7MARGENS/Antena 1

Mário Lúcio Sousa: “O mundo caminha para a crioulização”

| 26 Jun 2024

Mário Lúcio Sousa: O espaço de crioulização é o “espaço de convivência com portugueses, com africanos” não “na diferença, mas no encontro, na confluência”. Foto © António Marujo/7MARGENS

“O mundo está a caminhar” para a crioulização, “para que um dia tenhamos todos múltiplas raízes”, diz o escritor e músico cabo-verdiano, Mário Lúcio Sousa, autor de O Novíssimo Testamento, um romance que parte da pergunta “E se Jesus ressuscitasse mulher?” O também antigo deputado e ministro da Cultura de Cabo Verde considera que o espaço de crioulização é o “espaço de convivência com portugueses, com africanos” não “na diferença, mas no encontro, na confluência”, como refere, em entrevista ao programa 7MARGENS, da Antena 1.

Bisneto de um português e de uma escrava, Mário Lúcio Sousa entende-se como europeu e africano. “Isso faz-me não sentir ingrato; pode ser uma opção política, de inclusão, de comunidade, da minha postura em relação aos outros, eu sou 50/50.”

Considerando a crioulização uma dimensão “muito importante”, porque é o espaço que permite “ser aquilo que a história deu”, diz que esse “é um espaço bem bonito, bem importante e que nos dá grande esperança: o mundo está a caminhar para lá.”

“Em Cabo Verde, nas Antilhas e por onde os crioulos andaram, temos de conhecer bem a nossa identidade, que é uma identidade de síntese, que não está situada nos radicais, está situada no caminho do meio”, acrescenta. “Quando escrevo e acuso, também me estou a acusar, porque sou filho da vítima e do carrasco; conviver com isso na mesma pele leva a um processo de luto e de luta também.”

Com uma escrita que assume um ritmo comparável ao de José Saramago, uma criatividade linguística ao nível do moçambicano Mia Couto e um processo narrativo em linha com o realismo mágico latino-americano, o autor do recente O Livro Que Me Escreveu assume essas influências: “Escrevo desde criança, mas o grande encontro da minha literatura foi com a literatura latino-americana”. Na escola, “a realidade dos livros” que chegavam de Portugal – Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco… – não era a da realidade cabo-verdiana, afirma. “Só percebemos a nossa realidade” com escritores como Graciliano Ramos ou Jorge Amado, diz o escritor que estudou Direito em Cuba. “Nós imediatamente nos revimos em toda a literatura sul-americana. Tenho muito de Vargas Llosa, Garcia Marquéz, Júlio Cortazar, Jorge Luís Borges, Alejo Carpentier, li tudo o que havia.”

Quanto a Saramago, Mário Lúcio admite gostar “de literatura contínua” e não ser “muito fã do parágrafo”. Por isso, inspirado em Saramago, usou esse processo n’O Novíssimo Testamento. “É a questão do ritmo, da dança, da toada, uma coisa muito cabo-verdiana.”

Em relação a Mia Couto, Mário Lúcio Sousa sente-se afastado num detalhe: “O Mia Couto inventa palavras, eu vou buscar palavras no português quinhentista”, que “estão persentes no crioulo; a partir daí há uma ponte comum com o Mia Couto, que é o deixar a palavra existir, porque não está na língua, mas precisamos dela”.

 

O anjo da boca aberta e as reparações do colonialismo

“Se metade dos presidentes da república do mundo fossem mulheres, o mundo estaria melhor” é a ideia de ponto de partida do próximo romance de Mário Lúcio Sousa. Foto © António Marujo/7MARGENS

Com uma tal riqueza literária, o autor não foge à provocação: e se um dia receber o Nobel da Literatura? “Vou contar uma história lindíssima: a minha avó dizia que entre os vários anjos que existem no céu, há um que se chama anjo Boca Aberta.” A sua única função “é estar de boca aberta: quando alguém diz uma frase” como a que a pergunta expressou, “o anjo diz ‘ámen’ e volta a abrir a boca”.

