“A literatura, a arte, a música, o cinema, não fazem outra coisa senão falar do combate espiritual” e por isso “convém que se torne moda falar sobre” esse combate no campo de batalha que é o coração de cada pessoa – diz o padre Mário Rui de Oliveira, autor de A Estrela e o Espelho – Compreender hoje os pecados capitais (Paulinas Editora), nesta entrevista ao 7MARGENS.
Depois de ter publicado três livros de poesia na Assírio & Alvim, Mário Rui de Oliveira aborda, nesta obra, os logismoi, “oito insinuações que nos assaltam como ladrões no escuro” catalogadas por Evágrio Pôntico, eremita do deserto do século IV. A sua intenção é propor “um outro modo de falar, sobretudo um outro modo de propor, de aceder a esta matéria”.
Avisando que um dos riscos, quando se abordam temas como este “é a tentação de, com a moral, degenerar no moralismo”, Mário Rui de Oliveira, originário da arquidiocese de Braga mas a trabalhar no Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica da Santa Sé, diz que “a morte levou ao desejo desenfreado da imortalidade, colocando-nos no lugar do outro”.
Autor de O Vento da Noite (2002), Bairro Judaico (2003) e O Livro da Consolação (2019), Mário Rui de Oliveira afirma que, hoje, “o grande pecado continua a ser o pecado do orgulho, porque queremos substituir-nos ao lugar do próprio Deus, dominar o querer tudo e já, o querer o prazer imediato e o querer ter tudo, mesmo que se tenha de sacrificar os outros com quem temos uma relação”. E vive-se muitas vezes “como se não houvesse amanhã, quase até como uma ganância desmedida, desenfreada, compulsiva”.
O livro, do qual o 7MARGENS divulgou um excerto em pré-publicação, inclui ainda reproduções de pinturas do artista italiano Giancarlo Pavanello que, em linguagem verbo-visual, escreve, reescreve e pinta “a mesma coisa que o autor do livro diz no texto.

Giancarlo Pavanello, Ira, uma das obras do livro, em diálogo com o texto: “A ira fulmina com setas sanguinolentas e quando a tormenta da alma se acalma apenas uma névoa envenenada resta, turvando o charco sombrio de onde emergem, escorregadias, serpentes anfíbias.”. Foto: Direitos reservados.
7MARGENS – Diz, logo no início do livro, que falar em pecados capitais é démodé. Faz sentido recuperar hoje esta linguagem numa sociedade secularizada como a nossa?
MÁRIO RUI DE OLIVEIRA – Naturalmente, estou convencido que vale a pena; se não, não teria dedicado o meu tempo a fazer dois exercícios espirituais para sacerdotes e sobretudo a escrever um livro. É uma figura de retórica dizer que é um tema démodé; é um tema que está muito na moda ou está um bocadinho esquecido mas convém que se torne moda falar sobre combate espiritual e falar sobre o coração como um laboratório muitas vezes impuro.
Temos a tentação de pensar que o coração é uma coisa muito romântica, mas o coração é um laboratório sujo. O David Bowie tem uma música extraordinária, que é a última música do filme Seven, The Heart’s Filthy Lesson, “a lição de um coração sujo”. É muito actual, parece démodé, mas é muito actual. Se olharmos para a literatura, para a arte, para a música, para o cinema, não se faz outra coisa senão falar disso. Podem-lhe dar outros nomes, mas estamos a falar do combate espiritual, do combate dentro do coração.
7M – Continuamos a falar de uma linguagem entendida sobretudo por cristãos, eventualmente por alguns crentes de outras religiões, mas que a sociedade secularizada não entende. Muitas vezes, até por oposição, diz-se que os pecados são aquilo que é bom, aquilo que dá prazer, o comer bem ou ter dinheiro para viajar, etc.
Sim, é uma linguagem da tradição, é uma linguagem antiga, que vem desde os primeiros séculos e, por isso, é normal que tenha sofrido um certo desgaste. No entanto, tem um certo fascínio, mesmo que a cultura olhe para esta realidade com certa ironia, com certo sarcasmo. Se lermos os desafios que lançaram muitos escritores, eles jogavam com essa palavra, dizendo: “o orgulho é a minha virtude preferida, ou a preguiça, se fôssemos mais preguiçosos, se calhar havia menos mal no mundo, menos guerras no mundo, porque o preguiçoso não faz guerras”…
Sim, se calhar é necessário encontrar um outro modo de falar, sobretudo um outro modo de propor, de aceder a esta matéria. Este livro pode ser um contributo para isso: recorrendo à literatura, ao exemplo da arte, podemos quase que resgatar estes temas, que pertencem à tradição, [mas são] muito importantes para hoje. São uma proposta, pode ser uma provocação, mas é uma provocação estimulante para a cultura de hoje.
