia, com Isabel Pinto (esqª), co-fundadora da Casa, e Ana Maria Teixeira, assistente social. Foto cedida por Ana Maria Teixeira.

 

Em 2010, apareceu Ana Maria Teixeira, então com 30 de idade e recém-licenciada em Serviço Social. Era 8 de Fevereiro, a mesma data em que a irmã Maria João morreria, 11 anos depois – uma coincidência que a impressiona.

Ana vinha das Pedras Salgadas (Vila Pouca de Aguiar), onde tinha a possibilidade de um emprego, mas quis fazer uma entrevista com a irmã Maria João Neves, para ver se podia fazer voluntariado na casa. No final, ela perguntou se Ana Maria ficava ou ia embora. Ela respondeu que não trazia nada consigo, Maria João retorquiu que havia na casa tudo o que ela necessitaria. Ficou até hoje.

“O que mais me marcou foi a vida em comunidade. É o facto de, aqui, estarmos juntos uns com os outros, partilhar as mesmas memórias, os mesmos afectos”, recorda, sobre a freira doroteia. “Ela era uma grande lutadora, era a grande referência da minha vida, como uma mãe que está connosco nos momentos bons e maus. Tudo o que eu precisasse, ela tornava presente.”

Também para Isabel Pinto, Maria João foi “uma verdadeira irmã, uma amiga”. Personalidade “fortíssima”, não media o que dava nem “a disponibilidade para quem quer que fosse”. Era de “uma força interior incrível e de uma amizade sem limites; quando já estávamos no final ela estava no princípio”.

Nos últimos anos, a irmã João Neves manifestava-se uma apaixonada pelas causas que o Papa Francisco promovia, nomeadamente a ecologia e a Amazónia: “De tudo fez uma causa, toda a formação” das pessoas da Casa de Betânia passou a englobar esses temas.

A irmã Conceição Oliveira, actual responsável das religiosas doroteias em Portugal, também recorda uma amiga “apaixonada pela vida e com uma entrega radical aos mais frágeis”.

Tinham-se aproximado nos últimos tempos, depois de Conceição Oliveira ter sido eleita para o cargo de provincial, em 2016. “Ficámos muito próximas pela necessidade que ela tinha de dialogar e partilhar”, recorda.

“O que me impressionava é que ela tratava aquelas pessoas no sentido de as promover para terem uma vida normal. Levou-as à Jornada Mundial da Juventude, em Madrid, levava-as [à comunidade ecuménica de] Taizé, [em França], a visitar a Expo 98. Fazia sempre tudo o que podia para elas terem uma vida normal e se sentirem promovidas na sociedade.”

 

“Uma senda a trilhar, um caminho a nunca esquecer”
Maria João Neves, Casa de Betânia, Doroteias

Foto de família de residentes e alguns voluntários da Casa de Betância, fundada por Maria João Neves, irmã doroteia. Foto cedida por Ana Maria Teixeira.

 

Natural de Montemor-o-Novo, Maria João Neves nasceu a 7 de Maio de 1942 e entrou na congregação das irmãs doroteias a 8 de Dezembro de 1965, no Linhó (Sintra). Aí fez o noviciado, professando os votos perpétuos a 12 de Agosto de 1975. Mas desde 1964 um sonho marcava a sua vida, como a própria escrevera num testemunho. Mas nessa altura ainda não via claro o que pretendia. “Os tempos ainda não abordavam tais questões sociais e espirituais e eu não conseguia perceber o apelo que esse sonho escondia”, dizia.

Entretanto, frequentara o curso de Filologia Germânica, na Faculdade de Letras de Lisboa, entre 1960-65. A sua tese de licenciatura foi sobre Gertrud von Le Fort, escritora alemã nessa altura ainda viva, uma das primeiras mulheres a frequentar a Universidade, em Heidelberg, e que escrevera uma obra de filosofia e teologia sobre a mulher.

Le Fort foi “um farol” para Maria João, confessava a própria. A par de Paula Frassinetti, a italiana que fundara as doroteias, no século XIX e que falava das jovens menos dotadas intelectualmente como as imagens de Deus sem moldura, às quais também se entregara como educadora.

Na educação cumpriu-se a primeira etapa da vida religiosa da irmã Maria João: em escolas da congregação ou em escolas públicas ensinou Português, Inglês e Religião, orientou formações e estágios, foi responsável pedagógica. Entre 1986 e 1991, dirigiu o Colégio de Santa Doroteia, em Lisboa, período que ela definia como seis anos intensos, tentando abrir a escola a “novos horizontes pedagógicos”.

“Por onde passava deixava a marca da sua forma de estar na vida, de se entregar, de sonhar e olhar em frente, com determinação e ausência de limites”, diz um texto da congregação, publicado por ocasião da sua morte. “Por vezes tornava-se quase difícil acompanhá-la, mas o seu entusiasmo, sempre tão genuíno, contagiava e acabava por ser o suporte de todos os que, com ela, partilhavam o ideal e o trabalho.”

A criação da Casa de Betânia teve também escolhos em algumas comunidades católicas “pouco esclarecidas”, como ela dizia na reportagem que pode ser vista no vídeo abaixo reproduzido. Havia “dificuldades na integração”, mas “estas pessoas são iguais a todas as outras: ajudaram na missa, estiveram presentes como qualquer outra pessoa”.

Persistiu na ideia de retirar essas pessoas de asilos e integrá-las “numa vida familiar comum” ou, quando há uma família, levá-las a “participar na sociedade”. Porque essas pessoas “são um dom de Deus ao mundo, à Igreja, têm capacidades únicas” e têm “outra maneira de vivenciar a vida”.

Numa pequena memória autobiográfica, Maria João escrevia, sobre o modo como via o seu trabalho de educadora: “Abrir as jovens que educava a uma vida de maior responsabilidade e verdade, de solidariedade para com os mais fracos” era “a senda a trilhar, um caminho a nunca esquecer.”

Foi esse o caminho que trilhou até final.

 

(Na reportagem a seguir há várias intervenções de Maria João Neves a partir dos 3’58”)

 

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