Admitindo que a espiritualidade e a referência cristã estão muito presentes, o escritor cabo-verdiano diz que tudo o que escreve “está carregado dessas várias formas de ver Deus, sentir Deus, estar perto de Deus, chegar a Deus”, que são a meditação, a oração ou outras páticas religiosas. Mas nos seus livros também aparecem elementos de outras religiões como o hinduísmo, taoísmo ou judaísmo… Deus, acrescenta, manifesta a incapacidade humana de pensar sem imagens. “Essa abstracção poderosa” tem de ligar o momento em que nada existe mas a mente consegue lá chegar lá ao momento que “imediatamente deixou de existir”. Deus “não é criado, não cessa, não tem origem nem tem fim”.

Autor de O Diabo Foi Meu Padeiro, romance situado no campo de concentração do Tarrafal, junto do qual o escritor nasceu em 1964, Mário Lúcio Sousa debate também a proposta do Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, de discutir a reparação dos erros do colonialismo. “Uma declaração com essa magnitude deve ser preparada, a população deve ser preparada, os académicos devem ser envolvidos, os outros (nomeadamente aquele que se quer compensar) devem ser ouvidos”, afirma.

Será importante ainda “distinguir” o que é restituição, reparação e indemnização. No primeiro caso, falamos por exemplo de “objectos sagrados que foram desenterrados e trazidos e as pessoas ficaram sem as suas referências religiosas”. Por isso, será “normal” e “legítimo” que o tema seja discutido, como já tem sido, “entre Estados, entre culturas”, com obras de arte a serem já devolvidas por vários países.

Outro aspecto é a reparação, que deverá analisar o que “a colonização causou nos países colonizados: atraso, exploração dos meios, processo de descolonização com traumas para todos os lados”. Trata-se de “parar e ver onde é que houve erros e excessos e não deixar que as consequências continuem a parir erros e excessos”. Serve o exemplo da alfabetização em Cabo Verde, em que foi o país fez um enorme esforço para debelar o analfabetismo que ficou do tempo colonial, com “grande ajuda de vários países, entre os quais Portugal”. Finalmente, a indemnização, para a qual já houve propostas de países das Caraíbas. Todas estas possibilidades “são coisas muito sérias, que importa discutir”, diz o antigo ministro.

Mário Lúcio Sousa defende ainda a possibilidade de um mundo aberto. “A nossa imaginação precisa de referências: já tivemos um mundo sem fronteiras; a primeira epopeia humana conseguiu chegar onde chegou porque não havia fronteiras, não havia gente a dizer: ‘vens de onde e vais pra onde?’ Essa gente é que fez o onde.”

“Quando muitos africanos, asiáticos e latino-americanos perceberem que a emigração é um risco e não é um eldorado, aí haverá um freio”, afirma ainda, sobre a questão as migrações, dizendo que a ideia de migrar está muito presente na cultura cabo-verdiana e que houve muitos concidadãos que trabalharam, ganharam dinheiro e emigraram em seguida.

Sobre o próximo romance, o escritor desvenda o ponto de partida: “Se metade dos presidentes da república do mundo fossem mulheres, o mundo estaria melhor.”

A entrevista, que inclui duas músicas de Mário Lúcio Sousa, pode ser ouvida na íntegra na RTP Play: https://www.rtp.pt/play/p12257/e777901/7-margens

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Onde estão as mulheres na música litúrgica católica?

Onde estão as mulheres na música litúrgica católica? novidade

Na música, um dos ministérios mais estruturantes da liturgia católica, este paradigma mantém-se, embora com nuances particulares: salvo algumas (felizmente, cada vez mais) exceções, o ministério do canto, domingo a domingo, é, em Portugal, sustentado maioritariamente por mulheres e a regência dos coros é, preferencialmente, entregue a homens

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This