7M – É nesse sentido que fala em relações deformadas, em relação a cada um dos pecados, com a comida, com o corpo, com o dinheiro?
Se tomarmos consciência de que a verdadeira batalha não se trava contra o mundo exterior, mas contra um turbilhão interior, que nasce dentro de nós, que está no nosso coração… É no coração que começam os demónios, outra palavra muito démodé, que se revelam mais subtis, mas que se reflectem depois muito na sociedade: as batalhas exteriores são necessariamente o fruto de batalhas perdidas interiormente.

Mário Rui de Oliveira na livraria Paulinas, em Lisboa: “Evágrio Pôntico não é um moralista.” Foto © António Marujo/7MARGENS.
7M – Evágrio Pôntico [345-399], que viveu no deserto no século IV, dizia que a intenção da lista que ele codificou não era tanto o condenar, mas o iluminar, nem tanto o punir, mas o discernir. Não há uma mudança de paradigma, pensando no que é hoje a lista dos sete pecados capitais?
É muito interessante pensar que Evágrio Pôntico não é um moralista. É um padre do deserto, do século IV, [quando] o cristianismo ainda é muito próximo das origens, a forma como se vive o cristianismo é sobretudo o seguir uma pessoa, o seguir Jesus.
7M – [E que tinha] uma expressão marginal, minoritária…
Ainda muito marginal, mas muito pura, quase selvagem. Por isso, a preocupação dele não é fazer moral, não é limitar ou orientar comportamentos morais, mas é iluminar, favorecer o melhor modo de seguir Jesus, de viver a sequela Christi. Por isso ele não é um moralista, nem tem essa intenção: vive isolado no deserto, tem contacto com pessoas que vão ao encontro dele; na sua autoanálise, descobre dentro de si estes pensamentos: ele diz que, antes de o ser, o pecado foi um pensamento, foi uma sugestão, foi um sussurro, um ciciar, os tais pensamentos malignos. Antes da acção, é um pensamento.
Ele diz que os logismoi, estes pensamentos malignos, não dependem de nós; o que depende de nós é permanecer neles, é dar espaço a esses maus pensamentos, dialogar com o mal, porque implica toda a nossa liberdade neste jogo, porque este pensamento vem de fora, nem sequer vem do nosso coração. Naturalmente ele usa a linguagem dos demónios: o demónio é qualquer coisa que está fora de nós, não é qualquer coisa que vem de Deus, que vem do Espírito; mas é qualquer coisa que nos chega, independentemente da nossa vontade.
7M – E que traz um confronto…
É inevitável que mais cedo ou mais tarde [nos sintamos] confrontados com estes pensamentos, que assaltam a alma. [Evágrio] não é apenas um místico, mas um grande psicólogo, um anatomista, um cartógrafo do espírito, que conseguiu identificar estes pensamentos. E é a primeira vez na história que se faz.
Ele chama-os pensamentos malignos, que são fundamentais, porque são a origem de todos os outros males. Ele deu um nome ao inimigo. Mais tarde, Cassiano trouxe essa doutrina de Evágrio para o Ocidente, para a Gália e depois o Papa Gregório Magno fez um sistema moral com estes pensamentos. Os logismoi de Evágrio Pôntico, que nascem no século IV, no século VII são já inseridos dentro de um sistema moral, em que vivemos já num contexto de cristandade, e por isso é necessário dar à comunidade cristã um comportamento de acordo com a mensagem do cristianismo.
Gregório Magno, Papa e doutor de Igreja, fez destes logismoi uma categoria, um sistema, um sistema moral: são os chamados pecados capitais que atravessaram toda a Idade Média, a Reforma, até chegar a nós hoje, certamente um bocadinho desgastados já…

Thomas Merton: “Temos pessoas extraordinárias que conseguiram ler os sinais dos tempos, e interpretar para hoje com uma linguagem sedutora…” Foto: Direitos reservados.
