Mário Murteira, sócio-economista cristão: laicalidade na laicidade

| 9 Fev 20

Mário Murteira. Foto Wikipédia

Mário Murteira (Lisboa, 19-4-1933 – 15-3-2013) era doutorado pelo hoje designado Instituto Superior de Economia e Gestão, e professor catedrático do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa; distinguiu-se como notável economista na segunda metade do século passado. Muito próximo do padre Manuel Antunes e integrado na corrente dos «católicos progressistas», que nunca exibiu, foi um verdadeiro economista social, no sentido mais amplo e exigente, com boa fundamentação filosófica e humanista. Pertenceu à equipa do Dr. João Moura, promotora do Fundo de Desenvolvimento da Mão-de-Obra, a par do escritor Nuno Bragança e de outras figuras.

Dentro da sua vasta bibliografia nos domínios da economia, gestão, desenvolvimento e geoestratégia, atuando em vários países sobretudo africanos, publicou em 1969 o livro Economia do Trabalho (Clássica Editora), que marca uma notória viragem no tratamento deste assunto. Os próprios títulos em que se desdobra o livro indiciam claramente a mudança: o 1º. respeita ao «mercado de emprego na economia nacional»; note-se «mercado de emprego», em vez de «mercado de trabalho»; o 2º. aborda a «política de emprego»; o 3º., a «análise económica do sindicalismo», tido como realidade também (embora não só) económica; o 4º. tem como objeto «a determinação do salário na indústria»; o 5º., «a atuação dos poderes públicos na determinação dos salários»; e, o último, os «problemas do trabalho nas economias em desenvolvimento».

A introdução, cheia de atualidade, anota os riscos da ideologização, que se observam em toda a economia, e assume que a do «Trabalho deveria fornecer os fundamentos para uma política de reformas orientada para a promoção económica e social das classes trabalhadoras (…)». Não de maneira simplesmente abstrata, mas tendo presente a «relação mista de conflito e de cooperação» existente no mundo laboral.

Alguns cristãos comprometidos no social atuam como prolongamento da hierarquia: difundem a doutrina social da Igreja e procuram aplicá-la. Outros assumem-se como pessoas inseridas nas realidades terrestres laicas – não confessionais: procuram, nelas, as necessárias linhas de conduta e aferem-nas com as daquela doutrina; note-se que existe um esforço antigo e permanente de procura dessas linhas, realçando-se  porventura a Organização Internacional do Trabalho com o seu diálogo sistemático e a procura persistente dos entendimentos possíveis entre representantes de governos, empregadores e trabalhadores (cf. Caritas in Veritate, de Bento XVI, nº. 63). No fundo, ambos os grupos de cristãos seguem o mesmo rumo, a partir de experiências e relações diferentes.

Mário Murteira pertence claramente ao segundo grupo, e levou o seu compromisso sociopolítico até à participação nos governos do general Vasco Gonçalves; por isso, correu o risco de ser conotado com os dinamismos do «processo revolucionário em curso» de 1974-75. Sofreu alguns dissabores nas comunidades cristãs em que se inseria e, salvo uma ou outra exceção, não viu reconhecida a sua verdadeira identidade sociocristã. Pouco ou nada se conhece publicamente acerca do esforço extraordinário que ele próprio, o Dr. J. Silva Lopes, o Prof. A. Ramos dos Santos e outras figuras desenvolveram para a compatibilização do processo revolucionário com a prosssecução do bem comum e a salvaguarda dos equilíbrios socioeconómicos-financeiros fundamentais.

A laicalidade (própria de leigos) inserida na laicidade (própria da não confessionalidade) está perfeitamente de acordo com a «autonomia das realidades terrestres», reconhecida na constituição pastoral Gaudium et Spes, nº. 36, do Concílio Vaticano II e com a intervenção salvífica nelas (cf. Lumen Gentium, nº. 31).

 

Acácio F. Catarino é consultor social e ex-presidente da Cáritas Portuguesa; o texto foi inicialmente publicado em duas partes nas edições de 27 de Novembro e 4 de Dezembro de 2019, do Correio do Vouga.

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