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Mas afinal para que serve o Sínodo?

| 27/06/2024

Mulheres, Ordenação de mulheres, Women's Ordination Conference, Kate McElwee

Marcha pela ordenação de mulheres, promovida pela Women’s Ordination Conference, assinalando o início do Sínodo sobre a sinodalidade. Roma, 6 Outubro 2023. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Posso não saber a latitude da palavra “sinodalidade”, mas penso saber aquilo que não é. A sinodalidade agora chamada por Francisco, bispo de Roma e papa, possui uma sustentabilidade ainda não apreendida por todos aqueles que se dizem por sinodais. Exemplo concreto é dizermos que vivemos em sinodalidade desde sempre, porque na igreja existem várias instâncias onde se pode fazer sinodalidade, e sempre existiram. Uma posição errada, penso eu, do que se supõe por caminharmos juntos, quando todos sabemos que as palavras dos senhores padres é que valem – alguns dizem que os fiéis precisam de ser orientados, penso que será o contrário. Os senhores bispos como pastores que vão sempre à frente na sua sabedoria, penso que alguns vão à frente, mas em sentido contrário. Penso para mim mesmo, dizia, que se tornará numa ilusão esta “sinodalidade”, do “caminhar juntos”, onde são “todos, todos, todos”, mas sem conteúdo, ou seja, com “tudo, tudo, tudo” o que são. Este pensamento não é sinodal, ou caminhamos sempre “ao lado de” e “ao lado com”, ou seremos mais uma vez enganados por uma “inquisição” realizada de um outro modo, mais subtil, mais “manhosa”, como diz o nosso povo. Ser sinodal, que tem muitos especialistas, e como tenho referido sempre, especialista em sinodalidade só poderá ser o povo de Deus, sem este não há sinodalidade, esta só é possível com o Espírito do Senhor que emana de todo o povo, e não só cristãos e cristãs, mas de “todos”, incluindo os ateus. Tantas vezes os ateus nos terão dado lições de sinodalidade participativa, ou seja, não se trata de uma democracia representativa, mas sim, em plena igualdade, de democracia participativa. Ora, isto não pode ser possível numa igreja que ofende os direitos humanos fundamentais, que são naturais, e coloca de fora as mulheres, pelo facto de serem mulheres. Ofender assim os direitos humanos é ofender a génese de Jesus Cristo.

Na nossa frente temos, por exemplo, a Diocese do Porto, onde o primeiro documento, saído da auscultação de comunidades paroquiais ou outras estruturas da Diocese, consegue transmitir o sentir das pessoas, embora reconheçamos tratar-se de uma amostra da diocese. Fui interveniente, nomeadamente na reflexão dos diáconos permanentes, onde as chamadas questões fraturantes estão detalhadas, como o casamento dos padres, a dita questão da homossexualidade, o acesso das mulheres a todas as funções da igreja, incluindo as referentes ao exercício do diaconado, presbiterado ou episcopado e outras mais detalhadamente fundamentais para a igreja de hoje. Um segundo documento, da responsabilidade do Conselho Diocesano Pastoral e do Conselho Presbiteral, “dado o reduzido prazo e dado não haver um dinamismo de encontros sinodais alargado a toda a diocese do Porto” – acrescente-se que noutras dioceses existiu tempo necessário -, afigurando-se já com uma completa ausência da linguagem do primeiro. Há frases significativas. Alguns exemplos: a) sobre a corresponsabilidade diz: “Ao falar de corresponsabilidade e cooperação na missão, sobressai o lugar do bispo diocesano, centro de articulação das pessoas e instituições e modelo de comunhão”, bem, pensava que a centralidade era o Espírito do Senhor, aqui reduzido ao bispo diocesano, que faz parte do povo de Deus, mas não é o povo de Deus; b) “Especial atenção deve merecer a inclusão de mulheres nas instancias de consulta e decisão, mormente nos conselhos pastorais e económicos…”, nem uma palavra sobre o ministério ordenado; c) sobre a família fala “ o acompanhamento do namoro, como preparação para o matrimónio, ao acolhimento e acompanhamento dos casais jovens…”, nem um palavra sobre outros tipos de constituição de famílias; d) nem uma palavra sobre a homossexualidade ou o casamento dos padres e outras questões tão preocupantes para quem está no mundo de hoje. Em conclusão: este segundo documento produzido por um número restrito de pessoas e normalmente muitas “desde há anos”, não possui semelhança com o primeiro.

Se é assim que é a sinodalidade, então não nos compreendemos e não trabalharemos juntos. Se será o que o sínodo irá refletir, é justa a pergunta para que serve o sínodo?

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.

 

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