7M – Esse processo acaba exatamente com esse desgaste, com uma certa descredibilização. Há pouco usou a palavra combate, que é também usada por Evágrio. Mas esta lista, este quadro de referência, acabou também por ter, com o decorrer dos séculos, uma grande carga não só moral, mas muitas vezes moralista. Terá sido isso também que acabou por lhes retirar credibilidade?
Um dos riscos identificados é a tentação de, com a moral, degenerar no moralismo, que é um certo controlo da consciência do cristão. Naturalmente, quem domina o comportamento de uma pessoa, domina a pessoa completamente. A Igreja tem consciência disso e caiu muitas vezes nesse pecado.
7M – Toda a Igreja?…
No confessionário, porque a doutrina de Evágrio passa do deserto para o púlpito, para o confessionário, para a homilia. Naturalmente, tratando de hábitos, de comportamentos na sociedade, na família, a Igreja foi impondo a sua visão da realidade, da moral sexual, da moral familiar, da moral social, e isso deu-lhe muito poder também sobre as pessoas. E se foi ou não fiel sempre, sabemos pela história: muitas vezes, infelizmente, não conseguiu ser mãe e mestra, mas mais dominadora da consciência dos cristãos.
7M – O bispo Alexandre Palma, no prefácio, diz que a ignorância sobre nós próprios é uma das mais graves iliteracias contemporâneas. Não há aí também um falhanço da Igreja? Onde estão os grandes místicos? Seja dos primeiros séculos, sejam os místicos medievais, renascentistas, contemporâneos, desapareceram. Hoje é difícil encontrar alguém que conheça bem Santo Agostinho, Teresa d’Ávila…
Não seria tão pessimista. Simone Weil é uma mulher do nosso tempo, Thomas Merton, Tolentino Mendonça, o Papa Francisco… Temos grandes sinais, temos pessoas extraordinárias que conseguiram ler os sinais dos tempos e interpretar para hoje até com uma linguagem sedutora, cativante…
Naturalmente, às vezes temos a tendência de ser um pouco pessimistas e pensar que está tudo mal. Mas não, a última palavra é sempre para a esperança. Estou plenamente convencido que há grandes homens de Deus e mulheres de Deus que conseguem ainda sustentar este mundo.

Giancarlo Pavanello, Orgulho: “De asas atrofiadas, sobe-se pelas escadas até ao último andar, a um quarto com a porta aberta sobre o nada. Não resta que descer até ao rés-do-chão, até ao derradeiro ardil, onde o silêncio divino abafa os ruídos a esquecer.” Foto: Direitos reservados.
7M – Mas parto de um exemplo concreto: há uns três anos, numa missa do dia de Santo Agostinho, ouvi um padre falar várias vezes sobre Agostinho, mas nunca foi capaz de referir um único livro. Nem mesmo as Confissões. Estas ocasiões não deveriam ser muito mais aproveitadas para falar desses nomes grandes?
Hoje temos um Papa que é agostiniano, enquanto com o Papa Francisco se falou muito de São Francisco, de Santo Inácio… O facto de termos um Papa agostiniano fez tirar o pó de todo esse património imenso que é a bibliografia de Santo Agostinho, e hoje não há nenhum texto que o Papa proponha que não venham citações de Santo Agostinho.
Isso vê-se também certamente na editoria: os livros foram de novo colocados à venda. Sei que o artista Giancarlo Pavanello, que fez estes painéis, para os fazer, leu também as Confissões de Santo Agostinho, retomou os textos de Evágrio Pôntico. Nunca podemos ceder ao pessimismo e à falta de esperança.
7M – Acaba com essa nota no livro, precisamente…
Temos essa tendência, mas há sinais maravilhosos: há jovens a redescobrir Santo Agostinho, há jovens que caminham e que aprofundam estes temas e há coisas que não dependem de nós e por isso não podemos ser pessimistas.
7M – Mesmo se pensarmos em realidades como guerras terríveis como as que estamos a viver.
Mesmo apesar disso e porque existe isso não podemos ceder ao pessimismo. Nós temos de viver na esperança. Essa é sempre a mensagem mesmo do Papa Leão.
7M – O Papa Francisco dizia que a esperança não é ficar sentado à espera.
