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Maria Madalena imaginada pelo pintor italiano Rutilio Manetti em 1620

Tese de doutoramento

Maria Madalena, “a primeira crente”, foi figura de referência nas primeiras comunidades cristãs

| 12/03/2024

Maria Madalena imaginada pelo pintor italiano Rutilio Manetti em 1620

Maria Madalena imaginada pelo pintor italiano Rutilio Manetti em 1620 (pormenor).

 

A figura evangélica de Maria Madalena continua a suscitar atenção no espaço cristão e fora dele. Agora foi na Pontifícia Universidade de Comillas, em Espanha. A teóloga Carmen Picó Guzmán defendeu, no mês de fevereiro, uma tese de doutoramento intitulada “A tradição joânica de Maria Madalena (Jo 20,1-18). Das origens ao primeiro terço do século III”.

Ao longo de quase 450 páginas e nove densos capítulos, a investigadora começa por confessar a atração que nela suscitou a cena apresentada no capítulo 20 do Evangelho de João (“Na manhã do primeiro dia da semana…”), em que Maria Madalena foi de madrugada ao sepulcro, se tornou a “protagonista da primeira aparição de Jesus ressuscitado” e a primeira a anunciar a Ressurreição.  Foi aqui que ganhou corpo o projeto de uma investigação que esteve na base da tese agora defendida.

“Nas palavras ‘Eu vi o Senhor’ (Jo 20,18a), que o autor do texto joânico põe na boca da Madalena – escreve Carmen Picó – encontramos uma tradição que mostra a novidade da revelação, a novidade do acolhimento por uma mulher e a experiência de fé do discípulo que dá testemunho à comunidade”.

A teóloga deu-se como primeiro objetivo estudar “a tradição joânica sobre Maria Madalena (…) e a forma como ela foi preservada ou não nas comunidades de origem cristã”. Para tal, procurou “compreender a origem da tradição que atribui a Maria de Magdala a primeira proclamação do kerigma [anúncio das verdades da fé]” e “saber como a sua figura foi recordada nos primeiros tempos da experiência cristã e como foi preservada ou transmitida nas origens cristãs, nos diferentes contextos e comunidades, e as consequências que isso teve”.

Outro objetivo da investigação foi “estabelecer as relações entre os vários testemunhos literários que preservam ou silenciam [essa figura], ao longo dos dois primeiros séculos da literatura cristã”.  Nessa busca sobre uma multiplicidade de fontes e de estudos multidisciplinares já desenvolvidos, a agora doutora pretendeu ainda “iluminar os aspetos das origens cristãs relacionados com o protagonismo da mulher”, tendo em conta o desafio do contexto cultural e social, no seio do “movimento cristão plural”.

O estudo analisa, assim, “a memória da comunidade joânica e de outras comunidades das origens acerca da tradição apostólica de Maria Madalena, conservada apenas no quarto Evangelho”, ou seja, no de João, mapeando “as influências sociais, culturais e teológicas entre as comunidades das origens até ao século III”.

Embora a pesquisa da autora entre pelo século III, o ano de 202 constitui, do seu ponto de vista, “um marco de mudança de perceção do movimento cristão”, por parte do Império Romano. De facto, é nesse ano que é publicado o édito de Septímio Severo, o primeiro ataque à instituição cristã, proibindo a conversão ao cristianismo e a propaganda da fé em Jesus.

Carmen Picó defende, nas conclusões do estudo, que “Maria Madalena marca a memória da comunidade joânica”. “A sua palavra (‘Eu vi o Senhor’) implica admitir que a morte pública e humilhante não foi a última palavra na vida de Jesus de Nazaré. Maria Madalena é uma testemunha pelo seu o seu testemunho e por isso é escolhida para a atividade celebrativa da comunidade”, como “garante da fidelidade às origens”, nota a teóloga.

“Numa comunidade onde crer significa relação pessoal e encontro, Maria Madalena é escolhida como a primeira crente. Nesta comunidade que se reúne para celebrar as experiências que evidenciam a importância da relação pessoal com o Ressuscitado, a experiência de Maria Madalena é a experiência de uma nova fé em espírito e verdade, naquele que é o primeiro crente”, acrescenta a parte conclusiva da tese.

Os leitores interessados em consultar o texto da dissertação – entretanto já disponibilizado em acesso aberto pela Universidade de Comillas – poderão verificar o aturado trabalho conceptual e metodológico (exegético e sociológico) desenvolvido por Carmen  Picó, a diversidade de fontes literárias utilizadas, a vasta bibliografia consultada, que permite construir uma visão do lugar proeminente de Maria  Madalena, mas também das comunidades que a tomaram como referente fundamental.

Refira-se que a autora é licenciada em Biologia pela Universidade Complutense de Madrid e licenciada em Teologia (especialidade de Sagrada Escritura) pela Pontifícia Universidade de Comillas, e especialista nos primeiros séculos do cristianismo. É autora de várias obras, publicadas nas edições Verbo Divino.

 

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