Não podemos ficar de braços cruzados, mas também não podemos ceder ao pessimismo. Temos de ter a consciência muito clara de que o coração é um campo de batalha. Não aprendemos todos ao mesmo tempo e mesmo a cultura que não tem nada a ver com a religião, ensina-nos isso. Temos de aprender uma sabedoria. O cristianismo tem uma linguagem própria para falar das coisas. O cristianismo fala dos pecados capitais ou dos logismoi, a cultura tem outro modo de falar das mesmas coisas, certamente com uma outra linguagem muito mais plural, muito mais confusa.
Nós temos a vantagem de ter conseguido sistematizar o pensamento ao longo de tantos séculos, de conseguirmos dar um certo nome e conseguir encaixar as coisas. Naturalmente, o grande desafio é conseguir transmitir isto sempre com uma linguagem renovada e tirar-lhe o bolor que às vezes possam ter alcançado durante o tempo que passa.
Livros como este são propostas para tirar o pó a uma doutrina multissecular, mas que ainda é muito válida para os dias de hoje. Ainda hoje é preciso redescobrir este tema da luta, do combate espiritual, do crescimento na comunhão, na via para o Senhor. É uma linguagem que é preciso propor ainda hoje à Igreja e à sociedade.

Mário Rui de Oliveira, no final da sessão de apresentação do livro, na Capela do Rato, dia 5 de Março, em Lisboa. Foto © António Marujo/7MARGENS
7M – Precisamente tirando o pó de um conceito criado por Santo Agostinho, o pecado original. Quando fala do texto sobre Adão e Eva e sobre o paraíso refere-se a essa história como reflectindo o medo da morte, não fala do pecado original. O padre Armindo Vaz, que escreveu também sobre esse tema, diz que aquele episódio é sobretudo para falar do sentido último da história e da humanidade. Estamos perante um episódio que traduz o nosso medo pela morte enquanto seres humanos?
A Carta aos Hebreus diz isso. Cito o texto de Hebreus 2, 14-15, que diz: “libertar aqueles que por medo da morte passavam toda a vida dominados pela escravidão.” É muito interessante descobrir que na origem do orgulho está, talvez, este medo da morte, o medo como instigação a pecar, a morte não só como o salário do pecado, mas também a instigação a pecar. É precisamente este medo que nos impele a procurar a vida no pecado.
O facto de vivermos o medo da morte incendeia o desejo de viver para sempre. E isso a todo o custo: ao custo de oprimirmos quem está ao nosso lado e de elevar a categoria do eu ao centro absoluto do nosso mundo, que é a philautia, o amor exagerado por si mesmo.
Como vivemos com o medo, quero lutar contra esta morte colocando-me no centro, no amor egoísta. É isso que leva a procurar preservar, a todo o custo, a nossa vida, desejando possuir todos os bens da Terra dominando os outros. São as tentações do Génesis (da introdução do pecado no mundo, a experiência literária para contar essa [experiência]), que depois são também a experiência de Jesus no deserto: onde Adão falhou, Jesus é o antítipo de Adão; no fundo, para dizer precisamente que a morte levou ao desejo desenfreado da imortalidade, colocando-nos no lugar do outro.
7M – Se percebi bem, Evágrio falava sobretudo de vícios, mais do que de pecados. Hoje, se falássemos de vícios não seria uma linguagem com mais possibilidades? Vícios é uma palavra que se usa noutros campos do saber também…
Uso vários sinónimos para falar dos pensamentos e um dos sinónimos muito recorrentes é vícios e paixões. O Papa Francisco também se deixou seduzir por este tema e dedicou-lhe uma série de catequeses das quartas-feiras na Praça de São Pedro, revisitando Evágrio Pôntico.
As catequeses dele foram todas publicadas e o [título é] Catequeses sobre os vícios e as virtudes. Naturalmente faço um jogo irónico, porque pode captar mais atenção dizer pecados capitais. Mas, no fundo, preferimos uma linguagem diferente, falando de vícios, de paixões…

Imagem de Seven, de David Fincher, com Brad Pitt e Morgan Freeman. Foto: Direitos reservados
7M – Há quem fale ainda de pecados mortais: vários artistas que cita têm obras com o título de pecados mortais.
Há um grande psicólogo e filósofo italiano, Umberto Galimberti, um homem extraordinário, de uma inteligência, de uma sabedoria muito grande, [que] também publicou um livro sobre os vícios capitais e os novos vícios. É muito interessante: ele quis reactualizar estes vícios antigos, revisitando os logismoi, mas descobrindo hoje também na nossa cultura novos vícios que tenham a ver com esses antigos. Um outro grande psicólogo, [Salvatore] Natoli, também escreveu sobre os vícios capitais, [o teólogo] Enzo Bianchi…
Este tema é muito cheio de vida na literatura da Itália, por exemplo. Mas no mundo da arte também: no ano passado celebrámos os 30 anos, com uma nova reedição, do filme Seven com Brad Pitt e Morgan Freeman, que é um marco, um filme extraordinário. Seven são os sete pecados capitais e ele vai falando sobre cada um deles. Na arte, temos presente o Hieronymus Bosch no Museu do Prado, em que os vícios entram pelos nossos olhos dentro, que é o ícone mais famoso para falar dos pecados capitais.
7M – Tomo [do livro] a referência do Paul Cadmus, que também pintou [os pecados capitais]. A propósito dessa obra, diz: “Não apareço eu mesmo, mas de certa forma, sou todos os pecados capitais e vocês também o são.” Isto é uma forma de dizer que o mal e o bem estão sempre sempre presentes em nós?
Também é isso e quando se vê o trabalho do Giancarlo Pavanello, que inicialmente pensou em distinguir o vício e a virtude, ele chega à conclusão de que é impossível realizar essa distinção, porque as coisas estão muito contaminadas: o vício e a virtude estão como que interligados. Aquilo que ele diz [é que] todos nós somos vício, todos nós somos virtude e isso tudo nesta batalha que se trava no nosso coração.
No filme Seven, a última música do David Bowie [que já referi] faz um diagnóstico cultural. Naturalmente, a preocupação de David Bowie não é fazer terapia espiritual, ele não consegue ir para além desse diagnóstico; mas nós podemos ir mais à frente e o cristianismo pode dar uma resposta: a fé propõe algo mais exigente, que é transfigurar esta sujeira que habita também o coração humano, transfigurá-la para que possa viver, purificar e converter o coração ao Evangelho de Jesus.

Giancarlo Pavanello, Luxúria: “As sereias roçando as coxas, alisando cada ego de passagem. Contentes, os cães no cio deixam-se devorar. Um engano o gozo que se evapora em tristeza. E depois retocam a maquilhagem.” Foto: Direitos reservados.
7M – As obras de Pavanello no livro são “uma rejeição anacorética do barulho da sociedade das imagens”, como diz Teresa Bartolomei no posfácio. Isto tem muito a ver com várias coisas que são ditas ao longo do livro, a propósito, por exemplo, do orgulho ou de outros logismoi. Estas obras são uma linguagem complementar ao texto? Porque fez o convite ao Giancarlo Pavanello?
A Teresa Bartolomei viu isso muito bem no posfácio: as obras, mais que ilustrações, são um outro modo de dizer a mesma coisa. A técnica destes artistas que vêm da vanguarda italiana dos anos 70, da poesia visual, [manifesta] uma grande preocupação: eles são gente muito culta, são poetas, escritores… a obra de arte, a tela, é também um texto, eles concebem muito a obra como um livro. Giancarlo Pavanello diz muitas vezes isso: se não lês, vês a obra apenas a metade.
Com o cromatismo escolhido, com a mistura do vício e da virtude, mas sobretudo com o texto, com a palavra, com o logos, ele está a escrever, a reescrever e a pintar a mesma coisa que eu digo no texto. Não é só para ilustrar, mas é um diálogo contínuo. Este tema também seduziu o mundo da arte, dos pintores, dos escritores. Por isso, quis fazer-lhe também esta provocação, este convite para que ele ilustrasse ou nos mostrasse, fazendo-nos ler também o seu modo de encarar este tema.
7M – Um homem não-crente?
Falamos de um artista que se autodesigna um agnóstico, mas um homem preocupado naturalmente pelo logos, pelos sinais, [um homem] espiritual, ainda que não seja confessional. Mas é um homem que se deixou seduzir também pela palavra.
Ele lê muito, mesmo do grego e do latim. Como eu tinha feito já uma outra proposta anteriormente, em que ele preparou uma Via Sacra do logos, que esteve também exposta no Dicastério para a Cultura, com o cardeal Tolentino [Mendonça], também entrou bastante bem dentro do tema, relendo, contactando de novo com os textos sacros. Foi ler Santo Agostinho, leu de novo Evágrio e deixou-se seduzir também por este tema.
7M – Refere uma história que se conta sobre Amónio de Nítria, um outro anacoreta do deserto, que terá queimado a orelha com ferro em brasa para não ser ordenado bispo e desse modo evitar a vanglória. Precisávamos de mais Amónios de Nítria hoje na Igreja, mesmo não querendo defender soluções tão radicais?
A vanglória também é a questão da inveja, a questão da vaidade, tudo isso entra…
Uma palavra-chave para combater os loguismoi, a palavra-rainha deste livro, é a humildade. Enzo Bianchi faz questão de sublinhar também esta nuance: mais que humildade, deveríamos falar de humilhações, que nos obrigam a ser mais simples, mais moderados, menos ambiciosos e, sobretudo, mais humildes.
Sem dúvida, é um mal também dos nossos tempos: o querer aparecer, o querer mostrar-se, o ser importante, o ter, o possuir, sem dúvida. Mas não é apenas um problema da Igreja, do clero, é também de toda a sociedade.
A nossa realidade hoje é que há até chefes de Estado que pretendem não apenas ganhar guerras, mas conquistar novos territórios, é uma questão também de vaidade.

Mário Rui de Oliveira durante a entrevista em Lisboa. Foto © António Marujo
7M – É o narcisismo erigido em formas de poder…
A propósito da líbido da posse, refere a idolatria do dinheiro. Quem tem dinheiro, hoje, tem poder, tem armas. Refere a exploração dos recursos naturais, o poder e o domínio sobre os outros e diz que, para Evágrio, a gula era a mãe de todos os vícios. Hoje não deveríamos dizer que este desejo do domínio é a mãe de todos os vícios? Que é dele que nasce o amesquinhamento do outro, o poder da posse, o desejo de posse?…
Naturalmente. Há [teólogos dos primeiros séculos], e Evágrio também o disse, para quem a gula seria a mãe de todos os vícios. Mas o vício mais incandescente e mais perigoso é o orgulho, essa relação deformada com o próprio Deus, é como querer substituir-se a Deus. E daí, o desejo, essa libido amandi, a libido possidendi, a libido dominandi, que no fundo é o triunfo do orgulho na vida de uma pessoa, é erigir-se como Deus e não como ser humano, e não como criatura.
Hoje, o grande pecado continua a ser o pecado do orgulho, porque queremos substituir-nos ao lugar do próprio Deus, dominar o querer tudo e já, o querer o prazer imediato e o querer ter tudo, mesmo que se tenha de sacrificar os outros com quem temos uma relação.
Nesta questão dos vícios, a grande novidade é o modo que temos de nos relacionarmos. Insistir sobre a dimensão relacional dos vícios, destes pensamentos, dos logismoi, é fundamental, é uma relação deformada, seja com a comida, seja com o corpo ou com a sexualidade, seja com o dinheiro, com os outros, com o tempo, com o espaço e com Deus. Tudo isso são modos diferentes de vivermos a dimensão fundamental do ser humano, que é a dimensão relacional.
7M – A gula, a relação deformada com a comida, é talvez uma das coisas mais difíceis. Estamos a falar de um contraste teológico e da origem do cristianismo: a instituição da Eucaristia, a Última Ceia. O cardeal Tolentino escreveu várias vezes que Jesus acaba por se revelar em várias refeições que toma [com outras pessoas]. Como se fala de um vício quando, por contraste, o cristianismo tem uma refeição como o seu grande momento, a sua grande celebração?
O estilo de vida eucarístico seria o grande remédio contra a gula. Conta-se que no ano 2000, um grupo de gourmets terá escrito ao Papa João Paulo II, para retirar a gula da lista dos pecados, porque hoje o comer, a gastronomia, a comida, é também uma arte…

Giancarlo Pavanello, Gula: “Afogando-se no caldo dos apetites. O estômago é um cemitério colonizado por vermes. Cada garfada é um prego cravado no espírito.” Foto: Direitos reservados.
7M – O gourmet nem sequer nos leva à gula…
A questão não é só a quantidade, é também a qualidade, a busca desenfreada de comidas caras, de comidas refinadas, também isso faz parte da gula, [tal como] a embriaguez.
Esta relação deformada com a comida, em que a expressão gastrimarghia significa a loucura do ventre, o delírio do ventre, como [diz] o Papa Francisco. No fundo, também é um descomedimento completo, é um comportamento de imoderação, de intemperança, de excesso de relação na comida, e por isso come-se com uma sofreguidão, como se não houvesse amanhã, quase até como uma ganância desmedida, desenfreada, compulsiva. O querer comer, e comer mais, comer sempre, comer bem, comer caro, tudo isso faz parte de uma relação que pode ser uma relação patológica com a comida.
Podemos estender também isso ao vício do consumo. Hoje não somos pessoas, somos consumidores e este pecado pode estender-se até ao vício do consumo, ao querer ter tudo, a possuir tudo, como se este vício criasse um entorpecimento, um entontecimento, uma estupidez e uma palermice da inteligência, o chamado hepatismo espiritual: fica-se com a mente obnubilada porque se está refém dessas coisas. A proposta cristã é precisamente o contrário disso. A tradição judaica, por exemplo, dá muita atenção à oração.
7M – A tradição ortodoxa também…
Nós começamos as refeições rezando, pedindo ao Senhor que abençoe, mas o efeito da oração antes da comida é também para amansar o nosso espírito, porque muitas vezes a mesa é um lugar de agressividade, um lugar que pode levar a um certo descomedimento, até a uma certa lassidão moral. Às vezes muitos encontros que terminam numa relação podem começar num jantar, mas pode também haver muita violência e agressividade à mesa e o facto de rezar antes como que disciplina o coração para a ação de graças e para a paz e para a comunhão da mesa. É neste contexto que depois se fala também do jejum e da centralidade da Eucaristia na vida cristã.
7M – Diz que apenas reprimir ou censurar a luxúria é ineficaz e que é preciso reconhecer traumas, carências, medos… Não é isto também que está em causa, seja nas relações descartáveis que hoje temos, seja por exemplo num problema como o do abuso de poder, abuso sexual ou outro?
Gosto desta expressão: a luxúria é o pecado em que o corpo deixa de ser um templo para ser uma vitrina. Olha-se para um templo e tem-se respeito e adoração. Olha-se para uma vitrina e quer-se possuir e comprar e ter. O problema dos abusos entra aqui: o corpo deixa de ser um templo, para ser um objecto de consumo.
Temos de educar também a relação com o outro, com a sexualidade e com o corpo: disciplinar o desejo, disciplinar uma certa distância entre as pessoas e reencontrar o desejo como uma vocação, não como qualquer coisa que me permite devorar. A luxúria é não apenas um vício do corpo, é também um vício da alma; se purificarmos a relação e deixarmos de olhar para o outro como um objecto e [se passar a ser um] templo, um lugar de encontro, então teremos aprendido outra coisa e combater[se-á] muito mais eficazmente o abuso.

Giancarlo Pavanello, Avareza: “O ricos egoísta e sempre ávido tem os bolsos cheios de bolor e esterco, acorrendo a um cofre-forte. O anjo abandona o monomaníaco, envergonha-se da sua metamorfose em rato insaciável e relegado para a sua cloaca preferida.” Foto: Direitos reservados.
7M – Evágrio fala da avareza como aquilo que leva a uma loucura insaciável. Hoje a avareza é também um insulto aos pobres e à exploração da terra, como refere no livro, aliás comparando com a gula, que é um problema (quase) só dos países ricos? Ou seja, a avareza é essa atitude insaciável que acaba por querer tudo e deixar de lado os mais pobres, a própria terra, o planeta?
Sim, essa é a dimensão social deste logismos: a relação deformada com as coisas e com o dinheiro assume hoje uma importância fundamental, a sedução do dinheiro, a avareza, o querer possuir cada vez mais.
Quando [isso] nasce, nasce também com pequeninas coisas: os monges que tinham feito o voto de pobreza e viviam com o essencial, acabam por ver-se apegados a uma simples esferográfica, a uma pena, um pequeno livro, um pequeno objecto e quase que depositavam a alegria da sua existência naquele pequeno objecto.
Hoje pode chegar a esse mal social, em que a ambição de possuir, a voracidade do dinheiro é um mal social que toca a todos; os sacerdotes não estão imunes a esta ambição de possuir, mas chegamos ao cúmulo de que pouca gente vive com uma imensidão de recursos capazes de terminar com a fome no mundo e tanta gente ainda, escandalosamente, não tem o mínimo para subsistir…
7M – É preciso um espírito de sobriedade, como propõe o Papa Francisco na Laudato Si’?
Sobriedade, confiar mais em Deus e não no dinheiro e estabelecer uma redescoberta da beleza da partilha dos bens.
7M – Evágrio tinha a tristeza na lista, mas depois ela desapareceu na codificação posterior do Papa Gregório Magno. Onde está a linha de fronteira entre a tristeza, a depressão e a acédia, que é aquilo que hoje subsiste entre os sete pecados capitais, por contraste com o que foi uma das marcas do Papa Francisco: o permanente apelo à alegria [de alguém que dizia que] os cristãos vivem com rosto de Sexta-Feira Santa?
É muito interessante ver este pecado da tristeza. Evágrio conseguiu isolar a tristeza, como um logismos, um pensamento, uma tentação, um vício que faz parte da vida do cristão. Quando Gregório Magno quis sistematizar os pecados capitais, retirou o pecado da tristeza porque ele diz que não é um acto, é mais um comportamento, uma atitude. Enquanto todos os outros – a gula, a luxúria, a avareza – podem ser identificados através de actos concretos, visíveis, a tristeza não; a tristeza é mais uma atitude e por isso ele disse que é uma consequência e é qualquer coisa que invade os outros vícios, e retirou-o da lista; mas está presente em todos os outros.
São Paulo fala de uma tristeza segundo Deus e uma tristeza segundo o mundo. É preciso distinguir que há uma tristeza positiva que é a tristeza que leva à compunção, às lágrimas, que é o arrependimento e a conversão do coração a Deus. Não é dessa que estamos a falar hoje, mas daquele vício que é como uma espécie de nuvem espiritual que vive sempre sobre a cabeça da pessoa.

Mário Rui de Oliveira na apresentação do seu livro A Estrela e o Espelho – Compreender hoje os pecados capitais, na Capela do Rato, em Lisboa, dia 5 de Março. Na foto vêem-se, a seguir, Teresa Bartolomei, autora do posfácio, o bispo Alexandre Palma, que escreveu o prefácio, e o padre António Matins, da Capela do Rato. Foto © António Marujo/7MARGENS
7M – E a característica diferenciadora?
Evágrio falava da tristeza como um verme do coração, qualquer coisa que vive dentro do coração e corrói e faz apodrecer – com o pessimismo, com o lamento exasperante, o queixume, pensando sempre o prazer trágico de revisitar as injustiças. O Papa Francisco dizia que este pecado, este vício, é encontrar o prazer no desprazer, e por isso é um pecado antes de mais contra a alegria, porque a alegria é a grande vocação do cristão.
Por isso, viver ligado sempre ao desgosto, ter o prazer no desgosto, prazer no sofrimento, a força destrutiva das coisas, acaba por despojar a alma e esvaziá-la, e secar, mirrar a alma.
7M – Se as pessoas não têm prazer nesse desgosto, mas acabam por viver nele, por circunstâncias múltiplas da vida, como é que se faz?
A tristeza, a acédia são muito próximas da depressão. Mas é preciso distinguir: a tristeza não é a depressão, a tristeza é qualquer coisa [para a qual] é precisa uma conversão, enquanto a depressão precisa de um médico. É uma questão clínica e não uma questão moral.
Evágrio dizia que a tristeza era um intruso, um hóspede nocivo. É qualquer coisa que nos chega de fora, não tem a ver com a natureza do ser humano: não vem de Deus e por isso não devemos identificar-nos com ela. A acédia foi depois identificada com a preguiça, mas o Papa Francisco dizia que a preguiça é mais uma consequência da acédia. A acédia é este mal, é o demónio do meio-dia, que acontece muito na meia-idade, em que as pessoas acabam por perder o gosto de viver. Há uma expressão italiana que diz me ne frega, “quero lá saber disso”, é o triunfo de indiferença no coração humano. Isso é a coisa mais terrível que pode acontecer a uma pessoa. A questão já nem é tanto o ateísmo ou o gnosticismo, mas o não querer saber de nada.
7M – E aí o remédio é a alegria.
O remédio tem de ser a alegria. Mas para a acédia se falava também de um trabalho, da perseverança no trabalho. Os beneditinos têm a máxima do ora et labora. Se se repetir como uma cantilena de crianças ora et labora, ora et labora, ora et labora, está a dizer que é um laboratório. Um segredo para a acédia, para a indiferença, é reencontrar o prazer também no trabalho e na oração, sabendo que a alegria é a grande máxima que distingue um cristão de alguém que não recebeu o dom da fé em Jesus.
O áudio original da gravação da entrevista pode ser ouvido a seguir:










